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sábado, 28 de agosto de 2010

M248 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XIV


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233 a M244 e M246. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M234, depois a M235… M236... M237… etc.
Manuel Godinho Rebocho2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)Bissalanca/Guiné1972 a 1974
O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M244 e M246:

III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES
(continuação)


b) Guidaje
A situação na zona de Bigene, onde tinham caído os três aviões, deteriora-se, e com ela a organização do Exército inicia o seu desmembramento, lento, mas contínuo, devido à ausência dos Oficiais de carreira. Para lá seguiu a CCP 121, no dia 17 de Maio, a bordo de uma LDG até Ganturé.
A esta Companhia foi atribuída a missão de estabelecer e garantir a segurança de um corredor entre Bigene e Neneco. O PAIGC tinha lançado poderosos ataques contra as guarnições dos Aquartelamentos portugueses localizados junto à fronteira Norte, particularmente sobre Guidaje, nos primeiros dias do mês de Maio. Em retaliação, o Comando-Chefe ordenou o lançamento da operação «Ametista Real», mal concebida e pior executada, contra a base guerrilheira de Cumbamori, localizada no interior do Senegal, donde irradiavam os homens do PAIGC e onde estavam posicionadas as suas principais armas pesadas. Esta missão foi atribuída ao Batalhão de Comandos Africanos, enquanto que à CCP 121 competia estabelecer e manter aberto um corredor entre Bigene e a fronteira, para acções a desenvolver em apoio das forças atacantes.
Entretanto, a situação vivida pela guarnição do Aquartelamento de Guidaje era muito grave, pois as reservas de víveres e de munições estavam praticamente esgotadas. Uma coluna auto de reabastecimento, saída de Farim, no dia 8 de Maio foi emboscada pelo inimigo, não conseguindo alcançar Guidaje; as viaturas foram incendiadas, pela nossa aviação, sofrendo as tropas portuguesas elevado número de baixas (4 mortos e 20 feridos). Poucos dias depois, a 22 de Maio, uma nova coluna auto, desta vez formada em Binta e escoltada por forças de Fuzileiros, foi também atacada e teve de retroceder com mortos e feridos. A guarnição de Guidaje, esgotados todos os alimentos, apenas conseguia sobreviver à custa de algum arroz fornecido pelas populações nativas. O reabastecimento por via aérea também não era possível, pois os aviões mantinham-se em situação de actividade reduzida, devido à situação recentemente criada pelos mísseis antiaéreos Strella.
No dia 23 de Maio foi organizada, em Binta, outra coluna auto para mais uma tentativa de reabastecimento de Guidaje. A protecção da coluna foi confiada aos Pára-Quedistas, que entretanto se tinham deslocado para Binta, e a forças de Fuzileiros Especiais também eles estacionados em Binta. Pelas 06H00 desse mesmo dia, os homens da CCP 121 iniciaram a sua marcha apeada actuando como guarda avançada; a coluna-auto sairia mais tarde, escoltada pelos Fuzileiros em guarda de flanco e precedida pelos «picadores» do Exército que tinham por missão detectar as minas implantadas no itinerário.
Cerca das 8 horas, a CCP 121 atingiu Genicó, prosseguindo depois em direcção a Cufeu. Entretanto, a coluna auto regressou ao ponto de partida devido às várias baixas entre os «picadores» impedindo a coluna de prosseguir, ficando assim adiado, uma vez mais, o reabastecimento de Guidaje. A CCP 121 recebeu ordem para prosseguir a marcha; pelas 16 horas e 30 minutos atingiu as imediações de Cufeu, zona onde tinham sido emboscadas as colunas protegidas por forças do Exército e dos Fuzileiros nas duas anteriores tentativas de reabastecimento de Guidaje. A zona dispunha de características óptimas para a montagem de emboscadas; dezenas de morros de baga-baga forneciam uma protecção perfeita, escondendo o inimigo da observação das nossas tropas (CTP, Vol. IV: 218).

A difícil passagem da bolanha de Cufeu, no itinerário Binta – Guidaje.
Fotografia de Albano M. Costa
É precisamente neste ponto e neste procedimento que começam as minhas contestações à maneira como decorreu esta operação. Com efeito, revelam os documentos oficiais que as imediações de Cufeu reuniam todas as condições para violentas emboscadas às nossas tropas. Sendo assim, coloca-se a interrogação: porque é que não foi aquela área bombardeada pela nossa Artilharia, ou não foram ali lançadas umas bombas de avião, antes das tropas lá entrarem? Ninguém consegue explicar esta monumental falha táctica. Mas deviam ser assumidas responsabilidades pelos erros cometidos.
“Os Pára-Quedistas, avisados dos perigos que poderiam correr durante a travessia da zona, redobraram de cuidados” (CTP, Vol. IV: 218). E o primeiro cuidado que parece que tomaram foi passarem para a frente da coluna o Pelotão que era comandado por um Primeiro-Sargento, António Maria Dâmaso, enquanto o Pelotão comandado por um Tenente da Academia seguia no último e confortável lugar. No meio seguiam os outros dois Pelotões comandados por Alferes Milicianos. “Tudo parecia calmo” (CTP, Vol. IV: 218), mas não estava, e os Oficiais que comandavam as tropas tinham obrigação de o saber. “Porém, emboscados no local, cerca de 70 homens do PAIGC aguardavam a passagem das nossas tropas” (CTP, Vol. IV: 218). Como era evidente, e a experiência das duas anteriores colunas a outra certeza não poderia conduzir. Uma infantilidade ou uma falta de valor, que a Academia Militar não soube ou não pôde atribuir.
“Os primeiros militares da CCP 121 ao entrarem na «zona de morte» pressentiram o inimigo, mas já era tarde; fazendo largo uso de armas pesadas, com saliência para os RPG’s-2, RPG’s-7 e canhões S/R, os Guerrilheiros causaram, de imediato, várias baixas às nossas tropas (CTP, Vol. IV: 218 e 220). Não foi bem assim, o que significa algum ficcionamento dos cronistas militares. Com efeito, morreram ali os Soldados Pára-Quedistas Manuel da Silva Peixoto (manteve-se vivo seis horas), que era o primeiro da coluna; José de Jesus Lourenço, que era o segundo da coluna; e António das Neves Victoriano, que era o quinto da coluna. Devido aos graves ferimento, por acção de uma granada, veio a falecer sete dias depois o Soldado Pára-Quedista António Jorge Botelho do Amaral Melo.
Porém, os três Soldados que ali morreram foram atingidos por tiros, não por acção de granadas, como sugerem os documentos oficiais: o Peixoto foi atingido quando procurava desencravar a sua metralhadora, não foi um tiro de “abertura de fogo”; o Lourenço foi atingido, com um tiro no pescoço, quando estava a tentar retirar o Peixoto da “zona de morte”; o Victoriano foi atingido quando procurava apoiar, por fogo de morteiro 60, os seus camaradas feridos. E os Oficiais, Senhor? Manobraram tacticamente? Não! Esperaram que tudo se resolvesse, como sempre fizeram. O pobre do Dâmaso que se “desenrascasse”. Como fez.
Fica uma pergunta, perfeitamente ajustável ao tema em investigação: se no lugar dos três Oficiais Pára-Quedistas, da Academia, envolvidos na operação, estivessem três Oficiais Milicianos, alguma coisa teria acontecido de pior? Duvido. Mas já não duvido que, se neste lugar estivessem os três Alferes milicianos da minha Companhia, eles teriam resolvido esta operação com toda a naturalidade. Aqui houve e tão só, uma grosseira falha humana.
Como fica evidenciado e bem, os combates eram sempre com os primeiros três ou cinco homens da coluna, em que o terceiro, como foi o caso, era sempre o Sargento. Foi com base neste sistema de actuação, que os Pára-Quedistas foram “grandes” em África. E no futuro?
“Apesar da pronta reacção dos Pára-Quedistas, os Guerrilheiros não abrandaram o seu ataque. O combate prosseguia violento quando surgiram na zona 2 aviões Fiat G-91. O Comandante de Companhia entrou em contacto rádio com o chefe da esquadrilha indicando-lhe a posição das suas tropas; o inimigo estava tão perto dos Pára-Quedistas que os Pilotos hesitaram antes de lançarem o seu ataque” (CTP, Vol. IV: 220). Não foi bem assim, ou não foi nada assim. Mas já se percebeu.
Os três jovens Pára-Quedistas, que ali morreram, foram enterrados de “corpo à terra” junto ao Aquartelamento de Guidaje, no que terá sido muito provavelmente, o acto mais “indecoroso” de quantos praticados na Guerra de África, pelas Tropas Pára-Quedistas. E tanto mais assim é, quanto o lema destas Tropas, em todo o mundo ocidental, assegura que “nenhum homem fica para trás”. E estes ficaram.
“O aquartelamento de Guidaje, já semi-destruído, era atacado diariamente pelos Guerrilheiros que flagelavam as suas instalações com centenas de granadas de morteiro, canhão S/R e LGF. Lado a lado, vivendo em profundos abrigos, militares Pára-Quedistas, Fuzileiros e do Exército, aguardavam os reabastecimentos que tardavam em chegar; a enfermaria já não dispunha de medicamentos; as evacuações de mortos, feridos e doentes não eram feitas devido à falta de meios aéreos e ao bloqueamento das vias terrestres pelo inimigo. Na noite de 25 de Maio os Guerrilheiros atingiram, com uma granada, um paiolim da nossa artilharia onde se encontravam alguns soldados do Exército; a sua explosão provocou vários mortos (quatro) e feridos (1).

Aquartelamento de Guidaje em Dezembro de 1973.
Fotografia de Albano M. da Costa
Como se vê, o quartel não apresenta a destruição que os documentos oficiais afirmam. Algo não está certo no que ao longo de 35 anos vêm afirmando: “O Aquartelamento de Guidaje, já semidestruído, era atacado diariamente pelos guerrilheiros do PAIGC que flagelavam as suas instalações com centenas de granadas” (CTP, Vol. IV, 1987: 220)

Instalações dos graduados no Quartel de Guidaje em Dezembro de 1973.
Fotografia de Albano M. da Costa
Logo no início das hostilidades a Norte, quando a CCP 123 ainda estava em Caboxanque, esta Companhia recebeu ordens para se preparar para partir rumo a Guidaje. A situação era tão tensa, que apenas o Capitão e o Tenente foram informados dessa ordem.
Eu tive então conhecimento dela, mas quando procurei junto dos meus camaradas apoios de memória para a presente investigação, ninguém se lembrava da possível ida para Guidaje. Ao questionar sobre o assunto o Major-General Sousa Bernardes, nomeadamente o motivo por que ninguém se lembra desta situação, Sousa Bernardes sorriu e disse-me (2): “a ordem era secreta, você foi o único Sargento a ser informado, mas foi-lhe pedido segredo”. Foi este segredo, que eu guardei, mas de que me tinha esquecido. A evolução desfavorável em Jemberém levaram o Comando-Chefe a enviar para norte a CCP 121.
Entretanto, tinham começado a chegar a Guidaje e a Binta grande número de elementos do Batalhão de Comandos Africanos intervenientes na operação de assalto à base de Cumbamori, no Senegal; o ataque tinha deparado com uma inesperada resistência pois, para além dos Guerrilheiros inimigos, estavam estacionadas na base tropas regulares do Exército senegalês, o que não fora previsto pelo Estado-Maior, sendo este Corpo de facto um perigo para as tropas. O súbito afluxo de refugiados, muitos deles feridos, mais agravou a situação. Um helicóptero, pilotado pelo Coronel Moura Pinto e no qual se fazia transportar o General Spínola, conseguiu alcançar o Aquartelamento, furando o bloqueio inimigo; os medicamentos que transportava foram, porém, insuficientes para as necessidades. Este, como outros episódios, demonstram como a cadeia de comando se havia partido, só conseguindo Spínola enviar medicamentos para Guidaje fazendo-se ele próprio deslocar no helicóptero.
Perdidas as esperanças de auxílio em tempo oportuno, o Comandante do aquartelamento, Tenente-Coronel de Cavalaria Correia de Campos, que era simultaneamente o Comandante do COP3, com sede em Bigene, mandou enterrar os mortos em cemitério improvisado, o que efectivamente não deveria ter feito, já que as investigações que desenvolvi recusam a existência de tal bloqueio. Se bloqueio havia era de “medo” ou de “pânico”. Apesar da gravidade da situação, foram prestadas honras fúnebres por uma força militar e desenhada uma planta do cemitério onde se anotaram as campas para posterior recuperação dos restos mortais dos militares lá sepultados. Porém, a prometida recuperação não se verificou. Só em 2008, e a muito custo, isto veio a acontecer. Segundo João Pavia Barreiros (3), foram onze os militares, inclusive os três Pára-Quedistas, que enrolados em panos de tenda, ali ficaram, como se veio a comprovar.

