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sábado, 10 de novembro de 2012

M553 - Prece de um Combatente. Um livro de Manuel Luís Rodrigues de Sousa

Prece de um Combatente
Um livro de:   
Manuel Luís Rodrigues de Sousa 

2.ª CCAÇ/BCAÇ 4512

Jumbembém (Farim-Guiné)
1972-1974

Mais um excelente livro sobre o conflito na Guiné, no decorrer da Guerra do Ultramar, de que damos aqui conta através de um trabalho do seu autor Manuel Sousa (Folgares – Vila Flor), que nos foi enviado por e-mail com fotos resultantes de pesquisa na internet. 

Ganturé 




Localização física


 Aquartelamento de Ganturé, situado na margem Norte do rio Cacheu (época da seca)
Descrição do aquartelamento de Ganturé 


Aspecto do cais de Ganturé 

Em cima: Aquartelamento de Barro 





Aspecto do quartel de Bigene 

Aspecto do Rio Cacheu, mil vezes cruzado pela tropa portuguesa



(Segue-se um excerto do livro “PRECE DE UM COMBATENTE – Nos Trilhos e Trincheiras da Guerra Colonial”) 


Sobre a minha experiência como combatente em campanha na Guiné, em Farim, Jumbembém, de 1972 a 1974, acabei de escrever e publicar este livro que mostro aqui ao lado, que, aliás, já alguns de vós conheceis. 

Todo o seu conteúdo tem como palco a zona de Farim (Jumbembém, Canjambari, Cuntima, Binta, Guidage) e, no final, faz referência a Ganturé, local por onde o meu pelotão passou nos últimos dois meses, em substituição dos fuzileiros, de Junho a Agosto de 1974, além de já ali ter pernoitado em Fevereiro desse mesmo ano, à passagem na minha deslocação naval pelo rio Cacheu de regresso de férias de Bissau, com destino a Farim, cuja descrição também é feita no mesmo livro.


Assim, hoje, aproveitando a oportunidade que a Internet nos dá de acedermos a fotografias de camaradas publicadas em diversos blogues, um banco de informação histórica, neste caso de fotografias, que nos proporciona, com um simples “clic”, acedermos a uma infinidade delas além das que possuímos no nosso álbum, decidi fazer um simples “postal”, alusivo ao DFE (Destacamento de Fuzileiros Especiais) de Ganturé), onde, como disse, passei os dois últimos meses da comissão. 

“Postal” esse ilustrado com uma música do Conjunto Típico Armindo Campos, “Adeus Guiné”, que estais a ouvir em fundo, cujo fonograma foi editado no contexto da guerra colonial, particularmente da Guiné. 

Para quem já leu o meu livro, a que acima fiz referência, já conhece o conceito em que eu tenho as tropas especiais de então, pára-quedistas, Comandos e, neste caso, os fuzileiros. 

Para quem não o leu, deixo aqui um excerto do livro (pág. 158 a 162 do livro) em que traço um paralelo entre a missão das mesmas tropas especiais e as forças normais do Exército, onde destaco precisamente a postura em campanha dos fuzileiros:


“… As tropas especiais das Forças Armadas Portuguesas, Fuzileiros, Comandos e Pára-quedistas, principalmente estas duas últimas forças, já que os fuzileiros da Marinha estavam distribuídos por destacamentos dispersos pela Guiné, no patrulhamento de rios e não só, eram forças de reserva e de intervenção. 

Estavam aquarteladas em Bissau, bem instaladas, bem alimentadas — a própria ração de combate era substancialmente melhor do que a que era distribuída no Exército —, com espírito de grupo coeso, por isso de moral em alta…” 


“… Bem treinadas e fortemente armadas, estavam vocacionadas para intervenções de assalto em operações pontuais programadas. 

Normalmente aerotransportadas até próximo dos objectivos, reduzindo ao mínimo o esforço físico nas deslocações, o que lhes dava a vantagem da surpresa sobre o inimigo, determinante para o sucesso das suas investidas em zonas controladas pelo PAIGC, no caso da Guiné, regressando de seguida ao conforto dos seus quartéis em Bissau. 

Ao invés, o Exército, a chamada, com alguma sobranceria, “tropa macaca”, era uma força de quadrícula, vocacionada para a defesa de determinada área geográfica circundante a pequenos quartéis instalados no interior profundo do território, como era o caso de Jumbembém”... 

“… O seu isolamento com a permanência constante no local e a condição de se deslocarem obrigatoriamente pelas picadas de acesso em colunas de reabastecimento, tornavam as suas forças vulneráveis a serem surpreendidas por emboscadas, colocação de minas e ataques aos quartéis por parte do PAIGC, com o consequente desgaste físico e psicológico dos seus militares que isso implicava...”


