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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

M180 - Sinto vergonha de ser honesto


"Defendeste a Pátria,cumpriste o teu dever;

a Pátria foi ingrata, fez o que costuma fazer"
(Padre António Vieira)


A poesia de Rui Barbosa (poeta brasileiro)-séc XIX e XX
"actualíssima"

SINTO VERGONHA DE MIM
Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte deste povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-Mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o 'eu' feliz a qualquer custo,
buscando a tal 'felicidade'
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos 'floreios' para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre 'contestar',
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir o meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar o meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo deste mundo!

'De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto'.

Rui Barbosa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

M170 - A minha poesia em África - GUINÉ (DO CUMERÉ A BRÁ)


GUINÉ - DO CUMERÉ A BRÁ

Os perigos eram muitos, mas… lá os íamos dobrando…
O maior inimigo era o tempo... interminável...
Cada dia parecia-nos um longo ano bissexto…
Mas o pior eram… as saudades… algo inenarrável!


I
O avião aterra lentamente
Lá fora vejo... uma tabanca?
Não!... aquilo ali, era Bissau!
O aeroporto de Bissalanca

II
Desci os degraus e olhei em volta
Terra estranha de tom encarnado
Paisagem monótona e agreste
Céu cinzento todo enevoado
III
O ar quente e muito húmido
Estava sereno e agradável
Era Julho de setenta e quatro
O ambiente turvo... insondável

IV
Embarcamos rumo ao Cumeré
Numa coluna de viaturas
E... pelo caminho... tudo igual!
Diferentes, só as criaturas…
V
Pretos e pretas com o peito ao léu,
Trouxas à cabeça e filhos em redor
Aqui, e além, malta fardada
Ao longe, o rufar de um tambor

VI
Encravado na ruidosa “Berliet”
Observei curioso aquela terra
E imaginei os sacrifícios
Daqueles onze anos de guerra
VII
Os múltiplos cursos de água…
A vegetação densa e rasteira…
E... a bolanha... negra e insalubre!
Qual deles a maior ratoeira?

VIII
Futa-Fulas, Balantas, Mandingas…
Como diferenciar o inimigo?
Papéis, Futas, Manjacos, Bijagós…
Serão os Fulas, o maior perigo?
IX
Mas se confusas eram as etnias
Maior era a divisão com as religiões
E, assim, uns milhares de negros
Pareciam-me demasiados milhões

X
Animistas, Muçulmanos e Cristãos
Dos quais alguns eram senegaleses…
Pelo meio… muitos cabo-verdianos…
Além de sírios e libaneses!
XI
Os abutres a esvoaçar por cima…
Os mosquitos na pele a picar, e…
Os répteis por ali à nossa volta…
Não aliviavam o mal-estar

XII
As temíveis doenças tropicais
O paludismo tão debilitante
As disenterias e as hepatites
Qual delas a mais fulminante?
XIII
Enfim, surge um aglomerado
De pavilhões pré-fabricados
“Cumeré” dizia uma placa
Havia mato por todos os lados

XIV
Após alojado e alimentado
Acerquei-me da cerca de arame
E pelo que vi, constatei arrepiado;
“Isto aqui era o nosso Vietname”
XV
Dei umas voltas pelas tabancas
Naqueles dias de aclimatação
Os “velhinhos” gozavam e diziam;
- Viv’à liberdade de circulação!
XVI

E, continuavam com as “bocas”;
- Ó “periquitos” que por aí andais...
Aí fora, há umas semanas atrás...
O “turra comia-vos” tal com’estais!
XVII
Aqueles “velhinhos” enrugados
Tez enegrecida e voz de “bagaço”
De idade, vinte e poucos anos
Pareciam talhados de puro aço

XVIII
Um dia, novo destino: Mansoa!
Er’a hora de rendermos o Batalhão
Depois... entregar tudo ao PAIGC!
Foi a nossa derradeira missão!
XIX
Sacos às costas, novo local: Brá!
Pr’ó Batalhão de Engenharia
Lá se passaram mais uns dias, e…
O regresso, breve acontecia

XX
Já a bordo do “UÍGE” medito;
«África atrai de modo anormal…
Aventura?... Novos horizontes?…
Julguei que, saudades, só de Portugal!»
XXI
O povo, os seus costumes, a terra?…
A mística atracção africana?
Tanto se fala dela, ninguém a vê!
Descrevê-la? Talvez p’ra semana!