Tabanca de Guidaje. As tabancas mais próximas ficavam encostadas ao Aquartelamento militar.
Fotografia de Albano M. Costa

Tabanca de Guidaje nos dias de hoje.
A picada que se vê leva-nos à entrada do antigo Aquartelamento.
Fotografia de Albano M. Costa
Em 29 de Maio uma coluna de reabastecimento saiu de Binta. Pelas 6 horas desse mesmo dia a CCP 121 saiu ao seu encontro, em missão de protecção. Ao atingirem Cufeu, os Pára-Quedistas emboscaram, aguardando a chegada da coluna. Cerca das 16 horas e após a passagem da coluna, a CCP 121 levantou a emboscada, passando a dar protecção à sua retaguarda. Pelas 19 horas Guidaje recebia os primeiros reabastecimentos após um longo e difícil período de espera. No dia 30 de Maio, pelas 07H30, a CCP 121 deu início à sua retirada para Binta.
Uma outra Companhia do Exército, a 3.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4514/72, seguiu no dia seguinte, de Binta para Guidaje, não encontrando qualquer mina nem tido qualquer contacto com o inimigo. Se nas deslocações de 29, 30 e 31 de Maio não houve contactos com o inimigo, como suportam os Oficiais a existência de um bloqueio a Guidaje, que os impedisse de evacuar os mortos e os feridos? Ou estamos tão-somente perante um acto de distanciamento entre o Oficial e o Soldado?
Reconheço que a aparente facilidade destes últimos movimentos entre Binta e Guidaje, foram uma consequência dos combates entre a CCP 121 e os Guerrilheiros, sete dias antes, em que a aviação voltou a aparecer e a ser útil. Os Guerrilheiros atacavam continuamente as tropas, enquanto não sofressem reveses sérios, pelo que a contínua redução de Oficiais de carreira à frente das Companhias operacionais (3) tinha como consequência o agravamento das situações.
Quando uma força, neste caso de Pára-Quedistas, enfrentou a guerrilha, acabaram-se os confrontos. Afinal, só os homens da Academia pareciam ter dificuldade em perceber isso. Silva e Sousa foi mesmo muito claro ao afirmar: “o Estado-Maior nunca percebeu a guerra” (4).
Salgueiro Maia, um dos únicos Oficiais de carreira que ainda era operacional, descreveu assim a sua participação em Guidaje, que é francamente esclarecedora, no contexto desta investigação. “Em 26 de Maio chegámos a Binta, onde já se encontravam as outras forças que pretendiam abrir o caminho para Guidaje. Verifico que estão três capitães, alguns alferes (...). Para uma missão de tal responsabilidade (...) não havia nenhum oficial superior. Assim, os capitães fizeram uma mensagem para o Comando Chefe onde pediam um Oficial Superior com vista a comandar a operação. Claro que nenhum apareceu, mas, entretanto, houve muitas baixas ao Hospital de Bissau e passaram a ver-se menos Majores nos cafés de Bissau (Maia, 1994: 66 e 67). Salgueiro Maia é esclarecedor sobre o contributo dos Oficiais de carreira para a Guerra de África.
Salgueiro Maia descreve, ainda, outro pormenor que revela perfeita coincidência com a descrição contida nos relatórios dos Pára-Quedistas, de certo modo, validam-se mutuamente. “No dia 29 de Maio, pelas 5 horas, iniciámos a abertura do itinerário Binta-Guidaje. (...) Atingida a bolanha de Cufeu, entrou-se em contacto com a companhia de páras que vinha de Guidaje ao nosso encontro” (Maia, 1994: 66 e 67).
Spínola teve que destacar para os pontos nevrálgicos os seus melhores amigos: avançou para Guidaje Correia de Campos, que devia estar em Bigene, com o seu Estado-Maior a estudar alternativas e implementar soluções; comandando a operação no seu todo. Nos mesmos dias não havia ninguém para comandar Gadamael Porto, para lá seguiu o «velho» Coronel Pára-Quedista Rafael Ferreira Durão, que já tinha terminado a sua comissão de serviço em terras da Guiné, coadjuvado pelo Capitão Manuel Monge, que para o efeito foi graduado em Major.
Como já vimos anteriormente e os dados do EME o atestam, eram escassos os Oficiais de carreira nos locais de combate e não havia cadeia de comando. O Exército iniciava aqui a sua desmoronização. O que só demonstra que não há formação técnico-táctica que resolva estas situações: só o valor humano, e este, de preferência, apoiado nos conhecimentos técnicos e na experiência.
NOTAS do texto:

(1) Resumo elaborado através de entrevistas em 26/06/2002 com os Sargentos-Mores Pára-Quedistas, João Pavia Barreiros e António Maria Dâmaso, que participaram na operação, o primeiro enquanto 2.º Sargento, e o segundo enquanto Primeiro-Sargento; do relatório da operação e da descrição contida na obra História das Tropas Pára-Quedistas Portuguesas, Vol. IV, 1987, pp. 218 e seguintes.
(2) Em entrevista, no dia 02/08/2001, no âmbito da presente investigação.
(3) Em entrevista, no dia 26/06/2002, no âmbito da presente investigação.
(4) Os dados constantes no livro EME (2002) demonstram que as 102 Companhias, em sector, na Guiné, em Janeiro de 1974, foram comandadas por 160 Capitães, dos quais apenas 19 eram oriundos de cadetes. Para além desta constatação, não averiguei a razão porque estes 19 Capitães comandaram Companhias, nem por quanto tempo as comandaram, nem onde elas estiveram colocadas.
(5) Em entrevista, no dia 08/09/2002, no âmbito da presente investigação.

(continua)
Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

M246 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XIII

ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M234 a M244. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236... M237… etc.
Manuel Godinho Rebocho
2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné

1972 a 1974
O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M244:
III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES
(continuação)

a) Jemberém
Os Guerrilheiros não conseguiram evitar a construção da estrada entre Cadique e Jemberém, mas criaram as maiores dificuldades ao Destacamento do Exército que foi aberto nesta última localidade, com um efectivo de duas Companhias e um Pelotão de Artilharia, tendo como Corpo de Oficiais apenas um Capitão miliciano e cinco Alferes também milicianos. Quanto a armamento pesado o Destacamento possuía um morteiro 80 e dois obuses 10,5 com granadas em número suficiente “para manter o psico dos militares” (1). Em jeito de conclusão da nossa longa entrevista dizia-me António Augusto: “Não posso deixar de comentar como foi possível acontecerem situações como aquelas que os nossos governantes da altura nos fizeram. Temos a consciência que nenhuma guerra se faz só com os profissionais; os milicianos também têm que fazer parte dela; mas falo da Guiné que foi o que conheci, nós milicianos e os soldados fomos pura e simplesmente despejados para zonas das quais não conhecíamos nada nem sabíamos o que é que íamos fazer.
Ter um Comandante de Batalhão, que não sei se comunicámos mais de vinte vezes, que nunca teve a coragem de nos visitar, que nunca nos apoiou em nada, sendo ele profissional, foi no mínimo uma irresponsabilidade total.” (2)
Os Guerrilheiros tentaram impedir por todos os meios o abastecimento destes militares. No dia 13 de Maio, uma força da CCP 122, na altura estacionada em Cadique, foi emboscada por uma força de 30 Guerrilheiros quando escoltava uma coluna de abastecimentos para Jemberém.
Dos confrontos entre os Guerrilheiros e esta Companhia, durante os dois meses que permaneceu em Cadique, resultou a morte de 1 militar Pára-Quedista e ferimentos em mais 18.


Um dos dois obuses 10,5 que guarneciam Jemberém. Vê-se ainda parte do espaldão que proporcionava alguma segurança aos homens que utilizavam esta arma, nos momentos em que estivessem a ser atacados. É também visível um abrigo contíguo ao espaldão e o próprio Alferes António Augusto.
Fotografia de António Augusto


Canhão sem recuo instalado numa posição defensiva e, como habitualmente, na periferia dos Destacamento e ao nível do solo
Fotografia de Costa Ferreira