“… Dessas três forças especiais, destaco a postura dos fuzileiros da Marinha na progressão pela mata, ao longo da picada, em direcção a Guidage, cuja imagem ainda tenho bem presente: 

Militares de compleição física robusta, alguns deles já com mais de uma comissão, com experiência de guerra, de barba grande, de barriga proeminente, de bota de cabedal de cano alto, de boina preta, armados de metralhadoras MG com longas fitas de munições em volta do corpo, com aspecto tipo “rambo”.


Comparáveis a um “motard” de hoje, com a diferença de que o “motard” usa moto e capacete e esses fuzileiros usavam metralhadora e boina preta...” 

“… Inspiravam, de facto, segurança e, com aquela postura, transmitiam às restantes forças envolvidas, de que eu fazia parte, ânimo e autoconfiança perante as circunstâncias.” 

Bravos Fuzileiros!!!! 

Mais informação procurar no Google > Prece de um Combatente (sítio do livro) 
Fotos: Pesquisadas na internet. 
Formatação: Manuel Sousa (Folgares – Vila Flor)


terça-feira, 7 de agosto de 2012

M528 - PATRIOTISMO - Não se vê, nem se apalpa... sente-se!


"QUE OS VIVOS MEREÇAM OS NOSSOS MORTOS" 


Um dos blogues com maior impacto junto da malta cibernética, é sem dúvida nenhuma o blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné, que atingirá em breve 4 milhões de visitas.

Numa das últimas mensagens ali publicadas, no dia 6 de Agosto, com a referência P10231: Álbum fotográfico de Abel Santos (1): Viagem de ida, Bissau, Nova Lamego e Cheche, da autoria de Abel Santos, que foi Soldado Atirador da Companhia de Artilharia Nº 1742 (CART 1742), cumprindo o seu serviço militar na guerra do Ultramar, na Guiné - Nova LamegoBuruntuma -, 1967/69), tem uma foto do memorial que tem inscrito: "QUE OS VIVOS MEREÇAM OS NOSSOS MORTOS".

Aqui fica esta curta e singela homenagem aos mortos da CART 1742 e a todos os que tombaram em combate no citado conflito.

PARA QUE NUNCA OS ESQUEÇAMOS! JAMAIS!





Mensagem completa em:

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/08/guine-6374-p10231-album-fotografico-de.html

Guiné 63/74 - P10231: Álbum fotográfico de Abel Santos (1): Viagem de ida, Bissau, Nova Lamego e Cheche 


sexta-feira, 15 de junho de 2012

M476 - 10 de Junho de 2012 - Dia de Portugal (3)

10 de Junho de 2012
Dia de Portugal
Belém/Lisboa
Monumento aos Combatentes da Guerra do Ultramar 
A malta da Guiné


 Jorge Canhão, Vacas de Carvalho, Jorge Cabral e Miguel Pessoa (CorPilAV Ref.)
 José Colaço, RANGER António Pimentel, Vasco da Gama e RANGER Mário Fitas (camisola amarela, de costas) 
 Aspecto geral
 Capitão-Enfermeira Giselda com outra enfermeira 

RANGER Fitas (camisola amarela, de costas), Miguel Pessoa, Virgínio Briote, RANGER António Pimentel, Francisco Silva, Silvério Lobo, Vasco da Gama e Jorge Cabral
 RANGER Fernando Chapouto (lado direito)
RANGER Fitas à conversa com RANGER MR 

Fotos: © Jorge Canhão (2012). Direitos reservados.   

sexta-feira, 4 de maio de 2012

M446 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Carta aberta ao António Lobo Antunes: que p... é essa de ter talento para matar? (17)


Esta é a 17ª mensagem, continuação das mensagens M417, 418, M422, M423, M424, M425, M426, M427, M429, M432, M433, M434, M436, M437, M439, M442 e M445, onde se iniciou a publicação de algumas das memórias de guerra de Amílcar Mendes, Recordamos que estas mensagens também podem ser vistas no blogue: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/

38ª Companhia de Comandos 
Uma lenda da Guerra do Ultramar 
Guiné – 1972/74 


Dois Comandos da Guiné, que ainda hoje vivem a mística dos comandos: o Virgínio Briote, dos primeiros Comandos em Brá (1965/67) e o Amílcar Mendes (1972/74), no seu encontro durante o decorrer das cerimónias do dia 10 de Junho de 2009,em Belém Lisboa. 

Carta aberta ao António Lobo Antunes: que p... é essa de ter talento para matar? 