XXII
Caramba! Mas se era assim tão mau!
Para quê, falar tanto... naquela Guiné?
Porquê saudades?... Voltarei ali um dia?!
Doença... tara... ou que raio isto é?!

RANGER Magalhães Ribeiro Furriel Mil.º da CCS BCAÇ 4612/74
Mansoa/Guiné

sábado, 31 de outubro de 2009

M169 - Aminha poesia em África - Mistifório guinéu


M i s t i f ó r i o g u i n é u

Nas longínquas terras da Guiné
Uma das coisas que mais me intrigava
Er'a estranha mescla populacional
E como esta em paz coabitava

Entre as trinta etnias naturais
Viviam cabo-verdianos e libaneses
Velhos e respeitáveis colonos
Sírios e uns tantos senegaleses

Movendo-se todos na maior das calmas
Cambiando... comerciando... traficando
Numa amálgama de expedientes
Havia por ali de tudo... nada faltando

Ainda hoje sinto ecos de saudade
Dos artistas apregoando o artesanato
“- Manga de ronco... cem pesos! Compra um?”
Dum "shandy"... do "Ronda"... dum boato

E dos amigos e conhecidos qu'ali deixei
Quase todos personagens enigmáticas
O Marinho... a Maria sua mulher...
“Almas” aventureiras... esquemáticas

Vultos misteriosos... lendas vivas
Sobrevivendo naquele agreste meio
Punham-me ao rubro a curiosidade...
Como viviam, ali… sem qualquer receio?

No Cumeré num dia rotineiro
Emergiu das profundezas do mato
Um viajante de aspecto andrajoso
Cujo olhar vidrado o tornava caricato

Tez rugosa... curtida por “mil” sois...
Alguém disse: - É o Figueiredo “O cigano”!
Um ex-soldado português degredado
Qu’errava por ali há muito ano

Temido e desprezado pelos “velhinhos”
Constava que matara a tiro de G-3
Um superior qu’um dia o punira
Por qualquer coisa qu’ele um dia fez

Tal como surgiu... assim se esfumou
Adensando a mística da sua existência
Pediu algumas moedas e um pouco de pão
E sumiu pelo mato fora... na sua penitência

Assim se formava a mística africana
Dos insondáveis e invisíveis laços
Que prendem e apaixonam o viajante
À sua beleza e aos seus suaves traços

Legenda:

“Manga de ronco” – signifacava muito artesanato (no dialecto dos crioulos locais).
“Shandy” - era uma bebida refrescante vendida em Bisau, em latas de 0,33 l.
“Ronda” - era um conceituado e frequentado café situado junto ao porto de Pidjiguiti, em Bissau.
“Marinho” - era o encarregado do sector de construção civil do Batalhão de Engenharia, em Brá.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

M166 - No âmago da acção

No âmago da acção

Um dia reli no bloquito de notas
Umas frases de uma anotação
Duma história inacabada... dizia:
Nome de código: Operação Ficção


Um civil acorrera a informar
Que avistara um grupo "in" ali perto
Cerca de vinte homens bem armados
O combate era mais que certo

Missão: Pesquisa e destruição
Daquelas onde o sangue corre
Trilhos... mato... armas... tiros
Onde se mata... onde se morre


Avançávamos a muito custo
Atolados na lama da picada
A trovoada e o céu escuro
Pressagiavam nova chuvada

O ar quente fustigava-nos o corpo
E o suor mesclado com a humidade
Deslizava-nos pela pele pegajoso
Aumentando a incomodidade


À nossa volta os mosquitos zumbiam
As suas picadas vorazes... irritavam
As redes enroladas em torno da cabeça
Só os olhos por uma nesga espreitavam

Na época das chuvas os ponchos
Eram bons abrigos mas estorvavam
Tolhiam os gestos perigosamente
E... os reflexos é claro... retardavam


O tarrafo ali era denso... “suspeito”
Os sentidos vão em alerta total
Os dedos roçam tensos nos gatilhos
Rebusca-se todo e qualquer sinal