Delgadinho Rodrigues examinando as valências do Canhão sem recuo rotativo instalado em Jemberém. Este canhão, de origem russa, foi capturado aos guerrilheiros, tem um calibre menor do que o canhão português, mas neste caso era vantajoso pois tem um ângulo de tiro de 360.º, o que motivou a sua colocação num ponto mais elevado e no interior do Aquartelamento. A criatividade destes milicianos no aproveitamento das potencialidades do canhão, revelam, com toda a clarividência, que para este tipo de guerras a formação técnica tem, efectivamente, uma menor contribuição do que as capacidades pessoais.
Fotografia de Delgadinho Rodrigues
A CCP 122 regressou a Bissau a 15 de Maio e o Exército estacionado em Cadique não era capaz de abastecer Jemberém, já que a guerrilha lhe fazia frente, não os deixando passar, pelo que a «pérola» ficou isolada. A CCP 123, que ainda estava em Caboxanque, foi enviada de urgência para Cadique no dia 17 de Maio. Dois Pelotões seguiram a pé, os outros dois, onde se incluía o meu, seguiram numa barcaça de pesca particular.
Mas o Estado-Maior parece ter ignorado ou não ter ponderado devidamente as marés, pelo que quando saímos de Caboxanque, ao entrarmos no rio Cumbijã, fomos surpreendidos com uma corrente violenta, devido ao vazamento da maré e o consequente abaixamento das águas no rio, tendo o barco encalhado num banco de areia e ficado a «balançar».
Uma catástrofe esteve iminente, que se traduziria em 70 homens.
Com muita serenidade e disciplina, com o Capitão de pé a meio do barco, mandando que um homem se chegasse «devagarinho» para a esquerda ou para a direita, lá fomos evitando que o barco se inclinasse de todo e fosse arrastado pela corrente violenta. Através de contacto rádio conseguiu-se o apoio de Cufar, que enviou dois Soldados com um barco Sintex, que transportava 7 ou 8 homens. Muito devagar e com igual quantidade de paciência, lá fomos passando de um barco para o outro, até que por fim respirámos de alívio, estávamos todos molhados e cheios de lama do tarrafo, mas todos na margem do rio. Era meia-noite.
O resto do percurso foi feito a pé, com as botas cheias de lama. Ao nascer do Sol chegámos a Cadique, onde o Exército nos tinha preparado um café bem quente, e que muito bem soube. Nesse dia tomámos banho e limpámos as armas como se impunha, porque também elas estavam cheias de lama. Às 10 horas da noite, quando a população dormia e nos preparávamos para fazer o mesmo, como sugeria o cansaço da noite anterior, o Capitão chamou os graduados e, em voz calma e ar preocupado, disse-nos: “esta noite vamos para Jemberém”.
Ninguém comentou e o Capitão continuou: “à meia-noite apagam-se as luzes dando sinal de avaria do gerador (a preocupação era a de evitar que os Guerrilheiros fossem informados pela população, dos nossos movimentos); o Rebocho prepara um grupo de 15 homens e sai do estacionamento à uma hora, atravessa a última bolanha e embosca do lado esquerdo; o Delgadinho Rodrigues acompanhado pelo Furriel Oliveira preparam um grupo igual, saem colados ao grupo do Rebocho e emboscam do lado direito antes da última bolanha; o Alferes Eurico com o Furriel Pires preparam outro grupo igual, seguem colados ao grupo do Delgadinho Rodrigues e emboscam a antiga picada que ligava Cadique a Jemberém. Antes do Sol nascer, eu e o Tenente Sousa Bernardes, com o restante pessoal, saímos com as viaturas de abastecimento para Jemberém”.
Ninguém fez comentários, mas o Capitão cometia um excesso de confiança. Todos conhecíamos a zona e sabíamos que qualquer combate seria sempre depois da última bolanha, para onde seguia uma força de 15 homens com um só graduado. A tensão era grande e não nos íamos zangar por causa disso, eu tinha os meus Cabos que eram melhores que muitos Sargentos, por isso não me senti só.
Cumpriram-se as ordens que tinham sido emanadas do Comandante de Batalhão, um comando sabedor e criativo. Cheguei ao local e aproveitando uns raios de luz que a Lua proporcionava, reparei numa quantidade de terra que ali tinha ficado quando da construção da estrada. Mandei encostar ali o «meu pessoal» e, via rádio, informei o Comandante de Companhia que estava instalado. Os Guerrilheiros tinham sido ultrapassados e surpreendidos pelo arrojo da operação. Após o meu contacto com o Capitão, as tropas iniciaram os movimentos em Cadique, carregando as viaturas e desenvolvendo outros preparativos para seguirem para Jemberém.
Por volta das 3 horas e 45 minutos o Álvaro, que estava à minha direita, disse-me: “vêm aí meu Sargento”. Mandei-o calar para não fazer barulho. Um pouco depois volta a dizer-me: “estão a chegar meu Sargento”. No profundo silêncio e escuridão da noite ouvia-se o suave partir de ramos na floresta. Os Guerrilheiros não sabiam da nossa presença naquele local, mas já nos conheciam; só o nome os incomodava. Tínhamo-nos encontrado várias vezes, contra nós tinham perdido nos últimos meses, dois Comandantes de bigrupo, situação única nos treze anos de Guerra.
Falando junto à orelha do Álvaro à minha direita e recomendando a transmissão da ordem, repetida à minha esquerda, disse a todos os homens: “silêncio absoluto, ninguém dispara até eles encostarem o nariz às nossas armas”. Se eu merecia do Capitão uma tal confiança, que atribuísse tão difícil operação a um só graduado, os «meus rapazes» não a mereciam de mim menos e eu conhecia-os. É necessária muita calma e muita confiança em quem comanda, para não se ser tentado a disparar quando se pressente que um forte grupo armado se aproxima de nós. É, aqui, que reside a diferença dos combatentes e não nos cursos frequentados por cada um.
Os Guerrilheiros tiveram azar, vinham emboscar a coluna precisamente no local onde nós estávamos. Foi-lhes fatal. Ao pretenderem encostar-se ao mesmo morro de terra, onde estávamos encostados, todos nós disparámos ao mesmo tempo e o resto é fácil de imaginar. Os Guerrilheiros que conseguiram fugir, ou vinham mais atrasados, continuaram o tiroteio. Os disparos isolados e à distância prolongaram-se por várias horas. Muitas foram as movimentações de ambas as partes, mas nós sempre nos antecipámos. O Alferes Eurico ainda nos apoiou com dois tiros de morteiro, muito certeiros, a provar que os Alferes milicianos também podiam ser bons, desde que o fossem.
Com o dia já claro e o Sol sobre as árvores a coluna passou por nós; o Capitão seguia na viatura da frente, com o Sargento Palma, o melhor Sargento que estava na coluna; o Tenente seguia na viatura de trás com o Furriel Bica, o seu melhor graduado. No regresso as situações alteram-se, indo o Tenente na primeira viatura. O PAIGC teve 19 mortos e um número indeterminado de feridos — acabou-se a pressão sobre Jemberém. Os Pára-Quedistas não sofreram um arranhão.
Os Capitães tinham todos a mesma formação técnico-táctica, mas eram muito diferentes, tal como os Alferes e os Sargentos do quadro ou milicianos. Como se pode afirmar ou conceber uma grande relevância da formação técnico-táctica no âmbito do desempenho das elites combatentes? Quanto a estas elites, não restam dúvidas, o valor combativo reside no valor do homem: nas suas capacidades psicofisiológicas, na sua presença de espírito, na sua criatividade, na sua inteligência emocional, na sua disponibilidade para se expor ao risco, na sua lealdade, na sua solidariedade, na sua capacidade de liderança e comando.
No entanto, se as capacidades pessoais são determinantes, não são exclusivas; eu não teria sido capaz de comandar aquela acção quando cheguei à Guiné, nem nenhum dos outros graduados faria o que fez sem a experiência já acumulada, nem nenhuma das Praças seria capaz de nos acompanhar, sem a habituação que o tempo lhe dera. O conhecimento entre todos os homens é outro factor, que só se obtém com o tempo. Reconheço, porém, que uma formação mais centrada na componente psicológica do que na técnico-táctica, como efectivamente acontecia nas tropas Pára-Quedistas, também ajudava bastante.
Se a componente de formação estritamente técnico-táctica detém alguma influência, ela limita-se a alguns princípios muito básicos, conhecidos de todos os militares, tanto do quadro como milicianos. Não parecem ter assim, qualquer razão, aqueles que sustentam que as tropas não tinham a preparação suficiente para a guerra que enfrentámos. O que faltava era a motivação e também a justificação interior para tanto sacrifício, que não era compreendido pelos militares colocados em quadrícula em condições de extrema penosidade. 

Resolvida a questão Jemberém, iniciámos o embarque numa LDG para Guileje, no dia 22 de Maio, embarque que foi cancelado devido ao abandono de Guileje, nesse mesmo dia, pela respectiva guarnição. O cancelamento deste embarque constitui mais uma das muitas provas da incapacidade do Estado-Maior em prever o que se iria passar no futuro, já que deveria ter previsto que os Guerrilheiros passariam a bombardear Gadamael, logo que capturaram Guileje, bombardeamento que nunca se teria verificado se a CCP 123 tivesse continuado a sua marcha, agora não para Guileje mas para Gadamael, para onde foi efectivamente, mas só a 2 de Junho quando este Destacamento já estava a ser fortemente bombardeado.

NOTAS do texto:
(1) Segundo afirmação de António Augusto, então Alferes Miliciano a comandar uma das Companhias, em entrevista no dia 2005-07-13.
(2) António Augusto na mesma entrevista.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados



Vista parcial do Aquartelamento de Jemberém, em Maio de 1973.
Fotografia de António Augusto
António Augusto ao lado de um invólucro do foguete de 122 mm, designado por Katiuska, frequentemente lançados sobre Jemberém.
Fotografia de António Augusto
Outro ponto do Aquartelamento de Jemberém, no qual estavam estacionadas duas Companhias de quadrícula e um Pelotão de Artilharia, perto de 300 homens.
Fotografia de António Augusto


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

M243 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XI


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233 a M242. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236... M237… etc.

Manuel Godinho Rebocho
2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné
1972 a 1974
O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.


Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M242:
III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES


(continuação)


3.2.1.2.1.5 – O Strella e a Queda dos Aviões
No dia 25 de Março de 1973 foi abatido um avião Fiat G-91, por um míssil SAM 7 ou Strella, como passou a ser conhecido, na zona de Guileje. Não houve combates terrestres durante a operação que se seguiu para recuperar o Piloto; no entanto, esta recuperação tem sido motivo de vários debates televisivos e descrita das mais variadas formas, mas nunca se pronunciou quem nela teve interferência.
A operação não envolveu Tropas Comando, como se tem afirmado, mas sim 101 Pára-Quedistas: 75 colocados na mata, 25 de reserva em Aldeia Formosa e o Comandante do Batalhão, Tenente-Coronel Sílvio Jorge Rendeiro de Araújo e Sá, que permaneceu num avião, orientando a movimentação das tropas em terra. Os múltiplos de 25 foram uma limitação provocada pela disponibilidade de apenas 5 helicópteros que transportavam 5 homens cada um. Verificando-se ainda a existência de um sexto aparelho onde estava colocado um canhão, razão pela qual se vulgarizou por “helicanhão”.

Os helicópteros estacionados em Guileje, enquanto esperavam que os Pára-Quedistas encontrassem e recuperassem o Piloto

Fotografia de Carlos Santos
Foi estranha, esta táctica de estacionar os helicópteros em Guileje, nesta manhã de 26 de Março de 1973, tanto mais que o aparelho abatido, no dia anterior, tinha ido apoiar Guileje que estava a ser atacado pela artilharia do PAIGC. Como estranho foi o facto de estar a voar apenas um avião (1), contrariando tudo o que era habitual, ou seja, voavam sempre dois aparelhos. Sabendo que os guerrilheiros estavam a bombardear Guileje, até a mais elementar das tácticas e das prudências aconselhava a não estacionar ali os aparelhos, que poderiam ter ido para Aldeia Formosa, um pouco mais a Norte, onde estavam os aviões de transporte.
O grosso da Companhia, sob o comando do Capitão, saiu de Bissau às 5 horas e 15 minutos, do dia seguinte, em dois aviões Nord Atlas e um avião Dakota, para Aldeia Formosa, Destacamento do Exército a partir do qual os Pára-Quedistas foram helicolocados na mata. Em cinco helicópteros, directamente para a mata, seguiu o 2.º Pelotão sob o comando do Tenente Sousa Bernardes. Mercê de uma boa orientação do Comandante do Batalhão que, do avião orientou a movimentação das tropas no solo, às 9 horas e 35 minutos (2) o «meu» primeiro homem, o Álvaro, encontrou vestígios do Piloto, após o que recebi instruções do Comandante de Companhia para seguir na direcção do avião, onde coloquei segurança e aguardei o desenrolar da operação.
Enquanto isto, o 4.º Grupo de Combate foi colocado no local e iniciou as buscas do Piloto a partir dos vestígios anteriormente citados. Entre os homens do 4.º Grupo contava-se o Sargento Delgadinho Rodrigues que, seguindo na frente da sua coluna, explorou a pista deixada pela passagem do Piloto, até ao local onde este teria estado sentado. Neste momento, o Comandante de Companhia recebeu instruções segundo as quais deveria interromper as buscas até à chegada do “Grupo do Marcelino” (3). 


O Tenente Pessoa, quando era transportado para o helicóptero, após ser encontrado nas matas de Guileje, sendo amparado por dois homens do grupo de Marcelino da Mata, que de Guileje vieram no helicóptero em apoio à evacuação. Vê-se ainda o Alferes Pára-Quedista Américo Santos, que coordenou as operações de evacuação e comandou um dos Pelotões de Combate da CCP 123 que, para encontrar e recuperar o Tenente Pessoa cruzaram, em várias direcções, as matas de Guileje.

Fotografia de Delgadinho Rodrigues

O helicóptero fez uma paragem técnica em Guileje, para que o Piloto pudesse ser assistido. Colocado na maca, observa-se o inchaço no pé esquerdo provocado por uma fractura.