Nos intervalos da minha actividade na praça de Lisboa, vou-me deliciando a ler algumas pérolas literárias de ex-combatentes (?) acerca da Guerra do ultramar, em especial daqueles que, evocando as suas memórias, as vão editando em livro, o que fazem muito bem, até para que a geração actual possa avaliar o que passaram os pais, avós, etc… 

Por esse motivo devem aqueles que escrevem ter o cuidado de transmitir tudo o que se passava na guerra. Vejamos: actividade operacional, social, relações com a população, falar se foi justa ou não, sequelas deixadas, os camaradas mortos, as saudades, tudo, mas tudo aquilo que passou deve ser deixado em escrita. Sem nunca sair da realidade, porque estivemos lá milhares e sabemos avaliar a verdade e a mentira e, se a mentira exceder a verdade, o escritor arrisca-se a cair no ridículo. 

Um caiu! Ó Sr. médico, escritor e combatente, Lobo Antunes, por favor, apenas peço que me explique a mim, ex-combatente que repetidas vezes olhou a MALVADA nos olhos, que A viu por uma dúzia de vezes levar nas garras os seus camaradas de COMPANHIA, eu que por uma vez A iludi mas ficou a SUA marca, a mim que dormi em bolanhas noites a fio, que em emboscadas intermináveis mijava no camuflado (e que bem sabia o quente) sem me poder mexer, que sentia um medo danado a cada vez que ia para a mata, a mim que comi marmelada com capim, a mim que bebia o mijo dos animais nas raras poças de água na mata, e finalmente a todos os milhares que lá estivemos, gostaria por favor que me respondesse a esta simples pergunta: 

- Mas que porra é essa de ter talento para Matar? É como ter talento para Mentir? Vou pensar que o Senhor é um ficcionista da escrita e como tal inventou tudo o que escreveu. Se é esse o seu caso está perdoado, mas quando escrever mais alguma coisa sobre guerra, peça aconselhamento a alguém sério que lá tenha estado e tenha realmente conhecimento do que foi a guerra e combater nela, não invente demasiado se não ninguém o vai levar a sério. 

Bem, mas a pergunta mantêm-se para quem souber responder, talvez o Sr. João Silva (**). Mas que raio é ter talento para matar? Uma pista: Os HÉROIS acontecem por acaso, os cobardes vivem com convicção. Desculpe a minha ortografia mas sou um pobre inculto sem pretensões a escritor. 

Um grande abraço para todos os ex-Combatentes. 
Amílcar Mendes 
1º Cabo Comando da 38ª CCmds 

Notas do Dr. Luís Graça, fundador do blogue acima mencionado: 

(**) Referência a João Céu e Silva, autor do Uma Longa Viagem Com António Lobo Antunes (Porto Editora, 2009) 

Parece que o pomo da discórdia, as declarações feitas por A. Lobo Antunes, no México, em Agosto de 2008, está na página 391... Escreve o autor de Uma Longa Viagem... João Céu e Silva: 

(...) Nas várias entrevistas que deu durante a deslocação a Guadalajara [em Agosto de 2008, para receber o Prémio Literário Juan Rulfo], António Lobo Antunes fez uma declaração inédita, que poderá ser parte da solução do mistério sobre um certo episódio em África que se recusou revelar-me: 

"Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois e vinte e três anos, que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam motros valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros" (...). 

É preciso recordar que A. Lobo Antunes foi Alferes Miliciano Médico, entre 1971 e 1973, no Leste de Angola, e não na GUINÉ... O tema da guerra colonial é recorrente nos livros e nas entrevistas do escritor... Cite-se, por exemplo uma entrevista dada o ano passado ao Público... É, quanto a mim, que sou seu leitor (de longa data, mas nem sempre regular - não gosto da palavra 'fã', procuro ser um leitor crítico), uma notável entrevista do escritor de Arquipélago da Insónia (o seu penúltimo livro, acabado de sair), e em que se fala dos temas que lhe são caros e obsessivos: a literatura, a escrita, a infância, a figura do pai, a psiquiatria, as mulheres, a vida, a doença, a morte… 

Havia duas referências à guerra colonial nessa entrevista... O escritor tinha passado recentemente por uma situação, bem dura, de combate contra a doença, uma neoplasia. Tudo se relativiza quando um homem ganha este round e se prepara para o próximo… A vida é um combate de boxe contra a morte... 

Aqui vai um pequeno excerto: 


(…) [Público: ] Quando digo que tresanda a morte, não digo que me apeteça morrer ou matar-me, ou matar. 

[António Lobo Antunes:] Não queria falar sobre isso, mas eu estive na guerra. Matar é muito fácil. Quando o Melo Antunes estava doente, nunca tínhamos falado sobre a guerra e ele começou a falar; a mulher aproximava-se e ele dizia: "Não podemos falar mais." Perguntava-lhe: "Ernesto, porque é que não sentimos culpabilidade?" Assisti e participei em coisas horríveis. E ainda hoje não sinto culpabilidade. Porquê? Ele também não soube responder. É estranho. Porque sinto culpabilidade por ter ferido uma pessoa verbalmente, por ter sido injusto para alguém. 