De vez em quando uma "boca" soa
- Rai’s partam tanto lamaçal!
A humidade ía até aos ossos
Baixando o ânimo e o moral


A coluna seguia lenta... apeada
Os homens iam bem espaçados
Numa fila longa e serpenteante
Em silêncio... no mato concentrados

Saíramos do quartel há duas horas
Em missão de reconhecimento
Num percurso em qu’era habitual
O inimigo fazer o seu aparecimento


A rotina tornava-nos máquinas
O tempo e a acção... experientes
A tensão permanente... insensíveis
O perigo e a morte... indiferentes

Valia-nos a sã camaradagem
A partilha dos sonhos... dos receios
A entreajuda física e psíquica
A divisão das tarefas e dos meio


O convívio entre o pessoal
Era fraterno... sincero... leal
As amizades enraizavam-se
Puras... firmes... fora do normal

Continuávamos a caminhar... atentos
Perscutávamos no mato incansáveis
Um movimento... um som... um odor
Um indício dos “turras” insondáveis


Pensa-se nas instruções... uma a uma
Nas minas... nos perigos qu'estamos a correr
Ansiosos que nada aconteça
Mas prontos para o que der e vier

Pensa-se nos objectivos pré-definidos
Na surpresa... na eficácia... no dever...
Se seremos o caçador... ou a presa?
Sob o lema: Antes matar que morrer!


O prenúncio das hostilidades
Vai arrefecendo e secando o suor
A garganta parece dar um nó
A atenção é cada vez maior

Aos poucos o sangue acelera
O cérebro esvazia-se lentamente
Atenção ali... algo se mexeu...
Nada!... É só uma ilusão da mente


Da frente vem uma indicação:
“ - Foi detectada uma mina!”
Tudo em alerta d'imediato
Aceleram os níveis d'adrenalina

Excitação... angústia... tensão
Os olhos ardem da busca apurada
Engole-se a escassa saliva
Os ouvidos aguçam-se... mas nada


Um tiro... dois... está tudo a mexer…
Procurando uma boa protecção…
Mais tiros... explosões de granadas…
Procura-se o “in” no meio da confusão…

As balas às centenas zumbem no ar…
Em todos os sentidos e direcções…
Buscam a vida em nome da morte…
Com a mais maléfica das intenções…


Vozes, ordens, gritos... gemidos de dor…
Numa amálgama digna do inferno…
Matar ou morrer num crepúsculo dantesco…
Impulsos, emoções, heróis, final… eterno!

Luso sangue salpica a fria terra
Brotando das carnes feridas... rasgadas
Vidas que se esvaem pela Pátria
Aqui... longe... em África... nas picadas


Daqueles que dão o seu melhor
Mais ou menos Heróis... sem presunção
Servindo e morrendo em nome de Portugal
Fazendo História... um Povo... uma Nação

sábado, 3 de outubro de 2009

M159 - PARA ALÉM DO PALUDISMO

PARA ALÉM DO PALUDISMO

1 Escrever sobre a guerra d’África
Fiel aos factos e à verdade
É além de uma questão de honra
Um dever, justiça e lealdade

2
Assim, sobre diversos aspectos
Já se falou, debateu e escreveu
Sobre políticas e estratégias
Mas algo um pouco se esqueceu
3
Por isso dedico estas linhas
Aos seis sentidos d’um combatente
Aos actos vivos que o atormentam
Num passado sempre presente

4
Àquele que penou na picada
Que ficou marcado p’ra toda vida...
Como traduzi-lo...em palavras
Sem lhe abrir de novo a ferida
5
Que conste na nossa História
Sem salamaleques... com coragem
Que ali... na guerrilha... no mato
Cada dia... é uma contagem

6
Nas folhas dum calendário
Risca-se mais um dia que passou
Mede-se assim o pesadelo
E, ali... o fim... mais se aproximou
7
Lá se foi uma porção da vida
Nos longos dias até ali riscados
Esfumou-se de vez a juventude
Em factos na memória cicatrizados

8
Porque a guerra é muito mais...
É a lenta progressão na lama
É o mistério da mata densa
É o pressentimento do drama
9
É sobreviver no lodo do rio
É o calor... a chuva... o vento
É o suor e o pó no rosto
É o odor do corpo... nojento