Fotografia de Carlos Santos
Segundo se disse na altura, esta decisão teve fundamentações políticas, as quais pretendiam demonstrar o empenho dos nativos na Guerra, que inclusive tinham recuperado o Piloto abatido. Não foi assim, mas pareceu.
Se os helicópteros já eram poucos de início, com a partida de um deles para Bissau, levando o Piloto, que se estava a sentir mal, ainda menos ficaram, do que resultou que as helirecuperações foram efectuadas a conta-gotas. Na que seria a última vaga de helicópteros faltou ainda um aparelho para levar todo o pessoal. Com as equipas já formadas e dispersas, para que todos os aparelhos estivessem no solo em simultâneo, o Capitão foi informado, via rádio, de que faltava um aparelho. Chamou-me e disse-me: “falta um helicóptero, tem que ficar uma equipa em terra, só confio em mim ou em ti, mas como estes petiscos te calham sempre a ti, hoje fico eu”, respondi-lhe que “não senhor, eu é que fico”. Com os aparelhos à vista e ao verificar-se que faltava um, o Furriel miliciano Cerqueira gritou-me: “Rebocho, falta um helicóptero”, respondi-lhe que já sabia, mas o Cerqueira veio a correr para junto de mim, que permanecia junto ao Capitão. Ao ser informado que eu ficava em terra, diz-nos: “eu também fico”. Olhei para o Capitão, sem falar, mas a pedir uma decisão, respondendo este pelo mesmo método, encolhendo os ombros e fazendo um sinal com os olhos que eu interpretei, como que a dizer-me: “isso é contigo”. Ficámos as duas equipas: a do Cerqueira e a minha — 10 homens.
O 2.º Pelotão, que estava operando junto ao «Corredor do Guileje», um pouco avançado em relação aos outros dois Pelotões, manteve-se na zona e só foi recuperado ao cair da noite.
No dia 6 de Abril de 1973 foram abatidos três aviões, no curto espaço de uma hora, junto à fronteira com o Senegal e a Norte de Bigene: perdeu-se o contacto com uma DO-27 que transportava além do Piloto, um Alferes Médico, um Primeiro Sargento e dois Soldados. Na tentativa de localizarem a DO-27, saíram de Bissau dois aviões T-6. O primeiro destes aparelhos, pilotado pelo Major Piloto Montovani, foi também abatido. De seguida, uma parelha de aviões Fiat G-91 saiu de Bissau para detectar o que teria acontecido com uma segunda DO-27, que estava igualmente desaparecida, naquela zona, e na altura não referenciada.
Coube, mais uma vez, à CCP 123, a responsabilidade de procurar os Pilotos, os restantes militares e tentar controlar a situação, partindo de imediato, para Bigene o 1.º Pelotão, formando a 30 homens (6 helicópteros), no qual se integrava o Comandante de Companhia, que nas operações difíceis se juntava sempre ao 1.º Pelotão; compreende-se porquê: tinha ali o melhor Sargento da Companhia, pelo que, se se relacionasse bem com ele, nunca cometeria erros, ou, a cometê-los não lhe seriam censurados. Os aparelhos voaram rente à copa das árvores, para diminuírem o ângulo de disparo de qualquer arma a partir do solo. Os 3.º e 4.º Pelotões seguiram também para Bigene, em duas novas vagas de helicópteros voando nas mesmas condições.
Nas tripulações das aeronaves e nos próprios Pára-Quedistas, instalou-se a angústia do desconhecido. Sousa Bernardes e o seu Pelotão ficaram para último, como garantia que ninguém recusava a operação. Perante a indisponibilidade de helicópteros, o Comandante da Base, Coronel Lemos Ferreira, determinou que este último Pelotão seguisse de avião, Nord Atlas. No entanto, com o avião quase sobre Farim, Spínola mandou regressar o aparelho, não arriscando um avião cargueiro com 30 Pára-Quedistas. O 2.º Pelotão, que regressara, ficou em Bissau, como reserva. Foi nomeado Comandante da operação o Major Pára-Quedista José Alberto de Moura Calheiros. O Destacamento de Fuzileiros Especiais, estacionado em Ganturé, junto ao rio Cacheu, a 3 km a Sul de Bigene foi também afecto à operação.
Por decisão dos Comandos Superiores, os helicópteros não passaram de Bigene. Os aparelhos foram abatidos a cerca de 10 km a Norte deste Aquartelamento e o efectivo das tropas só a meio da tarde ficou completo. Por este conjunto de razões, só no dia seguinte se iniciaram as buscas. A CCP 123 formando a 3 Pelotões e 90 homens saiu de Bigene às 3 horas e 30 minutos, do dia 7 de Abril. O Destacamento de Fuzileiros saiu de Ganturé à mesma hora, mas para patrulhar outra zona.

Às 6 horas chegámos à zona onde os aparelhos tinham sido abatidos. Patrulhámos a bolanha Samoge, uma área aberta, sem mata, onde o capim, a que tinham lançado fogo havia pouco tempo, ainda fumegava. As botas enterravam-se nas cinzas, o pó que se levantava entrava pelas narinas e criava uma pasta na boca, o Sol escaldante fazia subir a temperatura aos 40.º C e era impossível comer fosse o que fosse; os dois cantis de água tornaram-se uma insignificância, mas não havia mais e aquela teve que chegar.
Encontrámos partes dos invólucros dos mísseis que abateram os aviões, várias peças do T-6, inclusive o capacete do Piloto que tinha gravado na frente, «Montalvão». Não podia haver dúvidas, este aparelho tinha explodido no ar. Alterámos o rumo e descemos a bolanha. Numa ligeira inclinação do terreno à nossa direita referenciámos o DO-27 rodeada de gente aos gritos: o PAIGC tinha chegado primeiro. Mandei parar a coluna e baixar o pessoal. Via rádio, informei o Capitão, que seguia a uns bons 100 metros da frente da coluna. Este mandou-me voltar para trás, seguindo paralelo à coluna, duplicando a densidade de homens no meio da bolanha, quando devia ter mandado inverter a posição da coluna, em que o último homem passasse a ser o primeiro. Todos os homens se cruzaram com todos. Ao cruzar-me com o Capitão não consegui evitar uma crítica, simultaneamente uma censura, dizendo-lhe: “que bela contradança”. Ele percebeu, e na sua acentuada voz açoriana, erguendo a cabeça respondeu prolongando o início da palavra: “oooora”.
Afinal, fui eu que não percebi a intenção de Capitão, que pouco depois me mandou virar à esquerda. O Capitão quis beneficiar de uma maior densidade de árvores que estavam perto e surgir na retaguarda dos Guerrilheiros, a táctica era boa, mas não impunha que eu continuasse à frente, essa era uma questão pessoal. O Capitão não podia assumir, embora o estivesse a fazer, que tinha duas Companhias: a Secção do Rebocho e o resto, mas enfim... Já fora das cinzas do capim o Cabo Ferreira, que seguia em 2.º lugar e à minha frente, pisou uma jibóia que estava enrolada, o animal desenrolou-se e veio na minha direcção. Coloquei a arma em posição de rajada e apontei-lha à cabeça. Dando alguns passos à retaguarda, defini mentalmente meio metro como margem de segurança entre mim e a jibóia. O animal guinou literalmente à direita quando estava a 1 metro de distância, permitindo-me não disparar e não ser referenciado pelos Guerrilheiros.
O Capitão, ainda via rádio, mandou-me ir virando à esquerda, pelo que surgi no fim daquela pequena mata, de onde vejo o avião, mas agora do lado oposto. Neste momento, ainda dentro da mata, parei a coluna e chamei o Capitão. Os dois, no limite da mata, vemos os Guerrilheiros junto do aparelho continuando a sua festa. O Capitão olhou para mim e disse-me: “vê lá se és capaz de «tomar» o avião”, que naquele momento era dos Guerrilheiros. Deixei-me rir e perguntei-lhe: “então a manobra não é comandada por um Oficial?” Ao que o Capitão respondeu: “é pá, deixa-te de brincadeiras e vê lá o que és capaz de fazer”. De facto, nestes momentos não há postos, há capacidades, mas isso, eu já sabia.
A comandar momentaneamente as operações, chamei vários homens que manuseavam RPG’s, Sneb’s e morteiros, e montei uma pequena estrutura de apoio. Expliquei a cada um quando devia disparar e onde queria que a respectiva granada caísse; fiz uma linha com homens que manuseavam espingardas e metralhadoras para me dirigir ao avião. Quando ia a sair da mata integrando essa linha, onde era o único graduado, o Capitão disse-me: “boa sorte e tem cuidado”. Não lhe disse, que o momento era sério, mas lembrei-me de que esta frase a dissera a minha avó quando fui para a tropa.
Ao sair da mata na direcção do avião, o mesmo é dizer dos Guerrilheiros, estes fugiram no sentido oposto, deixando o avião entre nós. Não mandei disparar nem as armas de tiro tenso nem curvo, porque estavam cinco homens nossos no avião, não sabia em que condições. Naquele momento não se colocavam razões de palpite, mas de prudência. Quando cheguei ao avião mandei passar toda a linha de homens para o outro lado, montei uma apertada segurança, voltei para trás e fui inspeccionar o aparelho. O Capitão mandou avançar o resto da coluna logo que os Guerrilheiros fugiram, pelo que chegámos junto do aparelho quase ao mesmo tempo, embora eu já estivesse a regressar da frente.
O avião não explodiu no ar e não bateu no solo com muita violência, estava inteiro, mas tinha-se incendiado. O Piloto e certamente o Médico tinham ficado presos na cabine e estavam feitos em cinzas, os outros três ocupantes, ou foram cuspidos na queda ou, mesmo feridos, conseguiram sair, porque os seus restos mortais estavam a cerca de três metros do aparelho. No entanto, os animais necrófagos tinham-lhe comido toda a carne e os esqueletos estavam de tal modo raspados que pareciam feitos em madeira. Um Soldado Pára-Quedista trouxe, para Bigene, todos os restos mortais enrolados num só pano de tenda.
Nessa noite, como na anterior, Sargentos e Soldados dormimos na rua, a uma ponta do Aquartelamento de Bigene. Na madrugada seguinte, dia 8 de Abril, pelas 3 horas e 30 minutos, chegaram junto de nós os Oficiais dizendo para nos levantarmos que íamos de novo patrulhar a zona. Voltámos à noite. Durante o jantar encontrámo-nos com os Fuzileiros que nos disseram terem-se recusado a ir para novo patrulhamento nesse dia, pois, segundo as suas normas, o patrulhamento do dia anterior impunha dois dias de descanso. O Comandante da operação, Major Pára-Quedista Moura Calheiros, brilhava apenas com a sua própria tropa, pois não foi capaz de fazer sair os Fuzileiros. A lógica era simples: Calheiros detinha o poder disciplinar sobre os Pára-Quedistas, mas não o tinha sobre os Fuzileiros, cujo oficialato seguia outra doutrina.
Na madrugada seguinte, dia 9 de Abril, a situação repetiu-se, mas desta vez o pessoal recusou-se a sair. Os argumentos não eram muitos, mas eram fortes: tínhamos todos os pés em ferida, até pelo calor que as cinzas do capim tinham produzido, o cansaço era enorme, a fraqueza motivada pela não alimentação era preocupante e o moral, face à situação anteriormente descrita estava abalado.
Face à recusa do pessoal, o Capitão subiu para o jipe e foi chamar o Major, que ao chegar e com as luzes do jipe viradas para nós, começou a chamar por mim. Aproximei-me e o Major pediu-me para ter paciência, era só já aquela vez: “tens que fazer sair o pessoal”. Pedi ainda a Calheiros que me explicasse por que é que me estava a dizer aquilo a mim e não o dizia aos Oficiais, nomeadamente ao Comandante da Companhia que estava a seu lado, ao que este respondeu: “tu és o único que és capaz de resolver isto”. Considerei que o Major estava a adoptar um comportamento de recurso, pelo que em voz alta disse: “peguem lá nas «canhotas», (referindo-me às armas), e venham atrás de mim”. A cadeia de comando, cujo rigor é imprescindível na guerra, começava a dar sinais de preocupante deterioração.
Às 8 horas chegámos à zona a patrulhar e às 8 horas e 50 minutos, na sequência de um violento combate, foi ferido gravemente o Soldado Pára-Quedista Fernando Vicente das Neves Rodrigues, vindo a falecer pouco depois. Como de costume eu seguia na frente, mas desta vez o disparo foi à retaguarda. A Guerra constituía-se exclusivamente num conjunto de acções criativas e aquela não foi excepção, mas executada pelos Guerrilheiros: ninguém viu qualquer elemento inimigo, mas morreu-nos um homem. E é aqui que reside a função do chefe numa guerra de guerrilha: prever e manobrar por antecipação, o que não aconteceu.
Gaston Courtois considera que “o êxito ou o fracasso dependem muito da visão do chefe sobre o futuro. O chefe deve prever com maior ou menor antecedência as consequências das suas decisões, os obstáculos ou dificuldades que pode encontrar, e a moldura ou encenação que deverá utilizar nas diferentes hipóteses. É à força de prever e de preparar que alguém se torna capaz de improvisar, quando as circunstâncias o exigem” (Courtois, 1968: 73). É, de novo, a relevância da experiência.
Com a consciência do dever cumprido, um sabor de cinzas de capim na garganta e um aperto no coração pela perda, evitável, dum camarada, a Companhia regressou a Bissau no dia 11 de Abril, a bordo do navio Patrulha Orion, partindo de Ganturé pelas 6 horas da manhã e chegando a Bissau pelas 23.
A utilidade da operação e a acção da Companhia 123 foi, todavia, relevante, porquanto se obtiveram fragmentos do míssil e alguma documentação que permitiram, aos então Comandante do Grupo Operacional da Base Aérea de Bissau, Tenente-Coronel Pedroso de Almeida e ao Comandante da Esquadra de Helicóptero, Major Branco identificarem o míssil que abateu os aviões como sendo o míssil antiaéreo, de fabrico soviético, Strella.
A partir desta identificação, aqueles dois Oficiais elaboraram as técnicas de defesa contra o míssil, as quais os americanos só em 1975 nos facultaram, muito embora as conhecessem desde a Guerra do Vietname. Por interesse histórico e de relevo sobre o valor dos nossos Oficiais acrescento, ainda, que os dados técnicos estabelecidos por ambas as técnicas de defesa (a americana e a portuguesa) eram quase coincidentes — sendo as diferenças irrelevantes. O que prova, que do ponto de vista técnico, os nossos Oficiais estavam bem preparados, o que não pareciam era estar mentalizados para assumirem os sacrifícios e os riscos, que foram o quotidiano na Guerra que enfrentámos. Logo, não foram líderes, nem revelaram a imprescindível capacidade de comando e, sem estas qualidades, as mais importantes na guerra, não podiam estar preparados para o desempenho que deles se esperava e se lhes exigia.
NOTAS do texto:

(1) Informação obtida junto dos homens da Companhia de Guileje.
(2) O rigor das horas é possível porque estou a seguir os meus apontamentos pessoais e o relatório da operação, que me foi cedido na ETAT.
(3) Um grupo constituídos por nativos africanos conhecidos por efectuarem operações de infiltrações.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

M242 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - X


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233, M234 a M241. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236... M237… etc.
Manuel Godinho Rebocho
2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné
1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.



Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M234 a M241:


III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES


(continuação)


3.2.1.2.1.3 – Os Cabos Pára-Quedistas
Estando a estudar a formação das elites executivas segundo três hipóteses de trabalho, importa agora equacionar a componente formação técnico-táctica, sabendo que os membros de cada uma das três classes em presença tinham todos a mesma formação. No entanto, tinham um desempenho extremamente diferente, ficando provado que a formação técnico-táctica melhora o desempenho, mas não o determina.

Ao nível das Praças falo da minha Secção, que era semelhante a todas as outras. Nela havia homens de grande e média capacidade e outros muito fracos, como em todas as profissões e em cada uma das três classes militares. Reportando-me apenas aos Cabos, veremos que o desempenho é uma consequência das características pessoais, ou seja, das qualidades psicofisiológicas, com particular evidência para a liderança. E são estas lideranças ou vontades, como afirma Gaston Courtois, que um Comandante tem que saber gerir. Não precisa arriscar muito, mas tem que gerir bem.

a) O Ferreira

Este jovem de 20 anos, natural de Salvaterra de Magos, onde ainda vive e é um construtor civil de sucesso, era um líder natural. Adorava mandar, mas detestava ser mandado; tinha uma particular vocação para o negócio; para todo o lado que fôssemos ele montava um negócio; dizia tudo ao contrário do que pensava e algumas vezes se prejudicou por isso, porque levou outros a acostumarem-se a fazer tudo ao contrário do que ele dizia.



A versatilidade dos Pára-Quedistas evidencia-se nestas duas fotografias do Cabo Costa Ferreira, em que na primeira trabalha com um Sneb, enquanto na segunda com uma metralhadora. Na segunda fotografia, a chegar ao Aquartelamento, é bem visível o cansaço provocado por longos km de caminhada.

Fotografias de Costa Ferreira



Merecidamente, o Soldado Costa Ferreira foi promovido a Cabo, por distinção, cujas divisas lhe foram colocadas pelo Comandante dos Pára-Quedistas na Guiné, Tenente-Coronel Araújo e Sá.

Fotografia de Costa Ferreira


Num treino com metralhadoras apercebi-me que o “Salvaterra”, como era conhecido, por causa da sua naturalidade, tinha um jeito particular para trabalhar com aquela arma e disse-lhe o óbvio, que ele passava a usar a metralhadora. Desde esse dia, cada vez que bebia um copo a mais, ia à minha procura para me dizer sempre o mesmo: que eu o castigava obrigando-o a usar a metralhadora. No dia em que se despediu de mim, para regressar à Metrópole em fim de comissão, disse-me: “tenho um segredo para lhe contar, eu adorei andar com a metralhadora. Quando lhe dizia o contrário era só para o chatear”. Também lhe contei um segredo: «sempre soubera o segredo dele».

Reparei mais detalhadamente no Ferreira quando, ainda no início da comissão, a Secção foi escalada para arranjar o jardim do Pelotão, nas instalações em Bissau. O Ferreira não esteve calado um segundo, ralhou o tempo todo sem, no entanto, ser indisciplinado. Talvez uma hora depois de termos iniciado o trabalho, eu disse à «minha rapaziada» “preciso ir estudar; se não vos parecesse mal eu ia-me embora e o Ferreira ficava a comandar a Secção”. Todos concordaram.

Umas duas horas depois apareceu-me o Ferreira dizendo: “gostava que o meu Furriel fosse ver se o trabalho está à sua vontade”. Estranhei um pouco a conversa e fui com ele. Cheguei ao local e tive uma enorme surpresa, considerando que fazer mexer os Soldados, neste tipo de trabalhos, é uma tarefa de monta. Estava tudo impecável. Compreendi então, e desde logo, que aquele jovem fazia tudo, desde que fosse ele a mandar. E os seus camaradas faziam tudo o que ele mandava, sem a mínima contestação. Não lhe disse, mas fiquei satisfeito. Tinha encontrado um colaborador de grande eficiência; um amigo dos bons e maus momentos. Porém, e em silêncio, a reciprocidade não foi menor.

Desde esse dia, em todos os trabalhos que era necessário fazer na unidade, quem comandava a Secção era o Ferreira. Os outros Sargentos ficavam cheios de ciúmes quando me viam abandonar os trabalhos e eles tinham que ficar acompanhando as suas Secções. Quando me diziam: “para ti não há trabalho, é só para os outros”, eu respondia: “vocês não têm Cabos à altura e têm que aí ficar”. O Ferreira vivia esses momentos de prazer, e eu essa conveniência. No entanto, a situação era tolerada pelos vários Capitães que, sucessivamente, comandaram a Companhia, porque eles sabiam o que eu ia fazer: estudar. Era assim uma responsabilidade partilhada.

b) O Gonçalves

O Gonçalves, que tal como o Ferreira, foi promovido a Cabo com base numa proposta que eu fiz e foi aceite pela cadeia hierárquica. Era um homem calmo, que nunca discutia fosse o que fosse, muito competente e decidido. Ninguém na Secção discordava duma ordem do «Cabo Gonçalves», como gostavam de o tratar.



O Cabo Gonçalves: na fotografia da cima a montar segurança aos trabalhos da estrada Cadique-Jemberém, e na fotografia de baixo, onde é o segundo homem, patrulhando o sul da Guiné.

Fotografias de álbum pessoal

Os dois Cabos eram ambos muito competentes, mas totalmente diferentes enquanto pessoas. Quem tivesse estes dois Cabos teria forçosamente uma boa Secção e seria um bom Sargento, desde que os soubesse utilizar. Para se ter uma ideia do valor e do conceito em que a hierarquia tinha o Gonçalves, direi que ao iniciarmos uma das últimas operações que efectuámos quando da nossa primeira estadia em Cadique, o Capitão disse-me: “Rebocho parte na frente”. O Gonçalves que estava junto a mim, olhou para o Capitão e disse: “mas que (m.) é esta? É sempre o Rebocho na frente?” O Capitão ficou petrificado a olhar para mim, sem ser capaz de emitir ao menos um som. Salvei a situação ao dizer-lhe: “tens razão Gonçalves, hoje vou eu à frente”. Ao que ele respondeu: “não vai nada, quem vai à frente são os Soldados, venha lá para o seu lugar”, que sempre foi o terceiro. O Ferreira, igualmente muito bom, mas totalmente diferente reagiu na brincadeira, dizendo-me: “até dava jeito, se você morresse, víamo-nos livre de si. Mas depois nós não somos capazes de resolver a situação e morremos todos, por isso venha lá para o seu lugar, se morrer o da frente você safa os outros”.

Ambos os Cabos dizem o mesmo. Contestaram a posição do Capitão. Para nós andar na frente já se tinha tornado uma rotina, não querendo que eu siga em primeiro lugar, dizem-no de forma e em termos totalmente opostos um do outro. Para pessoas tão iguais em competência e tão diferentes em comportamento, eu tinha que ser igual na consideração, mas muito diferente no relacionamento. Em combate manda quem é capaz de mandar; e um Capitão pode «cumprir ordens» de um Cabo e até lhas agradecer se lhe resolver um problema e lhe salvar a vida. É assim a guerra, que só a conhece quem lá esteve. Nenhum manual, por mais perfeito, consegue traduzir as pressões que sente um Comandante de uma unidade em combate, quando vê caírem balas e rebentamentos por todos os lados e tem a consciência que todos os homens que o rodeiam estão suspensos de uma ordem sua, que pode não ser capaz de dar. Pelo que, se alguém o fizer, é muito bem-vindo.


c) O Álvaro


O Álvaro era um jovem que se apresentava e apresenta como o «5.º filho da ‘ti’ Maria das Barracas». Era um homem difícil, muito esperto e muito capaz. Chegou à Secção de uma forma enviesada: em Setembro de 1972 o meu Pelotão, devido ao sistema de rendições, tinha menos Praças que os outros, o que motivou a transferência de um Soldado de cada um dos outros três Pelotões para o meu. Sem surpresa, o 3.º Pelotão transferiu o Álvaro que foi colocado na 2.ª Secção, comandada pelo Furriel miliciano Cerqueira.