[Público:] Sente culpabilidade por que pensa que vai sobreviver àqueles que estão na mesma sala, à espera da radioterapia. 

[António Lobo Antunes:] Sentia-me culpado porque eu ia viver e eles não. Eles eram melhores do que eu. Tinham coragem. Eu estava todo borrado. Li um bocadinho das cartas da guerra, cartas que me oferecia para ganhar o meu respeito; cheguei a ir sentado no guarda-lamas dos rebenta minas. Porque me achava um cobarde e me enojava a cobardia física. Assisti uma única vez ao espectáculo da cobardia física, e é repelente. Os nossos soldados eram miúdos, de 19, 20, 21 anos. Admiráveis. Agora vão para a discoteca, naquela altura iam dar tiros. Iam matar e morrer. Voltando ao livro: o que eu queria era meter lá a vida toda, e não acho que seja triste. Acho que sou agora mais alegre do que era. (…) 

Há já mais de duas dezenas de comentários (alguns destemperados, contrários ao espírito do blogue, onde o chamado direito à indignação não pode levar, por seu turno, ao incitamento à violência...) sobre este famigerado tópico do "talento para matar"... 

Ainda sobre o António Lobo Antunes, veja também as seguintes mensagens publicados no dito blogue: 


(...) "Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas" (...). 


Texto e fotos: © Amílcar Mendes (2006). Direitos reservados. 
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Do mesmo autor veja também as mensagens: 

1ª Mensagem em 16 de Março de 2012 > 

2ª Mensagem em 18 de Março de 2012 > 

3ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

4ª Mensagem em 27 de Março de 2012 > 

5ª Mensagem em 30 de Março de 2012 > 

6ª Mensagem em 31 de Março de 2012 > 

7ª Mensagem em 3 de Abril de 2012 > 

8ª Mensagem em 5 de Abril de 2012 > 
M427 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Soldado Comando Raimundo, natural da Azambuja, morto em Guidaje: Presente! (8) 

9ª Mensagem em 8 de Abril de 2012 > 

10ª Mensagem em 12 de Abril de 2012 > 

11ª Mensagem em 15 de Abril de 2012 > 

12ª Mensagem em 17 de Abril de 2012 > 

13ª Mensagem em 19 de Abril de 2012 > 

14ª Mensagem em 22 de Abril de 2012 > 
M437 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Guidaje, Maio de 1973: Só na bolanha de Cufeu, contámos 15 cadáveres de camaradas nossos (14) 

15ª Mensagem em 24 de Abril de 2012 > 
M439 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Promessa de comando: vou retomar as minhas crónicas de guerra (15) 

16ª Mensagem em 27 de Abril de 2012 > 
M442 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Gampará (Agosto a Dezembro de 1972): Nem só de guerra vive um militar (16) 

17ª Mensagem em 1 de Maio de 2012 > 

terça-feira, 1 de maio de 2012

M445 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: O meu baptismo de fogo: Morés, 8 Agosto de 1972 (16)



Esta é a 16ª mensagem, continuação das mensagens M417, 418, M422, M423, M424, M425, M426, M427, M429, M432, M433, M434, M436, M437, M439 e M442, onde se iniciou a publicação de algumas das memórias de guerra de Amílcar Mendes, Recordamos que estas mensagens também podem ser vistas no blogue: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/

38ª Companhia de Comandos 

Uma lenda da Guerra do Ultramar 

Guiné – 1972/74 

O 1º Cabo Amílcar Mendes, 38ª CCmds. Mata de Morés. 1972. Preparado para tudo!

Emocionei-me com alguns relatos da minha primeira vez "debaixo de fogo inimigo” e decidi, por homenagem a um grande amigo, de quem irei falar mais tarde, partilhar convosco esta minha primeira experiência. Desta vez, e porque não quero melindrar ninguém, alguns nomes serão alterados. 

Acho que a partir do momento em que me ofereci voluntário para os Comandos no já longínquo ano de 1969 fiquei a sonhar como seria a minha primeira vez. 

Sonhava de olhos abertos e revia-me em todos os filmes de guerra. Imaginava-me o tipo duro que debaixo de fogo iria estar a rir-se e a desdenhar sem nenhum respeito pelo inimigo. Sonhava ser o tipo “Mata todos e volta só!” 

Isto claro na minha ingenuidade dos 18 anos cheirava a bravata, e contagiado pelos relatos que ia lendo das tropas especiais que lutavam no Vietname e que me enchiam a cabeça de fantasia. Ser dos Comandos antes do 25 de Abril, no continente, era tabu, era mistério e sedução, para os meus 18 anos. Nem eu imaginava como ira ser diferente essa realidade. 