10
É o peso das armas e munições
É a mochila, o cantil e o bornal
É o comer... o dormir nos covões
É as rações de combate... sabem mal
11
É o chilrear da bicharada
É sentir os mosquitos a picar
É o cintilar das cobras e dos lagartos
É as sanguessugas no corpo a sugar

12
É o pousar das botas no solo
É o terror de tropeçar na mina
É o abandono do ser racional
É o poder da adrenalina
13
É o emperrar do pensamento
É o cheiro diferente no ar
É a observação... olhos atentos
É um subtil movimento notar

14
É um galho fresco partido
É um ruído anormal captar
É uma pegada... um objecto caído
É um brilho fugaz detectar
15
É dado o alerta... e de repente
É o romper do silêncio... tolhe
É o cheiro da pólvora queimada
É a morte que chegou... e escolhe

16
É logo saltar... correr... rastejar
É o som da metralha infernal
É o explodir seco das bombas
É o deflagrar das granadas...mortal
17
É o turra?... Quantos?... Não se vê!
É algo que no capim se esconde
É responder aos tiros... cuidado!
É uma armadilha ali... onde?

18
É a sina; morrer ou matar!
É o alvo que surge numa fracção
É premir o gatilho… o tiro certeiro
É o momento da redenção
19
É quando as armas se calam
É ouvir os gemidos... regelar!
É a agonia dos feridos tombados
É o assistir à carne a rasgar

20
É o sangue do amigo... irmão!
É os buracos dos estilhaços
É a angústia... o desespero
É o vê-lo morrer... nos meus braços
21
É aquele eterno minuto a escoar
É a impotência... a frustração
É mais um’eterna noite d’insónia
É tempo de mais uma oração

22
É um pedaço meu... que morre também
É a família... um breve recordar
É a revolta das emoções
É um lamento mais... escutar
23
É um inacabar de missões
É a incerteza do fim... que sorte?
É passar ao lado das balas
É viver a par com a morte!

24
É contar o tempo que falta
É o sonho com o regresso ao lar
É recontar os dias que passam
É uma contagem... por acabar!

RANGER Magalhães Ribeiro
Furriel Mil.º da CCS
Batalhão 4612/74
Mansôa - Guiné

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

M157 - Filosofia do “Caçador Especial”

Filosofia do “Caçador Especial”

A mais engenhosa e maquiavélica das artes
O mais hábil e temível dos predadores
O mais perspicaz e cumpridor executivo
O mais objectivo e eficaz dos matadores


O objectivo supremo na guerra
A alcançar por um qualquer guerreiro
É exterminar o inimigo
Antes que ele o faça... primeiro


Em combate... ou mata ou morre
Arrisca o seu mais precioso bem
Que é, senão, a sua própria vida
Basta um erro… e a morte sobrevem

Por isso, só um caçador nativo
Com uma “dose” de sorte pessoal
Aliada à sua arte e talento
É na guerra, um temido imortal

Outro excelente tipo de caçador
É o “gerado” artificialmente
Através de treino específico
Estipulado cientificamente

Não é ensejo para qualquer um!
Dada a gama de faculdades selectiva
Qu’além de numerosa e ingénita
Se torna… como veremos… restritiva


Pelo que... um Caçador Especial
É um invulgar perfeccionista
Com dotes acima da média
Patriota, Leal e Vanguardista

Possui inteligência subtil
É perspicaz e audacioso
Em acção é ágil e versátil
E p’ró inimigo é... impiedoso


Dos seus dons naturais sobressaem;
Um poder de observação raro…
Bom auto-controle da adrenalina…
E discernimento muito claro!

Pratica em cenários virtuais
Audaz e meticulosamente
Onde se afere com rigor, dureza, e…
S’instrói multi-disciplinarmente


Auto-disciplina e carácter firme, são…
Atributos de índole fundamental
Que complementam a personalidade
Dum elitista Caçador Especial

Preparado, sobrevive e resiste;
A ambientes hostis e adversos...
Ao sono, ao cansaço e à fome…
E a outros incómodos diversos!

Ultrapassa condições inditosas
Climatéricas e territoriais
Mantendo níveis físicos e psíquicos
Acima da média d’outros mortais

Conhece os hábitos do inimigo...
A sua estratégia e acção...
As suas capacidades logísticas...
E o seu ânimo e determinação!