Por uma questão de compostura, os homens mais baixos formavam à frente. O Álvaro, como era muito alto, formava em último. Na primeira vez que formou na sua nova Secção colocou-se fora de alinhamento. O Furriel mandava-o chegar para o outro lado, e ele ajustava-se pouco de cada vez. Quando se apercebia que, chegando mais um bocadinho ficava alinhado, ele chegava muito, desalinhando-se para o outro lado. E a situação repetiu-se várias vezes sem que o Cerqueira «desse conta dele». Até que desistiu. Enquanto a «cena» durava, eu disse em voz baixa ao Alferes Fernando Pires Saraiva, que comandava o Pelotão: “importa-se que o Álvaro passe para a minha Secção?” Ao que este me responde: “é pá davas-me um grande jeito, já vi que ninguém dá conta dele”.




O Cabo Álvaro, o militar à esquerda na fotografia, pouco depois da captura do mais prestigiado chefe da Guerrilha no Cantanhez, o Comandante de Bigrupo Malam Camará


Fotografia de Costa Ferreira

Quando a formatura terminou, eu coloquei a mesma questão ao Cerqueira, que me respondeu colocando as mãos na cabeça: “é pá era o maior favor que tu me poderias fazer, já não posso com esse «gajo»”. Chamei o Álvaro e, como ambos éramos conhecidos na Companhia, fomos logo cercados pelos Soldados, que queriam ouvir a conversa, já que a ninguém passara despercebida a cena que ele fizera. Eu disse então ao Álvaro: “a partir deste momento formas na minha Secção, mas lembra-te: se te portares bem, tens aqui um «amigo do peito», se te portares mal tens a resposta”. O Álvaro não teve dúvidas. Cumpriu o que lhe disse e foi um dos meus melhores camaradas; mas eu também cumpri a minha missão: com frequência ele arranjava problemas, era a sua maneira de ser, mas eu sempre lhos ajudei a resolver.

3.2.1.2.1.4 – O Cantanhez

No dia 20 de Dezembro a Companhia iniciou o seu calvário. Desenvolveu uma operação a dois bigrupos — um formado pelos 1.º e 4.º pelotões, comandado pelo Comandante de Companhia e o outro formado pelos 2.º e 3.º Pelotões, comandado pelo Tenente Sousa Bernardes. Três grupos seguiram de avião até Cufar, de onde foram colocados na mata, de helicóptero tendo o 1.º grupo, que era o meu, onde se integrava o Capitão, sido helicolocado a partir de Bissau. Mal saltámos dos helicópteros sobre um capim com mais de dois metros de altura, o Capitão disse-me: “Rebocho segue na frente”. Quando ainda estávamos nos helicópteros vimos que íamos descer junto a um tabancal, com cerca de 20 palhotas, mas desconhecíamos a reacção de quem lá estava, pelo simples facto de se conhecer pouco do Cantanhez. O desconhecimento impunha cuidados a dobrar: mesmo que se visse alguém, não podíamos abrir fogo sem nos certificarmos que estava armado, o que implicava deixar a iniciativa ao adversário.


Ao ouvirem os aparelhos aéreos a população fugiu, pelo que entrámos no tabancal sem problemas. A correr passei para o lado oposto de onde tínhamos entrado. Mandei colocar o «meu» pessoal em linha para garantir que se alguém se aproximasse não nos surpreendia. Voltei para trás para fazer a minha própria inspecção (sempre fiz isso) e eis que um pato consideravelmente corpulento veio na minha direcção com o pescoço e bico muito estendido e soprando, aliás o que é próprio destes animais. As palhotas estavam todas a ser revistadas como que era habitual. Eu olhei para o pato e fiz em voz alta este comentário: “olhem, o pato quer ir comigo”. O Capitão que estava atrás de mim, disse-me: “ó Rebocho, ninguém pode tocar em nada, o nosso General não quer”, referindo-se a Spínola, certamente. Respondi-lhe: “então, não vê que estou só a cumprimentar o pato?”


Fez-se ali algum compasso de espera até que chegou o 4.º pelotão. Prosseguimos a marcha em patrulhamento e continuei à frente. Se a doutrina recomendava a escolha de quem seguia na frente, tal escolha tem que ser feita com ponderação e com tacto, que ali faltou. Todo o dia andei à frente, rompendo mata, correndo todos os riscos. Algumas vezes eu próprio em primeiro lugar para ajudar os «meus» Soldados e ninguém se apresentava para me substituir, nem o meu amigo Palma.


De cansado, passei ao estado de furioso. Ninguém tomava a iniciativa de me substituir, mas também não o pedi a ninguém. Encontrámos outro tabancal, cuja população não fugiu. Passei com cuidado, cumprimentei quem ia encontrando e montei a segurança no fim do tabancal. Ao cabo de algum tempo recebi ordens para continuar a marcha, mas sempre à frente.


Ao aproximar-se a hora de recuperação recebi a tradicional ordem de comando: “graduados ao centro”. Esta ordem, transmitida de homem a homem ao longo da coluna, tinha um significado conhecido, o Capitão queria reunir com todos os graduados. O termo centro não tem um sentido geométrico, mas significa que quem está para a frente vem para trás e quem está para trás vai para a frente, até chegarem junto do Capitão.


Como vou à frente sou o último a receber a ordem. Não me ausentei sem colocar os «meus» homens em posições que, no momento, nas condições do terreno e das armas que possuem me pareciam as mais seguras. Informei a todos que me ia ausentar e quem comanda a Secção na minha falta momentânea. Ao chegar junto do primeiro homem que já não era da minha Secção vi que está carregado de bens que tinha retirado das palhotas, tal como todos os outros daí para trás. Se, do estado de cansado passei ao estado de furioso, agora estava perplexo e compreendi o que tinha acontecido.



Durante o tempo em que tudo fez para me prejudicar, o Capitão assumiu compromissos que agora estava a pagar: ninguém o respeitava; na mata cada um manda para si. Mas isto não podia ser, se houvesse um ataque, o pessoal nem sabia onde tinha a arma, tal era o carrego que todos levavam. Para sermos mais precisos, cada um, Oficiais, Sargentos e Praças roubou tudo o que viu e que lhe dava jeito.


Deixei de estar furioso e perplexo e passei a estar preocupado. Se houvesse um ataque ninguém era capaz de reagir e o Capitão tinha perdido o controlo das tropas. Ironia, das ironias, tinha que ser eu a colocar de novo o Capitão no «comando». Com este pensamento cheguei junto do grupo de graduados, estando tanto Oficiais como Sargentos igualmente carregados, conquanto o Capitão nada tivesse, é justo esclarecê-lo. A falta de sentido prático era tal, que um Furriel miliciano até um dente de elefante levava. Estava explicada a razão pela qual o Capitão não mandava nenhuma outra Secção para a frente. Não podia, pois nenhuma estava em condições de lhe garantir a mínima segurança.


Parado, de pé, junto ao grupo de graduados, tive este desabafo com alguma «raiva» à mistura: “olhem para esta (m.), vocês não se envergonham? Eu ando um dia inteiro a romper mata e vocês parecem que vieram à feira”. O Capitão, que certamente estava interiormente revoltado, mas sem capacidade de actuar, aproveitou a «deixa» e disse: “seus filhos daqui, seus filhos dali, essa (m.) toda para o chão imediatamente, se alguém chega a Bissau com alguma coisa vai para a cadeia”. É evidente que o Capitão se excedeu, porque ele estava a acompanhar a situação havia muitas horas e a sua atitude só podia significar que não actuara anteriormente por medo.


Terminada a reunião em que se estabeleceu a ordem de retirada, cada graduado voltou ao seu posto. Ao longo do percurso até à frente avaliei a quantidade de produtos no chão, que se assemelhava a um normal mercado de rua. Chegados ao Batalhão, o Comandante de Companhia revistou todo o pessoal, incluindo Oficiais e Sargentos. Não encontrou nada e não «tocou» sequer na minha Secção. O Capitão não se entendia com ele próprio e não percebeu as consequências daquele acto: criara uma cadeia de comando paralela à sua.


Estas operações enquadravam-se na decisão de Spínola em reocupar de novo o Cantanhez, onde o PAIGC preparava declarar a independência da Guiné. Com este propósito foram abertos, nessa zona, no dia 12 de Dezembro de 1972, dois Aquartelamentos do Exército, em quadrícula: um em Caboxanque onde foi colocada a CCP 122 e outro em Cadique onde foi colocada a CCP 121. Em Cufar foi instalado o COP 4 que passou a ser comandado, em acumulação, pelo Comandante do BCP 12, Tenente-Coronel Pára-Quedista Sílvio Jorge Rendeiro de Araújo e Sá. Significa assim, que o Comando Operacional passou a ser da responsabilidade de um Oficial Pára-Quedista, estão duas Companhias instaladas na zona e a terceira Companhia desenvolve operações móveis por toda a região. O PAIGC concentra as suas melhores tropas no Cantanhez onde se vão enfrentar em força com os Pára-Quedistas.


Tanto a CCP 121 como a CCP 122 executavam diariamente operações, afastando o PAIGC. Foram vários os ataques sofridos, nomeadamente aos próprios Destacamentos onde estavam estacionadas. Os bombardeamentos da guerrilha sucediam-se, nomeadamente com mísseis Katiuska, ferindo vários homens. Os Guerrilheiros apontavam sempre aos sectores dos Aquartelamentos onde estavam os Pára-Quedistas. Para romper a mata e quebrar a movimentação dos Guerrilheiros, Spínola mandou abrir uma estrada entre Cadique e Jemberém, com o objectivo adicional de instalar mais um Aquartelamento nesta última povoação; o PAIGC fez múltiplos programas de rádio garantindo que jamais as forças portuguesas abririam tal estrada. Era o que se iria ver.


Entre os dias 28 e 30 de Dezembro a CCP 123 voltou ao Cantanhez, agora operando com os seus quatro grupos de combate separados, a 30 homens cada um. As outras duas Companhias, saindo dos seus locais de estacionamento, fizeram o mesmo. Doze grupos de combate de Pára-Quedistas rasgaram o Cantanhez em todas as direcções. Os Guerrilheiros não suportaram estes ataques contínuos e começaram a ceder, mas os Pára-Quedistas começaram a somar mortos e feridos.


No dia 10 de Janeiro de 1973 tenho o meu primeiro ferido mortal, o Soldado Pára-Quedista Adriano Rosa Martins. Um tiro lateral e certeiro ceifaria a vida a este jovem de 20 anos. Não houve erros da nossa parte, foi um acto de guerra, que muito lamento.


No dia 18 de Janeiro, a CCP 123 foi colocada em Cadique onde substituiu a CCP 121, que veio para Bissau. Uns dias antes da partida o Capitão chamou os graduados, a quem informou que não havia gostado da maneira como o 1.º Sargento Veiga lhe apresentara as contas do bar, referente ao tempo de estacionamento da Companhia em Nova Lamego, pelo que a partir daquele dia o bar passava a ser gerido por uma comissão. Não foi feliz esta ideia, porque o Veiga era o responsável pela alimentação e não saía do Aquartelamento, enquanto os outros graduados que estavam frequentemente na mata, tinham dificuldades em gerir o bar, não estando sequer por perto. Mas o Capitão insistiu: “era uma experiência” dizia ele. Quando foi para decidir quem ficava na dita comissão é que tudo se complicou: ninguém queria tal tarefa, pois, tratava-se apenas de um trabalho adicional e de uma responsabilidade acrescida.


«À moda da tropa» o Capitão perguntou ao Alferes Eurico Santos se era voluntário, respondendo este que não, mas se a pergunta significava uma ordem, então aceitava. O Capitão repetiu os termos ao Delgadinho Rodrigues e a mim próprio, que lhe demos semelhante resposta e a comissão ficou assim formada. Só que a comissão teve que se enfrentar com o grupo dos Primeiros Sargentos, que não aceitaram a desconsideração e, de certo modo, a desconfiança manifestada para com o Veiga. Para além, obviamente, de se acabarem os petiscos que o grupo fazia em Nova Lamego, que não seriam alheios àquela decisão.