Tenho que elucidar que, naqueles anos de guerra colonial, ir para os Comandos e conseguir sê-lo, obrigava a ter que passar por muitas etapas. Uma delas era de que mesmo com o curso de Comandos concluído e já na fase operacional, a especialidade Comando só era averbada depois de termos tido contacto com o Inimigo em teatro de guerra e nem que isso demorasse um ano tínhamos de aguentar para só depois em parada recebermos o Crachá. 

A sua entrega em parada tinha um cerimonial e onde um graduado Comando nos perguntava a berrar: 

- Queres ser Comando? - e se a nossa resposta era Sim, ele respondia: 

- Então vai e cumpre o teu dever! 

E era nesse momento que nós passávamos a pertencer a uma Família de quem nos iríamos orgulhar pela vida fora e até a morte. Bem, isto tem muito a ver com a vontade que tínhamos em ter contacto com o IN para nos armarmos em vaidosos com o crachá. 

Cheguei à Guiné no dia 29 de Junho de 1972 e depois de uns dias de folga em Bissau onde a CCmds esteve a receber o armamento, no dia 10 de Julho 1972 seguimos em coluna com destino a Mansoa. Nesse mesmo dia encontrei o meu amigo Germano, 1ªcabo cripto e um velho amigo de família com quem eu passei muitos dos serões em Mansoa nos intervalos da fase operacional. 

Lembras-te, Germano, como aquilo foi duro para mim? Lembras-te de eu regressar das operações do Morés e como desabafava contigo? 

Antes de passar ao debaixo de fogo quero aqui recordar, e tu lembras-te, Germano, pois estavas ao pé de mim, dizia eu recordar o meu primeiro contacto nu e cru com essa malvada chamada “morte” e que se me apresentou da forma mais cruel que se possa imaginar. Para o contar vou relembrar o que na altura escrevi no meu diário de guerra. 

15 Julho de 1972 

Estava à conversa com o Germano junto à nossa caserna quando ouvimos um tiro vindo do interior. Corri para lá e de repente nesse minuto ao olhar um corpo no chão vítima de um disparo acidental perdi toda a minha inocência guerreira e acho que um mundo de responsabilidade e verdade se abateu sobre os meus ombros. Foi a primeira baixa da companhia. O soldado Ilídio da Costa Moreira. 

Depois de sair para fora da caserna senti-me agoniado e vomitei e senti que tudo o que me foi ensinado no curso foi pouco para lidar de frente com a morte. 

8 Agosto de 1972 

Saí ontem para uma operação heli-transportada, a partir de Mansoa e até ao local da largada. O Germano foi dar-me um abraço. 

Desembarcamos na mata do Morés na região DANDO -QUENHAQUE-SINRE. A operação foi um golpe de mão num aldeamento onde as populações estavam sob controlo IN e o objectivo foi atacar e destruir as instalações para criar um clima de instabilidade. 

Entramos no aldeamento e estava vazio. O silêncio era impressionante, notava-se que o IN à nossa aproximação fugiu. Começamos a passar revista às tabancas e de repente ouve-se um tiro. Um furriel do meu grupo detecta um turra emboscado e mata-o. Durante a revista apanhamos diverso material de guerra e documentos. Destruímos 10 palhotas e 2 grandes celeiros. 

Saímos do aldeamento quando caímos na primeira emboscada, em guerra. 

Sofremos fogo concentrado de flagelação. Foi um momento de excitação para mim. É a primeira vez que estou debaixo de fogo do IN. Reagimos à emboscada, fomos para cima deles e saímos do local. 

Nesse mesmo momento outros dois grupos da Companhia são emboscados perto de nós e têm um morto. Foi o nosso primeiro morto em combate. O camarada Francisco José, natural de Évora. 

Começamos a andar em direcção ao local de recuperação que já não era em heli. Tivemos que andar dúzias de km em direcção a Infandre. A um dado momento desfaleci. Valeu-me uma “Coramina” para me recompor. Pelo caminho entramos noutro aldeamento onde fomos recebidos com rajadas de kalash. 

Nessa aldeia levei um banco que o meu amigo Germano (lembras-te?) trouxe para a metrópole. Chegamos à estrada, perto de Infandre, já muito tarde e a recuperação ficou para de manhã. 

Durante a noite os mosquitos iam-me bebendo o sangue todo. 

Duração da operação: 24 horas 

Resultados: 

- IN: 1 morto e vários feridos, visto terem sido encontrados vários rastos de sangue; 
- NT: 1 morto e 1 ferido ligeiro 
- Destruído um acampamento de 10 palhotas e vários celeiros 

- Material capturado: 

2 Granadas defensivas F-1 
1 Granada defensiva mod. 63 
Documentos e material diverso 

E esta foi a minha primeira vez e como foi um bocadito para o duro. 

Quero agradecer ao Germano toda a disponibilidade que nesse tempo dispôs para me apoiar. Obrigado AMIGO. 