As características do terreno...
A constituição da fauna e da flora...
O tipo de clima e as doenças!
Pormenores qu’estuda e decora!


Está altamente especializado;
Em explosivos, armadilhas e minagem…
Todos os tipos de armamento, e…
Técnicas de combate e camuflagem!

Deve ser atirador de “um só tiro”
Porque em várias ocasiões
O segundo tiro pode nunca partir
E não haver lugar a repetições


No planeamento das operações
Analisa e pondera a certeza…
Da concretização exacta e plena
Usando o factor vital... a surpresa

E uma condição ele sobrepõe
Acima do seu valor máximo... a vida
Por garante do código de honra:
É o dever da: «Missão cumprida!»


O inimigo está ali, algures, no mato…
Tenho que o ver... antes que ele me veja a mim…
E… eliminá-lo o mais rapidamente possível…
Sem dó nem piedade... ou pode ser o meu fim!


RANGER Magalhães Ribeiro
Furriel Mil.º da CCS
Batalhão - 4612/74
Mansôa/Guiné

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

M156 - Culatra atrás... bala na câmara


Culatra atrás... bala na câmara









O sucesso d’uma operação
Além do cumprimento dos objectivos
É a grata constatação geral
Que no regresso, voltam todos vivos

Uma falha no planeamento
Uma ligeira distracção na picada
Por vezes... é mais que suficiente
P’rá vida valer tanto... como nada!


1
Na Guerra do Ultramar, em África
A rotina mais fina e delicada
É aquela que sempre antecede
Qualquer saída p’rá picada

2
Palavras mil vezes repetidas
As mil e uma recomendações
Sobre os cuidados a observar
Caso surgissem complicações
3
Eras um dos habituais factores... vital…
Para o sucesso de qualquer acção…
D’uma patrulha, emboscada, ou…
D’um bem planeado golpe de mão!

4
Nesta fase, quem mais se sobressai
Pela sua inequívoca raça
São os perspicazes batedores
Estimados “perdigueiros” de caça
5
Estes potentes observadores
Têm um “sexto” sentido aguçado
Vão na frente e abrem caminho
“Farejam” o inimigo acoitado

6
Na selva lêem como num livro
São exímios na guerrilha no mato
“Adivinham” armadilhas invisíveis
Uma falha e… a morte... é um facto!
7
Ao restante grupo de combate
Transmitem firmeza e confiança
E, colaboram nos preparativos
Com experiência e segurança

8
A inspecção ao equipamento
A vistoria às armas e munições
Tudo bem seguro e apertado
O cantil e o bornal com as rações
9
Ofuscar os objectos brilhantes
Qu’os seus reflexos vêem-se a milhas
Além de perdermos o factor surpresa
O inimigo cerca-nos d’armadilhas

10
São as últimas recomendações;
- Olhar atento... olfacto apurado…
Pois o perigo não avisa... e surge...
De surpresa... de qualquer lado!
11
- Cuidado com os fios na picada...
Não pegar num objecto abandonado...
Seguir as pegadas dos batedores…
Pode estar tudo armadilhado!

12
- Galho ou folha partida de fresco…
Uma pegada no chão... recente…
Uma pequena alteração na paisagem…
São sinais que... por ali passou gente!
13
- Não progredir muito juntos...
Contacto visual... à frente e atrás…
Suspeitar das anormalidades…
Um movimento... um ruído e... zás!

14
- Uma mina ou uma armadilha…
Traiçoeiramente escondida…
Ludibria o instinto supremo…
Qu’aqui… é a preservação da vida!
15
Em todos os pensamentos presentes
Uma interrogação sobrevêm
Intocável!... Fundamental!... Única!...
- Meu Deus hoje haverá mortos... quem?

16
- Arma p’ra cima... Culatra atrás...
Pôr o carregador... Culatra à frente...
Atenção grupo... Está tudo O.K.!?
Ordena o Comandante firmemente!

RANGER Magalhães Ribeiro
Furriel Mil.º da CCS do Batalhão 4612/74
Mansôa - Guiné

terça-feira, 22 de setembro de 2009

M 154 - CINCO AVOS PARA UMA SÓ

Nos RANGERS de Portugal em 1973, a 1ª e única Companhia de Instrução, era constituída por 125 elementos, dividido em 5 Grupos de Combate de 25 homens.


