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sábado, 4 de agosto de 2012

M526 - Noções sobre Minas e Armadilhas - Parte 1, por Carlos Nabeiro


Noções sobre Minas e Armadilhas - Parte 1

por Carlos Nabeiro 

1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842 

Vila Gamito - Moçambique - 1967/70 

Da autoria do nosso Amigo Carlos Nabeiro, aqui apresentado na mensagem M504, 1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842, Vila Gamito, Moçambique, 1967/70, recorrendo às suas memórias do tempo da Guerra do Ultramar, enviou-nos mais uma mensagem e alguns esboços sobre uma matéria daquele tempo, que, infelizmente, é ainda hoje uma triste e dramática realidade - as minas -, que passamos a publicar: 

Não sou um perito nesta matéria, mas vou tentar estabelecer alguns termos de comparação, entre a forma, tipo e efeitos destes "sujos" artefactos explosivos, sem recorrer a muitos pormenores, visto que a minha especialidade não foi minas e armadilhas, ou sapador. 

Assim, vou apenas escrever sobre o que vi e aprendi na "minha" zona operacional (ZO) sobre este grande flagelo. 

Os dois tipos de minas eram destinados a tornar inoperacionais viaturas (anti-carro ou A/C), ou a estropiar seres humanos (anti-pessoal ou A/P). 

Esta praga, era também designada, erradamente, por “Fornilhos”, cuja classe incluía outro tipo de armadilhas explosivas. 

Este tipo era montado nas estradas e picadas, em buracos efectuados no subsolo, onde eram colocados engenhos explosivos e todas a classes de munições, geralmente já obsoletos, que serviam, uns como explosivos, outros como estilhaços. 

Com estas últimas, fomos muitas vezes castigados, a montagem era fácil pois bastava um detonador, que podia ser uma granada de mão defensiva, que era despoletada através do arranque da golpilha de segurança, dando-se a detonação, ou por petardos de TNT com detonador, previamente preparados para rebentar ao serem pressionados. 

A nossa companhia nunca "levantou" nem "accionou" nenhuma, das minas clássicas que nos mostraram no tempo dos nossos cursos militares de então e eram fabricadas na indústria de material de guerra. 

Já quanto aos Fornilhos, todos eles como é óbvio de fabrico artesanal, tão letais como um engenho vindo da fábrica, eram de muito difícil detecção, mesmo recorrendo à preciosa ajuda de um detector de metais. 

Os Fornilhos, são classificados, a par com as minas, eram entre todas as classes de armas e engenhos bélicos, o mais "sujo" de todos. 

Escondidos traiçoeiramente no subsolo, como foi já dito, ao contrário da minas anti-carro, que geralmente tinham a regulação dos seus detonadores para actuarem com algumas centenas de quilos, um Fornilho causava muitos danos, quase sempre irreparáveis. 

Para detonarem eram autónomos, ao contrário do que vem nos manuais, não eram accionados por alguém escondido á distância, que ao ver passar uma coluna os fazia explodir, no momento que mais lhe aprouvesse de modo a causarem maiores danos, quer materiais, quer pessoais. 

Estes tanto destruíam uma viatura de grande porte – por exemplo uma Berliet -, como pulverizavam um ou mais homens que estivessem nas proximidades. 

Os detonadores destes explosivos/artefactos, eram de dois tipos: eléctricos ou de compressão, com uma sensibilidade enorme. 

Eram vulgares os Fornilhos por activação eléctrica, cujo rudimentar mas engenhoso "interruptor", actuava com uma pressão que rondasse os vinte quilos, e por vezes menos, fazendo deflagrar sete a dez quilos de petardos de TNT, contidos num cunhete (caixa de munições de armas ligeira), idêntico aos das actuais armas. 

Geralmente, para agravar o perigo das suas eventuais desmontagens, eram colocadas por baixo destas "caixas" de madeira, uma granada sem cavilha de segurança, em que o peso da dita caixa sustinha a respectiva alavanca de segurança. 

No caso de ser detectado o Fornilho e se fosse feito o seu levantamento, sem se ter detectado a granada, esta deflagrava e por "simpatia" rebentava todo o restante material ali depositado. 

O funcionamento do Fornilho com detonador eléctrico, como se pode ver no croqui - letra a) -, por baixo da roda da viatura, é o "interruptor", repetido mais em baixo. 



a) Interruptor.
b) Cunhete com o detonador e a pilha seca de 4,5 volts.
c) Granada armadilha. 


Vê-se duas ripas de madeira, ou tábuas, de 5 a 10 cm de largura no máximo, com o comprimento de 30 cm (a largura de um pneu). 

As ditas ripas ou tábuas, até podiam ser as da tampa do Cunhete (não desperdiçando assim nada), eram envolvidas na zona do meio, por dois pedaços de chapa de ferro (que podiam ser as das rações de combate que a nossa malta negligentemente durante as suas idas para o mato, muitas vezes não as enterrava). 

Com um prego, ou uma ponta perfurante, eram abertos dois furos em cada pedaço de lata, sem soldaduras de qualquer tipo, onde eram ali ligados (atados) os dois condutores eléctricos, como se pode ver no rascunho. 


Um vai ao detonador, que está introduzido no orifício de um dos petardos dentro do cunhete e o outro condutor é ligado á outra tábua com corrente eléctrica de uma pilha de 4,5 volts (uma derivação eléctrica ou Interruptor). 