Um grande abraço para todos os ex-Combatentes. 
Amílcar Mendes 
1º Cabo Comando da 38ª CCmds 

Texto e fotos: © Amílcar Mendes (2006). Direitos reservados. 
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Do mesmo autor veja também as mensagens: 

1ª Mensagem em 16 de Março de 2012 > 

2ª Mensagem em 18 de Março de 2012 > 

3ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

4ª Mensagem em 27 de Março de 2012 > 

5ª Mensagem em 30 de Março de 2012 > 

6ª Mensagem em 31 de Março de 2012 > 

7ª Mensagem em 3 de Abril de 2012 > 

8ª Mensagem em 5 de Abril de 2012 > 
M427 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Soldado Comando Raimundo, natural da Azambuja, morto em Guidaje: Presente! (8) 

9ª Mensagem em 8 de Abril de 2012 > 

10ª Mensagem em 12 de Abril de 2012 > 

11ª Mensagem em 15 de Abril de 2012 > 

12ª Mensagem em 17 de Abril de 2012 > 

13ª Mensagem em 19 de Abril de 2012 > 

14ª Mensagem em 22 de Abril de 2012 > 
M437 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Guidaje, Maio de 1973: Só na bolanha de Cufeu, contámos 15 cadáveres de camaradas nossos (14) 

15ª Mensagem em 24 de Abril de 2012 > 
M439 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Promessa de comando: vou retomar as minhas crónicas de guerra (15) 

16ª Mensagem em 27 de Abril de 2012 > 
M442 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Gampará (Agosto a Dezembro de 1972): Nem só de guerra vive um militar (16) 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

M442 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Gampará (Agosto a Dezembro de 1972): Nem só de guerra vive um militar (16)


Esta é a 16ª mensagem, continuação das mensagens M417, 418, M422, M423, M424, M425, M426, M427, M429, M432, M436, M437 e M439, onde se iniciou a publicação de algumas das memórias de guerra de Amílcar Mendes, Recordamos que estas mensagens também podem ser vistas no blogue: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/

38ª Companhia de Comandos 

Uma lenda da Guerra do Ultramar 
Guiné – 1972/74 

Nem só de guerra vive um militar 


Guiné > Zona Leste > COP7 > Margem esquerda do RCorubal > Gampará > 1972 > "Nunca como aqui rapei fome" 



Guiné > Zona Leste > COP7 > Margem esquerda do Rio Corubal > Gampará > 1972 > "Em Gampará com o meu grande amigo Furriel Cmd Ludgero dos Santos Sequeira, a quem mais tarde na picada do Cufeu (outra vez) numa mina iria ficar às portas da morte, ficando quase cego até aos dias de hoje. Continuamos grandes amigos. Um abraço para ti, Sequeira!". 

(i) A cerveja de marca Mijo 

Em Gampará não existe gerador. As noites são mesmo noite e, tirando umas chamas improvisadas nas garrafas de Cristal, nada se vê. No arame farpado duplo, as sentinelas esfregam os olhos para tentar distinguir vultos junto ao arame farpado. Pendem do arame centenas de garrafas de cerveja vazias que são o último grito em tecnologia de alarme. Nesta terra do nada, nada há. Temos uns bidões vazios, fizemos umas caleiras em chapa para apanhar a água da chuva e é dessa água que enchemos os cantis e nos lavamos. 

A população beafada, embora seja muito hospitaleira, é muito ciosa das suas coisas e não abre mão dos animais, somos então obrigados a ir ao desenrasca até porque já atingimos a saturação dos petiscos de Gampará: cubos de marmelada com bianda, bacalhau liofilizado com bianda, chouriço intragável com bianda e tudo acompanhado por cerveja com temperatura ao nível do mijo... Dizia-se então em Gampará quando os hélis vinham trazer mantimentos, que vinham entregar cerveja marca Mijo. Assim se vive em Gampará! 

(ii) Feliz Natal e um Ano Novo cheio de 'propriedades'... 

Todas as noites e sempre à mesma hora, na ausência de música, ficamos entretidos a tentar contar as morteiradas que brindam o destacamento do Xime! Ficamos à espera quando acaba lá e os tubos sejam virados para o nosso lado... Nunca na Guiné atingi um estado de magreza igual. Nunca na Guiné as condições de vida foram tão miseráveis. 

Entramos no mês de Outubro e veio cá uma equipa da Emissora Nacional para gravar as mensagens de Natal para a nossa família. Não foi fácil. Todos íamos para um canto repetir vezes sem conta: Queridos Pais, irmão e irmãs e restante família, desejamos um Natal feliz e um Ano cheio de “propriedades”!... Esta última palavra era emendada mil vezes, que isto com os nervos e emoção não é fácil! 