Cada Grupo de Combate (25 homens) era subdividido em 5 equipas de 5 elementos.


RANGER Magalhães Ribeiro – Soldado Instruendo nº 114


CIOE - Penude - 4º Turno/1973


3ª Equipa - 4º Grupo de combate


CINCO AVOS PARA UMA SÓ


Geraldes, Bexiga, Vareta, Ferreira e Magalhães


Em Penude s’uniram num elo de amizade profundo


Um quinteto d’escol, dinâmico e divertido


São RANGERS! Quer dizer: Fizeram-nos seres d’outro mundo


I


Na instrução no quartel em Penude


Apenas havia uma “Companhia”


Repartida em grupos de combate


Qu’em cinco equipas se subdividia


II


Por sua vez, cada uma delas


Era constituída por cinco homens


Mas, no quarto grupo, terceira equipa


Estava a “elite” daqueles jovens


III


Eram os cinco da minha equipa;


O Geraldes, audaz e destemido…


O não menos audacioso Bexiga


O Vareta, robusto e descontraído…


IV


O baixinho e valente Ferreira


E, eu, o Magalhães, discreto e “pacatão”


Todos diferentes... um mesmo fim…


Honrar a equipa com distinção!


V


E assim o fizemos... com afinco


Mas fisicamente éramos distintos


Cada qual com as suas qualidades


Embora dotados de bons instintos


VI


O Geraldes além de consistente


Era o “rei” da sobrevivência


Comia de “tudo” com satisfação


E gozava com a nossa renitência


VII


O Bexiga era o “pápa-léguas”


Em corridas batia todo o “plantel”


Arrancava nas partidas e... “voava”


Só o reavistávamos no quartel


VIII


O Vareta era o nosso Hércules


Preparação física d’excelência


Jogava rugby nos tempos livres


Fazia da dureza uma ciência


IX


O Ferreira era o mais divertido


Era o “Miss Puta 74”


Além de cumprir com o exigido


Era um óptimo actor de teatro


X


Eu, tal como o Ferreira, enfim;


Dávamos à equipa o que podíamos


Esforçávamo-nos até à exaustão


Dia a dia, lá nos excedíamos


XI


Mas o grande “segredo” da nossa força


Era a sadia camaradagem


Que unia nos momentos difíceis...


Foi p’ra mim uma nova aprendizagem


XII


Este punhado de “apanhados”


Transpunham as provas com pertinácia


Na dureza nunca mediam esforços


Deslumbrava a sua eficácia


XIII


Mas... confirmando a excepção à regra


A casmurrice... por defeito... era comum


Pelo que se perdia muito tempo


Para que nunca se zangasse nenhum


XIV


Na instrução a nível de equipas


P’ra combinar um plano de acção


Demorava mais um “acordo” final


Do que a sua total execução


XV


Quando as provas metiam bússola


Cada um o seu azimute tirava


E, discutia-se... - Quem está certo?


Qu’alegria se alguém concordava!


XVI


Na travessia do rio com barco


Cinco novas técnicas de remar


Era giro viajar em ziguezague


Duma margem p’ra outra... a agoniar


XVII


Era o “bonito”... nas encruzilhadas...


- Palpita-me que é em frente... vamos!


- À direita é que é o caminho!


- Não, é pela esquerda... sigamos!


XVIII


Quando um s’esgotava... propunha;


- Paremos aqui para descansar!


- Eu não estou cansado... mais adiante!


Enfim... só nos restava uma opção... votar!


XIX


Diz o direito... respeitar a maioria


Um por todos... todos por um lado


Mas... se uma minoria vinha a verificar;


«Vamos mal!». Estava o caldo entornado!


XX


No fim... debatiam-se os erros;


- Ó pá... somos teimosos como burros!


Prevalecia o bom senso e o humor


Objectivo: Missão cumprida... sem murros!




Além do explicável... da narração... das simples palavras...


Mesmo esmiuçando a mais pura das filosofias...


O indiscritível e fraterno “elo” da família RANGER....


É um subtil e sublime ”tabu”... só nosso... todos os dias!