Nas extremidades das duas tábuas, com um canivete ou faca de mato eram abertos: na tábua que ficava voltada da para cima, um buraco, como disse em cada extremidade, com o diâmetro suficiente para passar apertado um pau da espessura de um lápis. 

Na tábua inferior, eram abertos somente encaixes. 

Mais pormenores se podiam descrever, mas basta olhar o anexo com figuras de componentes do Fornilho, o modelo da pilha seca eléctrica e do encaixe das tábuas do cunhete, onde não há um prego, só cola. 

A caixa, sendo de madeira, não é assinalada por qualquer detector, pese embora haver componentes metálicos, mas sendo estes são de massa reduzida podem escapar ao detector de metais. 

A granada contra-armadilha também pode escapar à detecção, porque se for uma granada ofensiva é de plástico. 

Na próxima mensagem continuo este relato, descrevendo outro tipo de Fornilho, que é actuado por detonador de pressão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

M511 - O quartel de Vila Gamito - Moçambique - Por Carlos Nabeiro

Carlos Nabeiro
1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842
Vila Gamito - Moçambique - 1967/70 

Carlos Alberto Pitéu Nabeiro, foi apresentado na mensagem M504. 1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842, Vila Gamito, Moçambique, 1967/70, e enviou-nos mais uma mensagem e algumas das fotos do seu álbum de memórias, que passamos a publicar:


1. Ao iniciar esta minha segunda mensagem lembro um grande Amigo, Camarada, bom líder e Adjunto do Comandante de Companhia - o Alf. Mil de Operações Especiais/Ranger, Fernando Gaspar Ferreira, que sempre estimei como um irmão e que foi o comandante do meu pelotão. 

Ligava-nos um estranho acaso (ou não), o termos nascido no mesmo dia, mês e ano, além de sermos da mesma estatura física (ele um pouco mais atlético). 


Fomos para a tropa ao mesmo tempo, ele para o Curso de Oficiais Milicianos (C.O.M.) e, eu, para o Curso de Sargentos Milicianos (C.S.M.). 

A nossa empatia ficou mais reforçada, quando numa ocasião em que o RANGER Ferreira veio num período de férias ao Continente e me surpreendeu ao deslocar-se de Tomar, ou Santarém, até Setúbal para dar noticias minhas aos meus pais. 


Tínhamos um senso de humor muito Igual, que pode ver-se na foto em que ambos pegamos em armas apreendidas aos turras – Simonovs russas -, e simulamos um ataque à baioneta, entre nós. 

Dá-me que pensar, como foi possível sem nunca nos termos conhecido antes, de uma forma para mim estranha, num universo de milhares de homens que foram mobilizados para a Guerra do Ultramar, eu ter encontrado naquele ser humano, o que eu considero ter sido o meu gémeo astral. 

Vivíamos num grande isolamento numa zona que se tornou muito perigosa mas, as instalações não eram más, tínhamos água com fartura, não comíamos muito, nem bem, mas tínhamos sempre tudo limpo e arrumado, e andávamos sempre bem fardados. 


Na foto a cores que tirada num domingo (dia do Hastear da Bandeira Nacional), está o RANGER Ferreira e o capitão Artur Agnelo Coelho Amaral (o primeiro dos três capitães que tivemos ao longo da Comissão), perfilado em continência. 


Retrato da nossa chegada a um local pré-estabelecido para darmos inicio a uma operação contra o inimigo ao nível da Companhia, onde eu estava com a malta da minha secção. Vê-se, pendurado ao pescoço, uma versão então moderna do celebre rádio "Banana" - um AVP com seis canais. 

Falávamos entre nós, elementos da companhia, e, se necessário, com os aviões de apoio e protecção às colunas. 

O RANGER Ferreira, infelizmente já não está entre nós, pois foi vítima de um cancro no pâncreas. 

2. O quartel de Vila Gamito construído no sopé de uma colina, tinha dimensões razoáveis, em plano inclinado, e possuía poucas instalações, além de uma Parada enorme. 

A Parada era desmatada e nela cabia uma Esquadrilha de Helicópteros. 


Era pois na Parada que estiveram posicionadas as Peças de Artilharia, que, como foi dito, devido ao acentuado declive da mesma, permitia a vantagem delas poderem mudar rapidamente de posição e ângulo de tiro e, caso fosse necessário, disparar de diversas Cotas Métricas. 


As fronteiras comuns: Moçambique, Malawi e Zâmbia, estavam a 40 quilómetros de Vila Gamito e o aquartelamento, quando lá chegamos, tinha meia dúzia de metros de valas que serviriam de em caso de ataque e estava completamente desprovido de abrigos de defesa passiva. 

Mais tarde, como a zona começou a ser classificada como “zona avançada”, devido ao crescente número de contactos com o inimigo, resultantes, nomeadamente, da passagem de grupos armados com destino para o interior do distrito de Tete. 

Assim, as instalações passaram a ser ocupadas e defendidas por outras Armas. 

Pode-se perguntar: “Então os turras não faziam tiro ao alvo lá de cima dos montes? 

Vejamos: Aquele Estacionamento Militar, em princípio foi construído pela Engenharia para ser usado apenas por Companhias de artilharia (apoio de retaguarda). 

Como é sabido, as armas de Artilharia pesada são de tiro curvo. 