E como a ladainha era igual para todos, só muito depois é que muitos se lembravam que só tinham irmão ou irmãs, mas isso não era problema. Estavam presentes as Senhoras do Movimento Nacional Feminino. Animavam-nos porque a meio da mensagem muitos desatavam a chorar. Uma das Senhoras era de uma simpatia sem igual (Só anos mais tarde soube que era a Cilinha!) 


(iii) O dia mais feliz: quando chegava a LDG com as 'meninas' de Bissau... 

Em Gampará um dia verdadeiramente feliz para os militares era quando chegava a LDG e vinham as meninas de Bissau trazidas pelo Patrão, e que tinham por missão aliviar o stress do pessoal. 

As meninas chegavam, instalavam-se numa tabanca, o pessoal passava pelo posto de enfermagem (?), recebia o sabão asséptico, o tubo da pomada para meter pelo coiso acima a seguir ao acto... Entretanto formava-se a bicha e trocavam-se larachas para matar o tempo, do tipo Quando chegar a minha vez com tanta gente, 'aquilo' parece o arco da Rua Augusta!. 

A seguir era rezar para que o “esquenta” não aparecesse... 

(iv) O nosso regresso a Bissau 

19 de Outubro de 1972. Soubemos hoje que metade da 38ª CCmds regressa amanhã e outra metade irá permanecer aqui a fim de dar o treino operacional à CCAÇ 4142 até 3 de Novembro de 1972. O meu Grupo de Combate será um dos que regressa. 

Gampará, com todas as privações, teve o mérito de reforçar ainda mais os laços de amizade e confiança da 38ª CCmds. Aprendemos na privação a dar valor às pequenas coisas que a vida nos dá. A amizade entre os praças, sargentos e oficiais é na 38ª CCmds visível a quem observa a Companhia de fora. Essa amizade irá reflectir-se em diversas ocasiões e irá levar a Companhia a muitos sucessos na actividade operacional. 

20 de Outubro de 1972. Pela MSG imediata 3831/c , a 38ª CCmds regressa a Bissau, donde segue para Mansoa para um período de descanso, ficando apenas a realizar segurança imediata ao Aquartelamento. (Esse período de descanso só durou três dias, logo a seguir correram connosco para Teixeira Pinto, de tão má memória para a 38ª CCmds) 

Um grande abraço para todos os ex-Combatentes. 
Amílcar Mendes 
1º Cabo Comando da 38ª CCmds 

Texto e fotos: © Amílcar Mendes (2006). Direitos reservados. 
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Palavras usadas no texto de origem crioula: 

Bianda = Comida, arroz, base da alimentação da população na época 


Tabanca =- Aldeia, morança, cubata, casa
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Do mesmo autor veja também as mensagens:


1ª Mensagem em 16 de Março de 2012 > 

2ª Mensagem em 18 de Março de 2012 > 

3ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

4ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

5ª Mensagem em 30 de Março de 2012 > 

6ª Mensagem em 31 de Março de 2012 > 

7ª Mensagem em 3 de Abril de 2012 > 

8ª Mensagem em 5 de Abril de 2012 > 
M427 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Soldado Comando Raimundo, natural da Azambuja, morto em Guidaje: Presente! (8)

9ª Mensagem em 8 de Abril de 2012 > 

10ª Mensagem em 12 de Abril de 2012 > 

11ª Mensagem em 15 de Abril de 2012 > 

12ª Mensagem em 17 de Abril de 2012 > 

13ª Mensagem em 19 de Abril de 2012 > 

14ª Mensagem em 22 de Abril de 2012 > 
M437 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Guidaje, Maio de 1973: Só na bolanha de Cufeu, contámos 15 cadáveres de camaradas nossos  (14)

15ª Mensagem em 24 de Abril de 2012 > 
M439 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Promessa de comando: vou retomar as minhas crónicas de guerra  (15) 

terça-feira, 24 de abril de 2012

M439 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Promessa de comando: vou retomar as minhas crónicas de guerra (15)

As palavras desta mensagem do Amílcar dão que pensar!

Não é segredo para ninguém que a cobardia e a traição reinam em Portugal desde os seus mais ancestrais primórdios da fundação como país. 


Se calhar hoje mais de que nunca!

Cobardes e traidores sempre os houve e continuará a  haver. Infeliz, lamentável e tristemente.

A solução seria eliminá-los fisicamente e o meio mais indicado, embora qualquer outro servisse bem, o fuzilamento!

Em democracia, para bem das corjas, a "coisa" não funciona assim.

Então temos que conviver, lado a lado, com essa corja abjecta, nojenta e ascorosa. 


Eles distinguem-se bem, por gestos e palavras, desprezam e quando podem destroem os valores e ideais da nacionalidade lusa.