Foto (Pôr do Sol - Serra das Meadas - Lamego): Bigotte de Almeida (2009). Direitos reservados.

sábado, 12 de setembro de 2009

M150 - Incorporação e Primeiros Passos


Incorporação e Primeiros Passos

Fui incorporado na tropa em Julho de 1973, como Soldado Recruta Nº 3385, no Regimento de Infantaria Nº 5 - Caldas da Rainha - 3º turno de 1973/73 – na célebre 5ª Companhia - 2º pelotão, com o Nº Mecanográfico 149 893/73.
I
Na tropa observei vários tipos de comportamento;
“O coitadinho”, andava lá, apenas por obrigação!
“O tem que ser”, porque, enfim, o País assim lho requeria!
“O distraído”, qu’era também tratado por... “morcão”!
II
E “os outros”, possuidores de carácter firme,
Educados na base da honra e da dignidade,
Cumpridores da disciplina e do dever
E que à Pátria juravam absoluta fidelidade!


Nº 149 893/73?...
PRONTO!


1
O primeiro passo... “dar os sinais”
A seguir... foi a “inspecção”
Um carimbo no papel... “apto”
E, o terceiro... a “incorporação”

2
Destino: Caldas da Rainha
Data: Junho de setenta e três
Enfiam-se os “tarecos” num saco
E, adeus amigos... até outra vez!
3
O Exército paga o comboio
No quartel dá-nos as fardas... nada mal!
Arranja-nos uma “Companhia”, e
Um cabo miliciano d’ar glacial

4
Ensina-nos o que é uma “formatura”
E se deve cumprir num “pelotão”
Dão-nos um número de série
E passam-se os dias na instrução
5
Marchar, correr, saltar e rastejar
Como fazer a continência
Manejar e desmontar armas
Com muita falta de paciência

6
E p’rós distraídos e brincalhões
Toca a “encher” vinte, trinta... cem!
S’o gajo é “piço”; «Pente zero, já!»
Uma carecada, não faz mal a ninguém
7
Ordens, despachos e outros serviços
A “Ordem de serviço” vem destinar
O Comandante, impõe e assina:
“Determino e mando publicar”

8
E há também as malditas faxinas
Limpar, varrer, lavar, pintar, polir...
Parada, cozinha, latrinas...
Tudo no quartel tem que reluzir
9
- Não sabes fazer nada de jeito…
Meu maçarico vou-te ensinar…
A fazer tudo bem, meu grande nabo…
Qu’aqui na tropa, sai caro refilar!

10
Técnica de combate, camuflagem...
Exercícios práticos e teoria…
Tiro ao alvo, ordem unida…
Preparação física, noite e dia!
11
Uma semana passada no campo
Em tendas de lona, no relvado
Contando o tempo qu’ainda falta
P’ró fim de semana tão ansiado

12
Um belo dia, numa formatura
Em qu’estava toda a Companhia
Vem um alferes com ar assanhado
Qu’ordena com toda a energia
13
- Os voluntários p’ra “Comandos”…
E p’ra “Operações Especiais”…
Vão dar um passo em frente... Marche!
«S’é “especial”...é comigo, nem mais!»

14
Meditei p’ra mim, com os meus botões;
«Esta mania de ser especial...
De nesta vida pertencer às elites...
Ainda um dia te vai cair mal!»
15
«Mas, se o “RANGER” é o escol»
Passo em frente... «Também quero ser!»
Gosto de tudo supremo na vida
Eu sou assim, não há nada a fazer!

16
Depois deste passo, só faltava um
O “Juramento de bandeira”... é lei!
«Juro e jurarei!… » todos dissemos, e…
«Ao pré e ao rancho não faltarei!»
17
Dois ou três escudos e uns tostões
Sempre recebi... e nunca faltei
Ao rancho, não me recordo, mas...
Nem enriqueci... nem engordei

18
Do pessoal e das peripécias
No fim... restam algumas saudades
Guia de marcha: C.I.O.E – Lamego
Sem mais nenhumas formalidades

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

M149 - Psicanálise... na minha análise

Psicanálise... na minha análise

I
Logo que abro os olhos de manhã
Ele desperta d’imediato comigo
É o meu permanente companheiro
Mas nem sempre o meu melhor amigo
II
Por vezes incomoda-me... satura-me
E peço-lhe que não me desoriente
Outras... que pare ou qu’esqueça
Mas ele é firme e persistente

III
Analisa e critica o que eu vejo
Dá rumos... quer ao meu sentimento!
Quer às decisões e modos de actuar!
É claro que falo... do meu pensamento!
IV
Um dos seus passatempos preferido
É rever as minhas ideias... reflectir
Fertilizá-las e corrigi-las
Sempre a aprender... para evoluir
V
Para isso sarrabisco muito papel
Risco, apago e volto a riscar
Procurando filosofias adequadas
Na busca da “perfeição” de pensar
VI
Assim... redigir um pensamento
Dado o seu grau de dificuldade
Pode demorar apenas um minuto
Ou pode durar uma eternidade

VII
Fonte de trabalho inesgotável
Teve "ele" na Guiné fértil ocupação
Um mundo de exame permanente
De que resultou esta divagação
VIII
Palco dum jogo de vida ou de morte
Na guerra era colocada em práticaA mais suprema e tenebrosa arte
Longe da velha lógica matemática

IX
Hesito e repenso cada palavra
Desta tentativa que sinto frustrada
De transcrever o pensar... o sentir...
De correr o risco de não dizer nada
X
Dum tema eterno... inconclusivo
Qu
’é «O comportamento em combate»
Sobre o risco... o medo… a mutilação…
Da vida... da morte... enfim… do debate

XI
Sobre que perpassa no pensamento…
Quando s’antevê a entrada em acção…
Durante as hostilidades... no seu fim...
Que condiciona os tipos de reacção?
XII
Será a maior ou menor capacidade…
Do auto-controle da adrenalina…
Que determina o domínio do pânico…
Moldando o combatente e a sua sina?

XIII

Quando a metralha procura a carne…
É ou não o instinto de sobrevivência…
Que designa o cobarde ou o herói…
Não sendo estes... arte ou ciência?
XIV
Há ou não seres mais dotados p’rá guerra…
Que nascem, vivem e morrem guerreiros…
E, que quando a Pátria corre perigo…
Na sua defesa eles são os primeiros?

XV
Será o medo um estado emocional…
Contra um eventual receio da dor...
Ou d'um ferimento... ou da morte...
Qu’ali... na guerra... espalha o seu pavor?
XVI
Porque lá... morre-se… duma mina... horrível!
Morre-se doente... por acidente... fatalismo!
Morre-se duma bala ou dum estilhaço... azar!
Ou num impulso de Glória... heroísmo!

XVII
Daqueles que por muito pouco…
Escapavam às garras da morte…
Diziam os companheiros e amigos…
"- Safou-se desta... teve muita sorte!
XVIII
Por isso... sorte... é tudo o que permite...
Saída airosa duma situação difícil!
Tanto protege um hábil audaz
Como o cobarde mais ignóbil

XIX
Ninguém no seu consciente normal
Arrisca inutilmente a vida…
Coisa que só se perde uma vez…
Que morrer é uma “viagem”... só de ida!
XX
Mas o espontâneo destemor
A voluntariedade... a bravura...
Sobrepunham-se à razão lúcida
Entre laivos de irreal e de loucura

XXI
Homens descendentes duma casta
Das páginas da História arrancados
Geraram gestos dignos... memoráveis
Que hoje e sempre serão recordados
XXII
Adoram a família... a paz e o progresso
Gostam de conviver e fazer amigos
Mas se algum deles é ameaçado
Está despertado o pior dos inimigos

XXIII
Não são suicidas... nem rufias
Ponderam as atitudes conscientemente
Calculam e atenuam o risco
Respeitam o perigo friamente
XXIV
Qu'as gerações futuras sejam sabedoras
Qu'em Àfrica os seus antepassados
Pela Pàtria lutaram e sofreram
E que muitos ficaram lá… enterrados

XXV
E que o mundo admirado constatou
Que o soldado português... é de respeito
E que acima de qualquer descrição
Servir um dia a Pátria... é um conceito
XXVI
Conceito que não é comum a todos nós...
Os vendilhões andam por aí... espalhados…
E par’os seus fins… não olham a meios…
Sugam, vendem e maldizem... só fuzilados!

Foto: RANGER Humberto Reis (2009). Direitos reservados.