Daí, a colina da qual se obteve a foto acima, em cujo cimo se encontrava uma pequena construção de cimento e tijolo, semi-enterrada no solo com o telhado em forma de terraço, servia perfeitamente para posicionar um homem, com um binóculo, ou outro instrumento, na regulação da precisão de colocação dos tiros das Peças de Artilharia. 

No sopé da colina tinha uma área escavada no seu interior onde se situava o Paiol. 

No Abrigo da regulação de tiro, passou a ficar de vigilância 24 horas/dia uma secção, que era rodava por todos os pelotões, evitavam-se "visitas" indesejadas. 

No perímetro do quartel, além das duas filas de arame farpado, o outro lado da elevação foi todo armadilhado mais tarde. 
Não fora o nosso isolamento, distávamos cerca de 130 km de Picadas inenarráveis para chegar á Sede do Batalhão e a 300 de Tete e tínhamos a nosso cargo uma zona enorme para Nomadisar (patrulhar), ou em operações a pé, ou de helicópteros (emprestados pela Rodésia). 


Detectamos fornilhos aos montes, tivemos um ou outro recontro como inimigo muito rápido na Picada e algum “arraial” a noite toda. O que nos valia é que os nossos"visitantes" tinham só armas ligeiras. 

Assim, apesar de não haver muito com que nos alimentarmos, o "quartel" era o nosso Paraíso. 

Ainda no nosso tempo, a Engenharia voltou lá para acabar a obra, e que obra Santo Deus, pois abriu-nos um furo Hertziano dentro da Parada, que nos dava água com fartura e de boa qualidade. 

Enfim no meio daquilo tudo foi uma bênção. 




segunda-feira, 16 de julho de 2012

M504 - Carlos Nabeiro, ex-1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842, Vila Gamito, Moçambique, 1967/70

Carlos Nabeiro
1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842
Vila Gamito - Moçambique - 1967/70 



Carlos Alberto Pitéu Nabeiro, que foi 1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842, Vila Gamito, Moçambique, 1967/70, é um grande Camarada, Amigo e apreciador da especialidade de Operações Especiais/RANGERS, onde conta com alguns bons Amigos, enviou-nos uma mensagem e algumas das fotos do seu álbum de memórias, que passamos a publicar: 
  
1. Nasci a 21 de Junho de 1945. 

Não tenho formação Universitária, limitei-me a concluir o 2º Ciclo dos liceus e mais uns tempos de Escola Industrial. 
Começo por descrever o meu rocambolesco percurso militar de três anos (Tavira CISMI - 10 de Julho de 1967 -, a RI 15 - Tomar -, 14 de Julho de 1970):
 

Assentei praça no CISMI como instruendo miliciano Atirador, no fim do primeiro ciclo, enquanto camaradas do meu pelotão seguiam para o Curso de Oficiais Milicianos (C.O.M.), eu fui para a rua. Nunca me entendi com o alferes e rebelei-me uma ou duas vezes. 

Depois de ter sido "corrido" de Tavira, fui para a Escola Militar de Electromecânica em Paço D'Arcos. 

Segui, para formar batalhão, para o RI 15 e promoveram-me a 1ºCabo. 

Embarquei no Vera-Cruz, no dia 24 de Abril de 1968, integrado na CCAÇ 2357, componente do BCAÇ.2842, unidade esta a que o pertenceu também o nosso Camarada RANGER Froufe Andrade (CCAÇ 2358). 

Lá fomos até Moçambique para o TO de Tete. 

Dos vinte e quatro meses que ali permaneci, vinte e um foram passados no mato, num local com o nome pomposo de Vila Gamito (duas fotos). 

Zona operacional com muitos fornilhos, que feriam e matavam muito pessoal, e destruíam material e mantimentos, e com algumas (poucas) flagelações e emboscadas. 

Sempre fui um indivíduo disciplinado e metódico, nunca confundi disciplina e competência com prepotência, achincalhamento e castração psicológica. 

Para me tornarem duro e agressivo não foi necessariamente forçoso que tivesse que ser maltratado e vexado. Gosto de saber a razão das coisas. Dir-me-ão, a tropa é assim mesmo, não é um colégio, para mais na altura estávamos em guerra. 

Comecei a baldar-me sempre que possível e fui eliminado do curso. 

Já em Moçambique, na terra da verdade, provei como no meu caso tinha razão. Fiz de tudo, mas, atenção, nunca fui voluntário para nada. À luz do RDM cumpria com o que me era ordenado. Cumpria, mas se me "cheirava a esturro”, disciplinadamente dizia que não estava de acordo. 

Estive mais que uma vez em risco de apanhar uma "porrada", por assumir responsabilidades de defender o pessoal que saía comigo para o mato, e que, devido ao seu estado de saúde, não ofereciam garantias de adequada operacionalidade. 

Verdade é que nunca levei nenhuma e acabei por ser louvado! 


Certo dia mandaram-me fazer uma segurança avançada ao “estacionamento”, seguido de montagem de uma emboscada nocturna, numa noite com um luar resplandecente. 

Estávamos com as forças nas lonas e sujeitos a ficar com feridos e mortos, pois andávamos a chegar de manhã ao quartel, descansar umas horas e, á noite, saíamos outra vez, se fosse necessário, como foi muitas vezes o meu caso. 

Às duas horas da madrugada a minha secção inteira estava cheia de frio, com os homens enrolados nos cobertores e deitados numa valeta a roncarem que nem uns desalmados, isto em pleno mato. Podíamos ser detectados a dez quilómetros de distância. 

Devia ralhar com aqueles desgraçados ou ameaçar com participações? 

Para não sermos apanhados à mão acordei-os e fomos caminhando, com as devidas precauções, para o estacionamento. Gritei a senha e meti o pessoal na cama. 

Em seguida fui falar com o meu comandante de pelotão e na manhã seguinte apresentei-me ao nosso Capitão. Eu bem lhes tinha dito que aquela saída ia dar barraca. 

Esta história e outras têm mais contornos, mas seria muito fastidioso estar com tantos detalhes. 

Fui Vague-Mestre durante as suas férias do nosso (Fur Mil Sá Pinto), cavei valas, abri espaldões e abrigos, escoltei, embosquei e piquei itinerários no lugar do Sargento-Quarteleiro que não percebia patavina do que era picar. 

Casado e com uma filha pequena - o Pereira -, teria uns trinta e cinco anos. 

Vinha pedir-me: “Oh Nabeiro vai lá tu por mim, eu não percebo nada daquilo, tu sabes, acabaste curso há pouco tempo, tu sabes disto!” 

Eu respondia: “Mas eu não pertenço à vossa classe, sou soldado, foi você Pereira que foi escalado.” 

“Eh pá, eu sei, mas é a minha filhinha e a minha mulher, é por elas.” 

2. Sobre a actual situação dos Combatentes da Guerra do Ultramar: 

14 de Julho de 2012. A França comemorou mais um dia da sua nacionalidade, com pompa e circunstância, respeito e estima pelos seus militares, os caídos e os sobreviventes de todos os tempos. 

Sem vergonha nem arrependimentos, a França Belicista, Colonialista, Imperialista, etc, etc, está-se borrifando para todos estes "simpáticos" epítetos, presa a sua identidade. 

Portugal, como é que em Portugal se procede no dia da sua nacionalidade? 

O povo envergonha-se de si. Não honra a sua História. Escamoteia a verdade! 

Esquece os que caíram em seu nome e despreza os sobreviventes. 

Paradoxalmente muitos desses sobreviventes, sofrem de síndroma do Calimero, dando uma no cravo e outra na ferradura. 

Muitos dizem que foram obrigados a ir para a guerra. Que passaram as passinhas do Algarve, que não tinham nada a ver com “aquilo”, que foi uma guerra injusta (será que há guerras justas?). 

No reverso da medalha querem ser respeitados. 

Mas como!? Se eles próprios ajudaram a criar a má imagem com que são olhados e o mito de serem uns coitadinhos… desgraçadinhos! 

Alguns, dizem até que estão arrependidos do mal que fizeram!? 

Afinal que mal fizeram e a quem? 

Eu não tenho pesos desse quilate na minha consciência! 

Não devo desculpas a ninguém, pelo contrário, devem-me a mim explicações os vendilhões do Templo, os que tramaram a pulhice do olhar negativo sobre os Combatentes e as piranhas da ganância internacional. 

Esses sim, devem-me a mim e aos que assumem ter combatido com lealdade e ter cumprido as obrigações, que lhe eram impostas, em nome da Nação, pelo poder político de Salazar e Caetano. 

Provavelmente algumas figuras"iluminadas" dirão que este meu "discurso" é fruto de uma mente ignorante e reaccionária, a raiar a senilidade dum velho de sessenta e sete anos. 

Que o seja, mas então convido-os a ver o que se passa num país – França -, que homenageia e honra os seus militares, mortos e vivos, que pelo link 


Aspecto do terreno e da flora em Vila Gamito
Aspecto do quartel de Vila Gamito
Material de guerra, quase todo de origem URSS e China, capturado ao inimigo
 Um dos primeiros Alouettes III a surgir na guerra
 Unimog destruído por uma mina anti-carro
 Outro Unimog vítima da mesma traiçoeira arma 


quarta-feira, 4 de julho de 2012

M491 - HOMENAGEM AOS ALF MIL VIRIATO BAPTISTA, FUR MIL DOMINGOS CORREIA e FUR MIL JOSÉ FERREIRA CARNEIRO, MORTOS EM MOÇAMBIQUE -COMBATE -, DA CCAÇ 3355 DO BCAÇ 3843. Pelo RANGER Orlando Cardoso



HOMENAGEM PESSOAL AO ALF MIL VIRIATO BAPTISTA, FUR MIL DOMINGOS CORREIA E FUR MIL JOSÉ FERREIRA CARNEIRO, DA CCAÇ 3355 DO BCAÇ 3843, MORTOS EM COMBATE


Já aqui foi dito ma mensagem M109, que o RANGER Orlando Cardoso do 3º Curso de 1970, cumpriu a sua comissão militar em Moçambique, na Companhia de Caçadores 3355 (CCAÇ 3355) do Batalhão de Caçadores 3843 (BCAÇ 3843), como Furriel Miliciano, entre os anos de 1971 a 1973, em Estima/Tete e Molumbo/Vila Junqueiro/Zambézia. 

Nesta mensagem o RANGER Cardoso, quer prestar a sua singela e justa homenagem àqueles que nós RANGERS jamais esqueceremos, TODOS os portugueses mortos em combate Por Portugal, na Guerra do Ultramar. 

Há vários mortos que o RANGER Orlando Cardoso, tem sempre presente na sua memória, mas 3 deles de modo mais vivo pois possui fotos com eles ainda vivos, à chegada à Beira em meados de de Maio de 1971: o Alf Mil Viriato Baptista, Fur Mil Domingos Correia e Fur Mil José Ferreira Carneiro, da sua CCAÇ 3355, e que relembra nas duas fotos seguintes:

foto 1 - da esquerda para a direita – Fur Mil José Maria Ministro Santos, Fur Mil Victor Santos, Fur Mil Domingos Correia (falecido em 26-01-1972, devido a explosão de uma mina anti-carro), Eu, Alf Mil Dias (evacuado), Fur Mil Corado, Fur Mil Belmiro Rodrigues, Fur Mil Jorge Soares, Fur Mil Olímpio Godinho e Fur Mil José Ferreira Carneiro (morto em combate, em 10-10-1972) 


foto 2 - da esquerda para a direita/de cima para baixo – Fur Mil Belmiro Rodrigues, Fur Mil José Ferreira Carneiro (morto em combate, em 10-10-1972), Fur Mil Olímpio Godinho, Eu, Alf Mil Viriato Baptista (morto em combate, em 18-09-1972), Fur Mil Jorge Soares, Fur Mil Corado, Alf Mil Pinto (evacuado), Fur Mil Domingos Correia (morto em 26-01-1972, devido a mina anti-carro)

domingo, 3 de junho de 2012

M466 - Assassinados TRAIÇOEIRA E BARBARAMENTE por Combaterem COMO PORTUGUESES, por Portugal


A MAIS ALTA DE TODAS AS TRAIÇÕES 


SENTIDA HOMENAGEM DE GRATIDÃO A CHISSOIA E A TANTOS OUTROS MAIS QUE NOS OBRIGARAM A ABANDONAR 

P. F. Leia e divulgue, para que não se varra da memória tão vil traição. 

História de Homens NUNCA derrotados em combate, de Homem para homem, frente a frente de armas na mão, mas sim pela cobardia e traição, quando já desarmados e abandonados à sua infeliz e triste sorte, pela tropa portuguesa e iludidos e enganados pelo seu inimigo de ontem que com  promessas vãs e palavras de "cobras traiçoeiras" dos seus carrascos. 

(Relato verídico extraído do livro "Kinda", de Carlos Acabado, da colecção "Fim do Império" Nº3) 


CHISSOIA  

Quando a luz difusa que anuncia o amanhecer tropical começou a dar cor ao casario da cidade, havia já na marginal um movimento desusado. Ao fundo da avenida, frente ao porto, a praça fora engalanada com bandeiras e a tribuna erguida na véspera, recheada de cadeirões forrados a veludo vermelho, aguardava, imponente, a chegada das individualidades. Comemorava-se o dez de Junho e Portugal, de Camões e da raça, e os heróis iam ser solenemente exaltados. 

Do alto do pedestal a estátua do navegador, erguida no centro do largo, olhava a baía a que os raios do sol nascente douravam já as águas tranquilas, como se aguardasse ainda a chegada das naus, deslizando suaves e silenciosas, como cisnes negros de asas brancas. 

Nesse tempo, a população descia dos morros e barrocas sobranceiras á zona ribeirinha, esperando que os nautas varassem os botes na praia para o encontro dos mundos que "o mar já unia". Agora, a baía, que se recorta como um sensual dorso de mulher, foi pudicamente coberta com o manto verde das palmeiras da marginal, e na comunhão dos mundos só as naus estão ausentes. Portugal e o mar ali estavam, marcando presença perante uma população que, a pouco e pouco, tomou a cor da mestiçagem de sangue e vivência, deixando perplexo, quem se interrogasse, de que raça se iriam enaltecer as virtudes naquele dia! 

A praça fora enchendo. As cadeiras da tribuna tinham sido ocupadas e um general, em voz monocórdica e enrouquecida, lia o discurso onde salientava que quinhentos anos de esforço, e querer, uniam o herói que, ali imortalizado em pedra, olhava absorto o oceano sem fim, aos heróis de hoje que, frente á tribuna, aguardavam o agradecimento da Pátria reconhecida. 

Perfilado, com a dignidade de um bem-nascido, altivo no camuflado verde, o Chissoia aguardou o chamamento e a leitura do louvor em que era descrito o seu acto de bravura. Subiu os degraus da tribuna e, como se fosse talhado em ébano, sem mover um músculo, abriu o peito largo onde o general, quase em bicos dos pés, lhe colocou uma cruz de guerra, dizendo-lhe em voz baixa que Portugal sentia orgulho por ter filhos como ele. Regressou ao lugar na fila dos heróis e, erecto, assistiu ao desfile de estandartes dos batalhões espalhados pelos confins do território, à passagem do corpo de fuzileiros, do regimento de comandos, dos flechas e dos leões de Cabinda, que em marcha acelerada entoavam canções guerreiras. A cavalaria fechou o desfile a galope curto, com garbo e tradição. 

Era impressionante a portugalidade que se respirava e as gentes, de todas as cores, que tinham emoldurado a praça, ao dispersarem derramavam na cidade a confiança inabalável no Portugal granítico e multirracial que, naquela manhã, tinha estado presente naquele largo, frente ao porto. 

Quando conheci o Chissoio era ele já um veterano de guerra, não que fosse velho, pelo contrário, apenas começara cedo e aprendera depressa. Parece que desde pequeno acompanhava o pai como pisteiro de elefantes. O Lucusse, onde nascera, era uma zona de passagem dos paquidermes que, nos seus itinerários até ao rio Lungué-bungo, muitas vezes destruíam o trabalho de meses no arranjo das lavras. Entre os animais e os aldeões travava-se uma luta pela sobrevivência, em que nem sempre eram os humanos os vencedores. Era assim natural que os caçadores, convidados pelo governador do distrito ou pelos homens importantes da província, fossem vistos com agrado pelas populações, pois além de abaterem alguns animais, afugentando por algum tempo as manadas, deixavam toneladas de carne que, mesmo dura e fibrosa, o soba e o velho Chissoia ficavam encarregados de distribuir. Aos brancos só os dentes interessavam, e o velho pisteiro aguardava que os crânios enterrados apodrecessem para lhes retirar as presas que, numa próxima visita, entregava já limpas de medula. 

Foi nessa época que os Chissoias, pai e filho, se tornaram amigos de gente importante. O profundo conhecimento das matas e a perícia em seguir e interpretar trilhos como quem lê um livro, aliados à camaradagem que a aventura comum proporciona, permitiu-lhes sentarem-se, conversar e comer lado a lado com os grandes da terra que, amiúde, os presenteavam como prova de reconhecimento. O prestígio do velho Chissoia era grande perante as populações, não só dos povoados próximos, como de toda a região. 

Corriam tranquilos os primeiros anos da década de sessenta. A luta que se ateara no norte do território não tinha chegado ainda às planícies sem fim do leste. As matas eram seguras e, logo pela manhã, as mulheres seguiam em fila e sem receios, para as lavras onde recolhiam lenha e mandioca para o sustento da prole. 

Uma madrugada apareceu no Lucusse um grupo de gente estranha à região. Vinha armada e queria falar com o soba. Depois de uma longa conversa, e perante a atitude de incompreensão e até de alguma hostilidade, o chefe do grupo resolveu utilizar um meio de persuasão mais eficaz e, perante a população aterrorizada, fuzilou o soba por ser um chefe corrupto e o velho Chissoia por ser lacaio dos colonialistas. O filho fugiu para a mata e, passados dias, chegou à capital do distrito, onde contou o sucedido. Acompanhou depois a força militar que foi enviada para a zona e seguiu, até ao fim, a pista de rastos humanos como o pai lhe ensinara a seguir a dos elefantes. 

A partir dessa época ficou ligado ao destacamento militar que foi aquartelado na povoação. O seu conselho e actuação foram sendo cada vez mais imprescindíveis, acabando por ser integrado nas forças irregulares, chefiando um grupo de homens escolhidos por si e com relativa autonomia. 

Quando a luta de defesa do território foi alargada ao leste para suster a tentativa do inimigo de alcançar o planalto central por essa via, a táctica das nossas forças teve que se adaptar ao terreno plano e com grandes extensões pouco povoadas. A Força Aérea iniciou então uma colaboração íntima nas operações terrestres, proporcionando uma maior mobilidade através de helicópteros e aviões ligeiros. Foi nessa época que conheci o Chissoia, e muitas horas passadas em amena conversa, junto das fogueiras que aqueciam as noites frias das savanas de leste, caldearam a amizade e a admiração que desde então sentia por ele. 

Uma tarde, quando o crepúsculo já anunciava a noite que cairia breve, perto do lago Dilolo, quando o seu grupo dava protecção a um movimento das nossas tropas, houve uma emboscada e dois soldados feridos jaziam no chão dentro do campo de tiro do inimigo, que continuava a alvejá-los. Passado o primeiro momento de surpresa, o Chissoia levantou-se e, a descoberto, com a arma ao quadril, fazendo fogo para se proteger, foi buscar um e, depois, o outro, arrastando-os para lugar mais seguro. 

Foi por esse acto de bravura que o Chissoia esteve presente naquele dez de Junho, em que o general se esticou para lhe pendurar a condecoração na farda honrada e que, passados tantos anos, algures num recanto de Portugal, dois homens de meia-idade podem recordar, em reuniões de família, como uma vez, quando estavam no Ultramar, um preto lhes salvou a vida. 

O ano de setenta e quatro decorreu convulso! A esperança inicial, transmitida pelos novos políticos no poder, em vez de tranquilizadora e bem colocada, parecendo ter a percepção da complexidade dos problemas a enfrentar, fora substituída por dúvidas cada vez mais angustiantes. As cidades tinham acolhido com palmas os guerrilheiros vindos das matas, aplaudindo-os como actores inesperados, num final de acto antecipado e improvisado, mas antes do fim do ano muitas das mais importantes povoações eram já palco de lutas entre os diversos movimentos, com recurso a armas pesadas, que destruíam tudo o que fora construído com sacrifício e amor. 

As Forças Armadas portuguesas, desviadas dos seus objectivos e da sua missão, assistiam a tudo como espectadoras, ocupando, salvo raras excepções, um lugar pouco digno. 

A partir do meio do ano setenta e quatro, começaram a chegar a Lisboa os soldados do fim da era imperial. Traziam estampada no rosto, na farda e na mente, a parte negativa da revolução. 

A população civil começara há muito a sair face à insegurança em que se passou a viver , e muitos de nós, militares, habitávamos as casas vazias onde tínhamos vivido com as famílias, aguardando o fim da missão. 

Uma noite ouvi um bater tímido de palmas no quintal da casa que ainda ocupava. Quando abri a porta, o Chissoia e a família estavam à minha frente. 

"Preciso de ajuda!" atirou, quase envergonhado. 

"Entrem e sentem-se por aí", disse, apontando os caixotes onde embalava o que queria levar de regresso a Lisboa. "Cadeiras já não há!", conclui. 

A mulher e os filhos acocoraram-se, silenciosos, junto à parede da sala. Eu e ele sentámo-nos frente as frente, como sempre tínhamos feito, cada um em seu caixote. 

"Estamos abandonados!", começou "Três dos meus homens foram detidos por um dos movimentos de libertação, e foram mortos..." 

"Não pode ser", interrompi "Vocês terão que ser protegidos nos acordos que se fizeram" afirmei, procurando eu próprio dar convicção ao que dizia. 

"As patrulhas deles procuram-nos sem que alguém nos dê protecção!..." 

"Isso não faz sentido! A responsabilidade aqui ainda é nossa... o comandante do batalhão é a autoridade!", exclamei indignado. 

"Fui ao comando militar hoje à tarde. Um tenente de barbas, que parece ter chegado há pouco tempo, disse-me uma coisa que me deixou sem dúvidas..." 

"O que foi?", perguntei. 

"Quando soube o meu nome, perguntou o que é que eu esperava que acontecesse aos lacaios e traidores do povo...". As lágrimas dançavam-lhe nos olhos sem cair, como se a raiva e o orgulho as segurassem. "Isso foi o que disseram ao meu pai em Lucusse antes de o fuzilarem...", e num desabafo murmurou "Só que esses eram negros... um tenente branco não me pode dizer isso... porque aqui o traidor é ele... eu fui condecorado, o general disse-me que tinha orgulho de mim, de um português como eu... quando esse homem souber o que me disseram..." 

Olhei-o cheio de amargura, sem ter a coragem de lhe dizer que esse general assumira agora outras funções e que ele, Chissoia, era uma ligeira sombra na sua memória, nas suas preocupações... talvez na sua consciência. 

Desceu sobre nós um silêncio pesado e trágico. Olhávamo-nos mudos. Os caixotes em que nos sentávamos e a casa vazia que nos albergava pareciam ser tudo o que restava do mundo em que até aí tínhamos vivido. 

Subitamente, a filha mais nova, com os cinco anos a reluzirem-lhe na face risonha, levantou-se e, sem quebrar o silêncio, foi apanhar do chão uma boneca de cabelos loiros que uma das minhas filhas tinha deixado para ser enviada nos caixotes. Voltou a acocorar-se junto à mãe com a boneca nos braços, cantando-lhe baixinho uma canção de embalar, que certamente aprendera com as mães negras do bairro onde vivia. 

A pouco e pouco a força telúrica da melodia, quase murmurada, foi aquecendo o silêncio, enchendo-o da energia profunda da África eterna, renascida das cinzas, verdejante depois das queimadas. A alma foi-se-nos erguendo como se a canção fosse um hino que nos devolvia o ânimo e, em silêncio, ambos procurávamos já a solução que todos os problemas têm. 

"Eu posso arranjar passagens para Luanda no avião de amanhã" alvitrei, buscando saída. 

"Luanda não é o meu povo. Só lá fui uma vez..." referia-se à data da condecoração "Lá ficamos ainda mais desprotegidos". 

"Posso tentar que vão para Portugal, mas, pelo que sei, não vai ser fácil nem rápido", disse, recordando as notícias que nos chegavam pelas tripulações. 

"O mais difícil é sair daqui com a família. Com eles não consigo passar sem ser visto". 

"Mas sair para onde?", perguntei, sem vislumbrar a solução. 

"Tenho gente na mata, que me mandou recado. Há movimentos que não se importam de nos aceitar. Precisam de homens com experiência para as guerras que vão chegar." 

"Que posso fazer?", interroguei com desalento, pensando no papel que teríamos ainda que representar na tragédia que se vislumbrava já no horizonte. 

"Aquela pista que uma vez abrimos para utilizar só em operações especiais, continua boa e abandonada...", sugeriu a medo, consciente do que pedia "Podemos ser postos lá?..." 

Eu tinha presente a localização da pista. Fora aberta na orla de uma mata, longe de povoações, apenas para ser utilizada em operações que se desenrolassem perto da fronteira. 

"Já mandei os meus homens sair da cidade, só ficaram duas mulheres, eu e a minha família; se nos puder ajudar..." 

Sabia o risco que corria ao dizer-lhe que sim. A zona já fora evacuada pela nossa tropa e, ainda que isolada, poderia andar perto algum grupo que não hesitaria em abrir fogo se nos visse aterrar. 

Pela minha memória passou aquela madrugada em que tinham chegado ao acampamento os dois soldados feridos, mas salvos pelo Chissoia. 

O Portugal que eu era devia um sacrifício, um acto de gratidão, ao Portugal que ele, Chissoia, deixara já de ser. 

Dormiram essa noite na minha casa depois de ter ido buscar, furtivamente, as duas mulheres e mais duas crianças, evitando as patrulhas que circulavam pelas ruas desertas da cidade. De manhã, muito cedo, meti-os no jipe que ainda me estava distribuído, e dirigi-me à base onde tinha o avião para regressar a Luanda logo que a minha missão ali estivesse cumprida. 