Odeiam quem não alinha na sua mentalidade e sanha obtusa e tacanha, quase sempre alicerçadas em educações de base manhosa, ressabiada e plena de lacunas, quer ao nível de conhecimentos históricos, quer ao nível da evolução da sua formação intelectual.

Uma posição podemos tomar e essa também nós, os que amamos a Pátria, com todos os seus defeitos e qualidades, temos direito também pela democracia, a rejeitar e desprezar esse esterco bolorento com forma humana. 


Que esta nação JAMAIS esqueça as gerações dos anos 1960 e meados dos de 1970, que na Guerra do Ultramar deram TUDO aquilo que tinham, por vezes o que não tinham, com 21, 22 anos de idade, milhares inclusive o seu próprio sangue e vida, a pedido do poder político vigente de então, em nome da manutenção do nome de Portugal em fracções de terra africana (Angola, Moçambique e Guiné).


Fizeram-nos voluntariosamente pensando na História de Portugal, dos Homens que desbravaram novos mundos Além-mar, dos milhares de aventureiros portugueses que arriscaram e rasgaram, nesses longínquos territórios, novas horizontes e novas cidades.   



Esta é a 15ª mensagem, continuação das mensagens M417, 418, M422, M423, M424, M425, M426, M427, M429, M432, M436 e M437, onde se iniciou a publicação de algumas das memórias de guerra de Amílcar Mendes, Recordamos que estas mensagens também podem ser vistas no blogue: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/



38ª Companhia de Comandos 



Uma lenda da Guerra do Ultramar 

Guiné – 1972/74 

Retomando as minhas crónicas de guerra 

As notas tomadas durante situações de stress, algumas delas memorizadas debaixo de fogo, e em que o pensamento na altura pertencia a um jovem e arrogante guerreiro que inchava de vaidade, quando a intervalos das operações descia a cidade da Bissau e se pavoneava de orgulho, exibindo para a plateia o seu camuflado - éramos a única tropa autorizada a fazê-lo na cidade -, o lenço preto e a boina com fitas pretas. 

Éramos já nesse tempo admirados por uns e odiados por outros. Nunca compreendi o olhar de desprezo com que alguns camaradas nos brindavam, [em Bissau]. E porquê? A maioria dos soldados que frequentavam a 5ª Rep (Café Bento), Pelicano, Zé da Amura, Ronda, Império, etc... eram militares em trânsito para regressar ao mato e que de alguma forma já tinham colado a orelha ao chão connosco em alguma picada, trilho ou destacamento. Podíamos até nem comungar dos mesmos ideais mas no perigo éramos gémeos. 

Só muito mais tarde e com as mudanças da sociedade a nível político consegui decifrar o significado dos olhares que me eram dirigidos no tempo de guerra e em época posterior, já então no Regimento de Comandos da Amadora. Percebi que esses olhares vinham de alguns camaradas mais esclarecidos(ou manipulados) em política e em que para eles tropas especiais era o que havia de mais desprezível no teatro de guerra. Assassinos. Comedores de criancinhas, frios e calculistas, sem ponta de emoção. Já na Amadora e com a liberdade esses ódios declararam-se e fui cuspido e chamado frontalmente de assassino. 

Vem isto a propósito de quê? Quando comecei a escrever no Blogue, começaram logo a aparecer umas vozes críticas que eu fui ignorando, direi mais, desprezando, porque realmente já 'tou farto de guerrilheiros do arame farpado e chegou ao ponto de haver aqui quem insinuasse que nós, os COMANDOS, só éramos valentes em grupo, o que quer dizer que isolado sou um cobarde. 


Nunca isso me incomodou, até ao dia em que as mensagens anónimas começaram a chegar. Aí parei. Mas não foi por medo. Foi por achar que tais pessoas (?) não mereciam partilhar daquilo que me é muito íntimo. O que me pode afectar são acontecimentos e não pessoas. Sou um “cota” simpático, tentando alegrar os dias que vão passando e em que muita coisa já me passa ao lado e não percebo como ainda existe gente que, decorridas quase quatro décadas, ainda vive ressentida por aquilo que outros fizeram lá tão longe. 

Bem, longe vai esta mensagem e o que queria dizer é que vou mandar mais apontamentos do meu diário de guerra e isso porque, se há quem não goste, há muito mais quem goste. 

Um grande abraço para todos os ex-Combatentes. 
Amílcar Mendes 
1º Cabo Comando da 38ª CCmds 

Texto: © Amílcar Mendes (2006). Direitos reservado.

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Do mesmo autor veja também as mensagens:

1ª Mensagem em 16 de Março de 2012 > 

2ª Mensagem em 18 de Março de 2012 > 

3ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

4ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

5ª Mensagem em 30 de Março de 2012 > 

6ª Mensagem em 31 de Março de 2012 > 

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M427 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Soldado Comando Raimundo, natural da Azambuja, morto em Guidaje: Presente! (8)

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