Os contactos de fogo entre os Pára-Quedistas e os Guerrilheiros eram frequentes. No dia 31 de Janeiro, um bigrupo formado pelos 1.º e 3.º Pelotões foi ao fundo das Cachambas Balantas, onde estava estacionada uma importante força da guerrilha. O Comandante do bigrupo, Alferes miliciano Eurico da Silva Santos, mandou seguir na frente o Renato Dias e na retaguarda segui eu. Ao entrarmos na zona do quartel dos Guerrilheiros, os combates sucederam-se nos dois extremos da coluna mas como os dois Sargentos sabiam do seu ofício e com alguma técnica, muito desembaraço e bastante sorte, os militares portugueses saíram daquele inferno de fogo sem um arranhão, enquanto a guerrilha ficou seriamente abalada.


Início da estrada Cadique-Jemberém. Os arames que cortam a estrada delimitam o Aquartelamento de Cadique
Fotografia de Costa Ferreira


Uma patrulha no limite da mata com a bolanha
Fotografia de Costa Ferreira 
O Sargento Pára-Quedista Delgadinho Rodrigues, à porta da secretaria da Companhia 123, em Cadique, parecendo meditar sobre a maneira como haveria de contribuir para a resolução do puzzle em que estávamos envolvidos.

Fotografia de Delgadinho Rodrigues


A liderança informal da Companhia continuou adiada. Os dois Sargentos, que já lideravam, tiveram comportamento equivalente, elevaram o seu prestígio no interior da unidade, mas nada ficou decidido, pelo menos em termos definitivos. Os dois Sargentos eram pessoas muito diferentes: o Renato Dias tinha apenas a 4.ª classe, o que hoje se designa por 1.º Ciclo do Ensino Básico, como todos os outros Sargentos. Adorava os Soldados e era duma docilidade extrema para com os Oficiais, o que o tornava um homem muito respeitado; eu era o oposto — dizia o que tinha que ser dito, a quem calhasse, contestava tudo o que considerava mal feito e criticava severamente os erros cometidos, fosse a responsabilidade de quem fosse, mas os estudos já realizados e então em curso pesavam a meu favor.

Três dias depois, quando a noite começou a escurecer, o Aquartelamento de Cadique foi violenta e demoradamente bombardeado com morteiros 81 e canhões sem recuo. No dia seguinte e após uma cuidada inspecção, concluímos que as granadas tinham caído todas na zona onde estavam os Pára-Quedistas, pois Cadique era uma unidade de quadrícula, onde estava uma Companhia do Exército. Os Guerrilheiros colocaram as granadas com grande precisão, pelo que o ataque a Cadique não era indiscriminado, mas cirúrgico. Havia que tomar medidas rapidamente: os Guerrilheiros misturados com a população podiam entrar e sair do Estacionamento com toda a naturalidade; podiam inclusivamente efectuar uma inspecção como nós a fizéramos e, nessa mesma noite ou na seguinte, efectuar novo bombardeamento com o tiro mais corrigido e ser-nos fatal.



Importa referir que o Estacionamento estava cercado com arame farpado e o tabancal da população ficava no seu interior, o que permitia a circulação dos nativos com toda a naturalidade. Perto da nossa cozinha havia várias palhotas, junto das quais existia um abrigo subterrâneo construído pela população para se proteger da aviação portuguesa, que a atacava antes da abertura deste Estacionamento. Durante a inspecção que fiz, os Soldados disseram-me que antes do início do bombardeamento a população daquelas palhotas se teria juntado à porta do abrigo. Não eram necessários mais dados, a população tinha sido antecipadamente informada do ataque.

Chamei o Delgadinho Rodrigues, pois era na área do seu Pelotão que estava colocado o nosso morteiro 81, e os dois combinámos uma estratégia no sentido de evitarmos que nós e os nossos homens fossemos transformados em «churrascos» nessa noite ou na próxima. Fomos ao abrigo onde estava o morteiro e virámo-lo na direcção de Cadique Nalu, a povoação mais próxima, onde não havia tropa; mandámos chamar o Soba e dissemos-lhe: “vês para onde está virado o morteiro? Na próxima vez que formos atacados esmagamos Cadique Nalu e vamos atirar uma granada para dentro do vosso abrigo”.

O Soba, usando dos argumentos possíveis, afirmou-nos que não soubera antecipadamente do bombardeamento, o que não era verdade. Seria mesmo natural que ele próprio fosse Guerrilheiro, o que não surpreendia neste tipo de guerra, em que se «dorme com o inimigo», o que exigia que fôssemos engenhosos e criativos, que a técnica e o que se aprendia na instrução valiam de muito pouco.

Cadique foi bombardeada mais três vezes, enquanto a Companhia lá esteve: uma vez com apenas duas granadas e outra vez com cinco granadas, ao que podemos chamar apenas duas flagelações; em ambas as vezes a população já não foi para o dito abrigo, mas para outros mais longe da nossa posição; a última vez que nos bombardearam eu não estava no Estacionamento, mas a dormir na mata. O ataque, tal como o primeiro, violento e prolongado, foi positivamente dirigido aos Pára-Quedistas: toda a nossa cozinha e arrecadação, que ficavam no centro da área que ocupávamos, foram destruídas. Quando cheguei da mata fui falar como Soba e ameacei-o: “vocês atacaram ontem porque eu cá não estava, mas se isto se repete enforco-te naquela árvore”, enquanto apontava para uma árvore das proximidades. Cadique não foi mais bombardeada enquanto a minha Companhia lá esteve.

É evidente, que nunca pensei fazer o que disse ao Soba, mas não nos podemos esquecer que a guerra era de baixa intensidade de violência, mas de grande intensidade psicológica, que no caso funcionou, como funcionava sempre. As guerras de baixa tecnologia e violência exigem grande criatividade.

A baixa tecnologia e a grande criatividade funcionavam e manifestavam-se nos mais variados aspectos. Era o caso, por exemplo, de os Guerrilheiros saberem onde estavam os nossos Aquartelamentos; desde logo, quando os queriam bombardear, tinham todas as referências, nomeadamente podiam colocar, e colocavam, homens seus no meio da população, os quais, via rádio, lhe iam orientando o fogo, o que lhe permitia grande eficiência. Para respondermos ao fogo, atacando as bases de onde nos atacavam, a Artilharia montou uma rede de recolha de informação a que chamávamos o satélite «Cantanhez».

Em Cufar e em Bedanda estavam instaladas baterias de Obuses 14 e em Cabedú uma bateria de Obuses 8,8 que, no seu conjunto cobriam todo o Cantanhez. Em todos os Aquartelamentos da zona, estava fixo ao solo um bidão de 200 litros, em cuja tampa superior se desenhou uma circunferência com os 360.º, devidamente orientada e na qual se colocou um ponteiro giratório, tipo roleta de casino. Quando se ouvia um disparo de morteiro ou de canhão sem recuo, todo o pessoal corria para as valas e esperava para se ver qual dos Estacionamentos da zona era o eleito do dia. Confirmação que, regra geral, se conhecia passados 10 a 15 segundos, quando a granada chegava. Logo que se ouvia o rebentamento, ficava-se a saber quem estava a ser atacado, os militares dos outros Destacamentos podiam descansar. Para já... Nesta altura, o homem de serviço ao «satélite» de cada um dos Estacionamentos, virava o ponteiro para o ponto onde via os clarões dos disparos, lia o grau que ficava sob o ponteiro e, via rádio, informava-o para a sede do COP, em Cufar.

Em Cufar estava montada uma carta militar, com os pontos da localização dos bidões marcados. O graduado de serviço, ao receber as comunicações, escrevia uma linha sobre a carta a partir do ponto onde estava a marcação do bidão e rumo ao grau que lhe tinha sido transmitido. Duas ou mais linhas, com base em outras tantas comunicações, haviam de cruzar-se num ponto, o qual definia o local onde os Guerrilheiros estavam a efectuar os disparos. A partir deste conhecimento entravam em função os obuses. A actuação da Artilharia funcionava em tempo real e passados em média 5 minutos do primeiro disparo os Guerrilheiros tinham a resposta de volta. Pena era que as nossas disponibilidades em granadas fosse tão pouca, que raramente se podiam disparar mais do que 5 ou 6 granadas, que se não fossem imediatamente certeiras, não calavam os Guerrilheiros. Sem meios, tudo ficava dependente do valor humano e da criatividade. Quando aquele e esta faltavam, restavam os mortos e os feridos para contar.

O PAIGC continuava publicitando na rádio e através de panfletos, que a estrada de Cadique para Jemberém nunca seria concluída e enviou para o local o seu melhor bigrupo, o qual estava estacionado na base de Simbeli, na República da Guiné Conakry, comandado pelo mítico Malan Camará. A 12 de Fevereiro, de 1973, Spínola foi visitar o Aquartelamento de Cadique e Araújo e Sá determinaria uma operação às Cachambas. Foi incumbido da missão um bigrupo comandado pelo Tenente Sousa Bernardes e formado pelos 1.º e 2.º Pelotões. Era a primeira vez e foi a última que estes dois pelotões actuaram em conjunto no Cantanhez: iam-se medir forças com Malan Camará, considerado na altura o melhor Comandante da guerrilha que actuava no Sul da Guiné, pelo que se juntou o melhor Oficial e o melhor Sargento — esperava-se o resultado, que iria ser decisivo, para a construção da estrada. Devido a informações da população os Guerrilheiros conheciam todos os movimentos dos militares portugueses e esperaram-nos à entrada da mata, que consideravam de sua posse exclusiva.

Nessa entrada que é um estreito, os Pára-Quedistas foram atacados por um enxame de abelhas que puseram as tropas em alvoroço. O Alferes Saraiva aproximou-se de mim, que ia como habitualmente em 3.º lugar, e disse-me: “Rebocho alarga o passo que há abelhas à retaguarda”. Virei-me ligeiramente sobre a esquerda, mas continuando a andar e disse-lhe: “não posso que o combate deve estar mesmo a começar”. O Alferes respondeu-me: “é pá eu tenho mais medo das abelhas que dos turras”. Não tomei em conta os receios do Alferes nem tive tempo, pois ao virar-me de novo para a frente, uma rajada de metralhadora passou rente à minha cabeça, disparada de baixo para cima. Um tiroteio invulgarmente violento surgiu então de todos os lados.

O Guerrilheiro que certamente me apontava a arma, mexeu-se ligeiramente quando eu me virei, gesto premonitório e para mim salvador. A agressividade dos Guerrilheiros que usaram balas tracejantes, as quais possuem um efeito letal muito superior às balas normais, ao colocarem-se muito perto de nós e com um numeroso efectivo, também lhes foi fatal: as balas deixavam um rasto que me permitia ver a sua trajectória; logo, permitiram-me conhecer, numa fracção de escassos segundos, quantos eram, onde estavam, para onde estavam virados e com que armas disparavam, pelo que não conseguiram retirar-se quando disso tiveram necessidade. Em poucos segundos dei todas as ordens de posição, de direcção e de cadência, a cada um dos dois homens (Álvaro e Ferreira) que, como eu, se viam cercados dos traços feitos pelas balas dos Guerrilheiros: O Ferreira só podia disparar para a frente, em rajadas curtas, para não encravar a arma nem esgotar as munições e não se devia preocupar com os «turras» que estavam a disparar à sua esquerda e à sua direita; o Álvaro teve que se virar e disparar sobre a direita do baga-baga para impedir que os Guerrilheiros que ali estavam me atingissem a mim e ao Ferreira; eu disparei sobre os homens que estavam disparando nas costas do Álvaro, equilibrando a situação entre nós e eles. Venceria quem tivesse mais serenidade ou, como defendeu Clausewitz, maior presença de espírito. Fomos nós.