Desloquei e tomei o rumo da pista que nos aguardava na mata. Daí ao Lucusse seriam uns dias de caminho árduo, mas era preferível percorrê-lo a serem abatidos como traidores. 

A faixa deserta estava mergulhada no silêncio hostil das coisas abandonadas. Tudo estava agora vazio, dominado pela mata que parecia querer recuperar para si a pista, como cicatrizando uma ferida aberta. Aterrei e, para não parar o motor, mantinha-o a baixas rotações. O hélice provocava um som triste de chicotadas que, repercutindo-se de árvore em árvore, ia morrer nos confins da floresta. 

O Chissoia ajudou a família a descer rapidamente do avião, conhecendo perfeitamente o perigo que todos corríamos se, por acaso, um grupo dos novos senhores da guerra nos surpreendesse. Ao sair colocou-me, num gesto mudo, a mão sobre o ombro, dizendo assim tudo o que nem eu nem ele tínhamos coragem para dizer. Depois, caminhou apressado à frente do seu pessoal em direcção à mata. As mulheres e os filhos seguiam-no em fila indiana. Não teve mais um olhar, mantinha o porte altivo e digno que sempre lhe conheci. Um a um, vi-os desaparecer entre as árvores, como se a floresta os engolisse. Só a mais pequena, a última da fila, se deteve um instante e, voltando-se, com a boneca de cabelos loiros na mão, fez-me adeus e sorriu, num gesto puro de quem não sabe que se despede para sempre. 

Fiquei a olhar o sítio onde desapareceram, aguentando a solidão imensa que me gelava a alma. Quantas traições, quantos abandonos e deslealdades serão necessários para erguer e desfazer um Império? Em quantas praias desertas teremos deixado companheiros? Em quantas matas teremos abandonado gente que em nós confiou? Quantas vezes desertamos das responsabilidades que assumimos? Quantas vezes traímos? 

Desloquei e, já no ar, dei por mim a pedir a Deus protecção para o camarada perdido. 

No dia seguinte, o mecânico que passou inspecção ao avião, entregou-me uma medalha de Cruz de Guerra que encontrou caída no chão, junto ao banco em que o Chissoia se sentara. 



QUE A MEMÓRIA DESTES COMBATENTES POR PORTUGAL, CUJO ÚNICO CRIME FOI TEREM A PELE ESCURA E COMBATEREM  LEAL E FIRMEMENTE, COMO PORTUGUESES, AO LADO DOS NOSSOS SOLDADOS PORTUGUESES, PERMANEÇA BEM VIVA, ENQUANTO HOUVER UM PATRIOTA EM PORTUGAL!


sexta-feira, 11 de maio de 2012

M450 - RANGER/GEP José Duarte do 2º Curso de 1972


Hoje apresenta-se nesta nossa formatura em parada virtual, onde todos podemos e devemos formar lado-a-lado, independentemente dos cursos.

Todos sabemos que o C.I.O.E./C.T.O.E. completou 50 anos de idade e, assim, fabrica RANGERS da melhor estirpe, qualidade e dureza mundial desde 1962. 


RANGER é RANGER, quer tenha sido mobilizado, entre 1962/75 para a Guerra do Ultramar, quer agora para missões em territórios de "aparente" paz.

RANGER/GEP José Duarte, frequentou o 2º Curso de 1972, e foi mobilizado para Moçambique, onde completou também o exigente e rigoroso curso de G.E.P. (Grupos Especiais Paraquedistas).

RANGER/GEP José Duarte
2º Curso de 1972

Foi Oficial de Instrução em Penude (Cmdt do OF 3), no 3º curso de 1972. 

Seguiu para o G.A.C.A. 2 em Torres Novas, para formar batalhão. 

Partiu para Moçambique, tendo sido 2º CMDT da C.A.R.T. 7253, colocado em Mocimboa do Rovuma (Janeiro de 1973). 


Actividade operacional 

Seguiu para Omar ( Março de 1973). 

Em Abril de 1973, foi para o Dondo frequentar o curso de paraquedismo no Centro de Instrução de Grupos especiais - C.I.G.E. (Dondo).

Foi nomeado Comandante do G.E.P. 007, desenvolvendo  actividade operacional em Guro, Madzuirgue, Mungari, Catulene e Catunguirene.

Foi ferido em combate na zona de Catunguirene, tendo sido tratado em:
Hospital Militar de Tete
Hospital Militar de Lourenço Marques
Hospital Militar Principal (Lisboa)

Posteriormente seguiu-se:
Depósito Geral de Adidos (como Oficial de Justiça).

Promovido a Tenente em 1976.

L.A.M. (Lar Académico Militar, Cmdt da comp. de alunos dos 5º , 6º, 7ºanos e universitários e também da terceira idade). 

E.P.I.( Escola Prática de Infantaria, curso de promoção a capitão). 

D.A.I. (Direcção da arma de Infantaria, )

Actualmente encontra-se na situação de reforma, com o posto de Coronel de Infantaria. 

É D.F.A. com 65,68% de incapacidade.

Um abraço,
José Duarte

Cor Ranger/G.E.P

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Nota do editor: 

Ficamos a aguardar mais novidades do RANGER/GEP Duarte, que com certeza terá muitas fotografias e várias estórias para nos contar, das suas andanças pelas então problemáticas, mas também belas e surpreendentes, terras de Moçambique.