Contra todas as técnicas e teorias, a melhor protecção para cada um de nós, foi a falta de protecção, que nos permitiu movimentarmo-nos com facilidade em todas as direcções, embora fôssemos atacados por todos os lados. A situação estava equilibrada, mas ameaçava ruir a nosso desfavor. Nós tínhamos apenas três armas a disparar e os Guerrilheiros eram no mínimo dez a fazer fogo contra nós os três. Era a velha técnica dos primeiros três ou cinco homens: o primeiro foi mortalmente atingido e o quinto gravemente ferido; só restavam três homens para disparar. Seguramente, o Sargento tinha que ser sempre o terceiro homem da coluna, caso contrário já não comandava nada e os Soldados ficavam a combater sem comando.

Pedi o disparo de um RPG sobre o lado esquerdo do baga-baga. Mas esta arma manuseada pelo Soldado Solinho avariou e os segundos passavam. O Bernardino, excelente Soldado e camarada solidário, que embora seguisse numa posição mais recuada da coluna, onde estava livre de ser alvejado, ao ouvir os meus repetidos pedidos de disparo do RPG sobre a esquerda do baga-baga, veio à frente efectuar o citado disparo, não de RPG, que o não tinha, mas de Sneb, uma arma menos potente, mas que, na circunstância, produziu os mesmos efeitos. O disparo, nas condições em que eu o estava a definir, era duma extrema complexidade. A granada tinha que rebentar na retaguarda do baga-baga, porque se fosse de frente não tinha qualquer efeito. Para que a granada rebentasse sobre os Guerrilheiros, o operador tinha que se expor, e muito.

O Cabo Gonçalves, que manuseava uma metralhadora e também estava numa posição onde não era passível de ser alvejado, desenrolou a fita de balas, que tinha à volta da cintura, suportou-a sobre o braço esquerdo, avançou mais de dez metros e, numa rajada contínua e prolongada, deu cobertura ao Bernardino que, surgindo sobre o lado esquerdo do baga-baga, disparou a granada do Sneb directamente sobre o comando da guerrilha. Os Guerrilheiros cessaram o fogo instantaneamente.

Foram estes os Soldados anónimos que fizeram a Guerra de África, que fazem as grandezas dos exércitos, particularmente numa guerra de guerrilha, onde a técnica não é mais de que rudimentar e onde a coragem e a criatividade constituem os suportes de toda a actividade operacional. Os seus actos de coragem e solidariedade nada devem à formação técnico-táctica, são características inatas do foro psicofisiológico que se elevam com a experiência e com o ambiente de camaradagem que se instala numa unidade militar de combate.

Mesmo o rigor da minha posição, das minhas ordens e dos meus 4 camaradas, que comigo fizeram fogo, bem como o facto de dois homens nossos se estarem a movimentar para a frente das nossas balas, nada tem de técnico, não se aprende isso em lado nenhum; é apenas uma questão de serenidade, lealdade de todos para com todos, criatividade e disponibilidade para o risco. Quem diz que isto se aprende, está apenas a querer ensinar o que não sabe e a garantir o seu emprego. Houve aqui, também, a confiança no homem que estava a dar as ordens, mas esta confiança vinha de outros combates anteriores, da experiência, nada fora aprendido nos bancos da formação.

Como afirma Mira Vaz, que sabe o que diz, os Soldados cumprem as ordens na frente de combate, quando confiam no graduado que as dá e, sem as reflectirem, consideram que são as melhores.

Sobre a influência da formação dos Pára-Quedistas para o desempenho naquele combate, há a considerar que nesta primeira fase do combate actuaram cinco homens, o número fatal. Dois destes homens actuaram com metralhadoras que não eram utilizadas na instrução e um com LGF que nem era conhecido na Metrópole. As decisões, todas improvisadas e criativas, violaram as regras doutrinárias que, na circunstância, aconselhavam a retirada, tendo-se feito precisamente o contrário. Se retirasse, teria lá ficado o corpo do «meu» primeiro homem, que faleceu pouco depois, e o Alferes que estava gravemente ferido. Decidindo-me por resistir, salvou-se tudo o que não foi atingido nos primeiros tiros e capturou-se Malan Camará.

O combate foi tão violento que se acabaram os combates nas Cachambas, com a retirada definitiva dos Guerrilheiros daquela zona. Nada do que se fez naquele dia se ensinava nas aulas técnico-tácticas. Ali estiveram as capacidades humanas e a experiência. Morreu-me o «meu» segundo homem, Elias Isidro Picanço Azinheirinha.

Numa segunda fase dos combates, que se reacenderam uns cinco minutos depois, uma vez que os Guerrilheiros não queriam perder o seu Comandante, teve particular relevo o Furriel Cerqueira, que comandou toda a acção a partir da frente. O Cerqueira era miliciano, mas isso não se notou no seu desempenho, evidenciando, mais uma vez, que a formação técnico-táctica não tinha ali qualquer relevo.



Os combates que se seguiram, para podermos ocupar o baga-baga atrás do qual estava o posto de comando dos Guerrilheiros e o próprio Malan Camará, foram duros e comandados pelo Cerqueira, que seguiu pela esquerda. Eu estava a menos de 10 metros, e descaído para a direita; cercámos o baga-baga, mas não fiz fogo porque tinha homens meus na linha de tiro. Nestes momentos, em que as tropas se galvanizam por acção dos seus comandantes, é necessário exercer-se um controlo ainda mais rigoroso, para evitar que nos alvejemos uns aos outros. O baga-baga foi tomado e Malan Camará capturado.


Logo que o primeiro momento de tiros cessou, recuei um pouco para dar instruções aos Soldados que estavam mais perto, no sentido de constituir uma espécie de semicírculo à volta dos feridos e reforçar a nossa posição, pois um certo sexto sentido me dizia que os combates iam recomeçar. Mal dei alguns passos o Tenente Sousa Bernardes já estava junto a mim, o que significa que avançou ainda no momento do fogo cerrado.


Sousa Bernardes disse-me: “eles vão contra-atacar, temos que tomar a iniciativa”. Concordei com ele visto, aliás, ser essa já a minha opinião. Em escassos segundos acordámos a táctica a seguir, que Sousa Bernardes propôs. A táctica era elementar e também não se aprende em lado nenhum, mas exigia uma entrega absoluta e uma exposição total. Enquanto eu comandava as evacuações, protegia os feridos e garantia segurança aos meios aéreos, o Tenente avançava na perseguição dos Guerrilheiros, arrastando com esse acto os combates para o lado contrário do ponto onde os helicópteros tinham que aterrar.


Nesta táctica e momento pouco comum da Guerra que travámos, nas três frentes africanas, Sousa Bernardes também seguiu na frente do pessoal, enquanto o seu Sargento do Quadro fingiu não perceber a ordem e não o acompanhou, ficando colado ao meu último homem. Um acto que, para além de desleal, permitiu ordenar os combatentes numa escala de valores. Nenhum destes actos se fundamentou na formação técnico-táctica, mas sim nas capacidades pessoais dos combatentes e na experiência, sobretudo no conhecimento e na confiança que os homens depositam uns nos outros. O comportamento deste Sargento não foi considerado no relatório final, por iniciativa de Sousa Bernardes, pois, sendo o Sargento do seu Pelotão, a ele caberia a iniciativa.


Ao contrário, o Alferes Fernando Pires Saraiva teve uma atitude de muita dignidade. Durante o espaço de tempo entre a primeira e a segunda fase dos combates, alterei a posição de quase todos os homens do Pelotão, com instruções muito rápidas que não podiam ser discutidas nem explicadas. Não havia tempo. Uma das ordens inevitáveis foi a chamada de “todos os enfermeiros à frente”, o que aconteceu enquanto dei outras instruções e falei com o Cerqueira e com Sousa Bernardes; ao voltar para a frente verifiquei que o nosso melhor enfermeiro, 1.º Cabo Filipe, estava a tratar o Alferes e disse-lhe: “deixa lá o nosso Alferes e vai tratar o Azinheirinha, cujo ferimento é mais grave”; o Filipe ficou surpreendido e olhou para o Alferes que lhe disse: “faz lá o que o nosso Furriel te está a dizer, vai tratar o Azinheirinha”.


É nestes momentos que os homens se diferenciam, porque nas outras componentes da Guerra, como a descascar camarão, todos somos habilidosos e constituiu, em muitos casos a única experiência que alguns militares adquiriram na Guerra.


Nada do que se fez neste combate tinha sido aprendido antecipadamente, tudo se improvisou. Ali esteve a criatividade, a liderança e a assunção do risco pelos graduados que motivaram os Soldados. Mas também ficou claro que todas estas qualidades, a que devemos acrescentar a honra e a dignidade, não são exclusividade de uma ou de outra classe militar: todas as classes têm homens com estas qualidades e todas têm homens a quem elas faltam. Para utilizar uma frase habitual nos grupos militares, não é o posto que faz as qualidades, mas as qualidades que devem fazer o posto. O que determina que um Oficial sem as qualidades, ou pelo menos sem as principais, leve à criação da citada dupla hierarquia porque os problemas que surgem na guerra têm que ser resolvidos a bem de todos. Se o Oficial os não resolve, resolve-os o Sargento, que passa a líder informal, aquele que influenciará as decisões futuras.


Spínola, que acompanhou toda a comunicação rádio deslocou-se ao local onde nos cumprimentou. Malan Camará foi evacuado para o hospital, revelando-se o humanismo destes Pára-Quedistas. O Comandante do BCP 12 e do COP 4, Tenente-Coronel Araújo e Sá, escreveu o seguinte no seu relatório: “o bigrupo da CCP 123 empenhado reagiu da melhor forma à forte emboscada que lhe foi movida por numeroso e bem armado grupo inimigo. Devido à pronta reacção das nossas tropas e à inteligente manobra desenvolvida, o inimigo retirou com elevadas baixas e sendo capturado um Guerrilheiro ferido e diverso material de importância; veio a verificar-se que o Guerrilheiro capturado se tratava de Malan Camará, comandante de bigrupo anteriormente referenciado em Simbeli; o que torna esta captura extremamente valiosa, e justifica o facto do grupo inimigo ter oferecido prolongada resistência e apenas ter retirado face ao envolvimento que lhe foi movido”.


Após este comportamento operacional, a minha liderança informal tornou-se uma situação normal. Sousa Bernardes recolheu, de toda a Companhia, elevados reconhecimentos da sua capacidade e do seu valor, mas não podia assumir posições de liderança, para além do seu próprio Pelotão porque, se assim fosse, colidia com a posição do Capitão e um deles tinha que sair. Sousa Bernardes adquiriu então um grande prestígio junto dos homens da Companhia, que viram nele um comandante em quem podiam confiar, mas como ele não podia enfrentar nem afrontar o Capitão, não pôde assumir qualquer liderança.


Os homens de Sousa Bernardes construindo um abrigo em Cadique. Como se pode verificar, Sousa Bernardes, assinalado com um círculo, está entre os seus homens trajando de forma natural, descontraída e à vontade como eles, marcando e definindo uma relação de proximidade tão determinante numa guerra, sobretudo com as especificidades da Guerra que enfrentámos.


Fotografia de Leite Bica

NOTAS do texto:

(1) Chefe da povoação.
(2) «Baga-baga» é o nome dado na Guiné às formigas térmitas ou salalé; estas formigas constroem ninhos de argila compacta que chegam a atingir mais de 10 metros de altura e a pesar várias toneladas.
(3) Em entrevista, no dia 05/06/2001, no âmbito da presente investigação.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados