domingo, 4 de janeiro de 2009

M43 - GUINÉ - Podia ter sido diferente? (Extracto da revista "COMBATENTE", Nº 346 - Dezembro de 2008, emitida pela Liga dos Combatentes)

Como se pode ver em anterior mensagem deste blogue, com data de 30 de Setembro de 2008, sobre o título em epigrafe, encontram-se ali 2 documentos com relevante interesse histórico.

Nunca fui, nem nunca serei, apologista de uma derrota militar na Guerra, quer pelo que já havia escrito nessa mesma mensagem, quer muito menos agora após ler o esclarecedor e excelente artigo escrito pelo Sr. Coronel Vaz Antunes, inserido da revista "COMBATENTE", Nº 346 - Dezembro de 2008, propriedade da Liga dos Combatentes, abaixo anexo .

A catarse deste período histórico da Guerra do Ultramar vai-se fazendo lento, mas fiel e factual, à medida que testemunhos como este vão surgindo a bem da leladade e da verdade, contra a distorção, regra geral de carácter político, que alguns persistem em manter.

Todos os que se interessam por esta matéria, conhecem, mais ou menos bem, o complexo e problemático período da guerra em 1973, que hoje se apelida dos 3 Gês - Guidage, Guileje e Gadamael, em que o P.A.I.G.C. empenhou tudo o que tinha (forças e quipamento), para tentar libertar uma parcela de terreno na Guiné, pressionado pela politicalhada de então que gravitava na ONU, afim de permitir demonstrar perante o mundo inteiro, que este partido, além da teoria psicológica, ali dominava e governava tanto política, como fisicamente.

O que me move na prestação deste blogue é simplesmente a necessidade pessoal, que me exige interiormente, que contribua com a minha modesta colaboração, para que a reconstituição histórica não dependa de distorcidas, reduzidas e suspeitas opiniões de um ou outro protagonista da guerra, muitas vezes movidos por interesses partidariamente políticos, e, muito menos, de estudos e, ou, divagações de indivíduos baseados em traiçoeiros, falsos e vazios testemunhos.

Assim, limito-me à fidelidade dos FACTOS, doa a quem doer, a bem da VERDADE HISTÓRICA, já que como é lógico, o tema "... se a guerra na Guiné estava perdida ou não...", será uma discussão eterna, inócua e inconclusiva.











M42 - GUINÉ - OUSADIAS (Extraído do excelente livro Guerra Colonial do Diário de Notícias).

Enviado pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique, mais 8 páginas sobre a Guiné - neste caso o capítulo "OUSADIAS" (Extraído do excelente livro Guerra Colonial do Diário de Notícias).


































































domingo, 28 de dezembro de 2008

M41 - ANGOLA: Mais 4 panfletos de propaganda política (Acção psicológica) utilizados para apelar aos guerrilheiros do MPLA, FNLA e UNITA


Mais 4 panfletos de propaganda política utilizados pelas forças portuguesas em Angola (da colecção do 1º Cabo Louro e enviados pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique), extraídos bo blogue de António Matos, ex-Combatente em Angola http://acmartinsmatosbarquinha.spaces.live.com/).








Mais 4 panfletos de propaganda política utilizados pelas forças portuguesas em Angola (da colecção do 1º Cabo Louro e enviados pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique), extraídos bo blogue de António Matos, ex-Combatente em Angola http://acmartinsmatosbarquinha.spaces.live.com/).










sábado, 27 de dezembro de 2008

M40 - ANGOLA - Panfletos de propaganda política (Acção psicológica) usados como apelos aos guerrilheiros do MPLA, FNLA e UNITA

5 panfletos de propaganda política utilizados pelas forças portuguesas em Angola (da colecção do 1º Cabo Louro e enviados pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique), extraídos bo blogue de António Matos, ex-Combatente em Angola http://acmartinsmatosbarquinha.spaces.live.com/).














5 panfletos de propaganda política utilizados pelas forças portuguesas em Angola (da colecção do 1º Cabo Louro e enviados pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique), extraídos bo blogue de António Matos, ex-Combatente em Angola http://acmartinsmatosbarquinha.spaces.live.com/).

M39 - Guiné - Operação Mar verde (Livro Guerra Colonial do Diário de Notícias)

Enviado pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique, mais 4 páginas sobre a Guiné - neste caso a descrição de uma das operações de maior envergadura de toda a guerra (Extraído do excelente livro Guerra Colonial, do Diário de Notícias).
















segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

M38 - GUINÉ - A Minha Guerra - RANGER José Pereira de Carvalho - Guiné 1972/197414 (Publicado no jornal Correio da Manhã, em 14 de Dezembro 2008)

A Minha Guerra - José Casimiro Pereira de Carvalho - Guiné 1972/1974 

"Combati no inferno verdadeiro" 


Alombei com camaradas mortos, vi outros serem abatidos, socorri alguns em Guileje e Gadamael e evitei que dois soldados mais novos fossem para a matança.

Fiz a recruta em Leiria, no Regimento de Infantaria 7, e de seguida fui escolhido para frequentar o Curso de Sargentos Milicianos nas Caldas da Rainha. Depois fui nomeado para Tavira, mas não cheguei a ir porque fui escolhido para tirar o Curso de Operações Especiais nos Rangers de Lamego, que terminei com 15,28 valores. Mais tarde, em Estremoz, como cabo miliciano, dei instrução num pelotão da Companhia de Cavalaria 8351 (‘Os Tigres de Cumbijã). Fui nomeado para servir no Comando Territorial Independente da Guiné e transferido para a Companhia de Cavalaria 8350 (‘Os Piratas de Guileje’). 


Embarcámos em Outubro de 1972 e, já em Bissau, seguimos para Cumeré, e duas semanas mais tarde embarcámos numa lancha de desembarque para Gadamael, donde seguimos para Guileje. Aqui, em sobreposição com ‘Os Gringos’, tivemos um período de muito trabalho em patrulhas. Mas passámos uns meses descansados. Andei a caçar pássaros com uma caçadeira que o chefe da tabanca me emprestava (só pagava os cartuchos). Apanhava aos 50 pardais com cada tiro e os jubis (miúdos) agarravam os que ficavam feridos. Era cada arrozada! 


Mas os tempos iriam piorar. Um dia, o alferes Lourenço, ao manusear uma granada duma armadilha, rodeado de militares - eu estava emboscado com o meu grupo -, ela explodiu-lhe na mão e matou-o instantaneamente. Já no quartel, ao ajudar a pegar no cadáver, este quase se partiu em dois. Que dor senti, chorei como nunca. Era o prenúncio do que nos esperava. Um dia fomos atacados pelo inimigo com canhões sem recuo, e um Fiat G91 da Força Aérea Portuguesa foi contactado pelo comandante capitão Abel Quintas, que lhe indicou o rumo das saídas (zona de explosão dos projécteis a saírem das bocas de fogo) e ele seguiu. Mais tarde soube que tinha sido abatido por um míssil Strella terra-ar. Intervieram os pára-quedistas e o grupo do Marcelino (‘Os Vingadores’ das Operações Especiais), numa confusão de tropas como nunca tinha visto. Pedi ao Marcelino para me levar na operação de resgate do piloto tenente Pessoa, que aceitou, mas o meu comandante não foi na conversa, não obstante o Marcelino ter dito que me trazia de regresso, nem que fosse às costas. 


Entretanto, fui nomeado para comandar os reabastecimentos, antes do isolamento, entre Cacine e Gadamael. Andava eu a curtir o Sol em lanchas de desembarque, quando Guileje, no Sul da Guiné, foi abandonada, por ordem do então major Coutinho e Lima – que por isso foi mandado prender pelo general Spínola -, seguindo as nossas tropas e a população para Gadamael Porto, a 18 km de distância, onde passados uns dias começou a matança no verdadeiro inferno. Foi um horror que a minha cabeça ainda hoje se recusa a qualificar e quantificar. Em Gadamael não havia casamatas (abrigos subterrâneos) como em Guileje, só valas. Os bombardeamentos eram tão intensos que nem dava para acreditar e, depois de ouvirmos as saídas, passavam apenas 22 ou 23 segundos até as granadas caírem em cima de nós. Num dos voos para uma vala, onde nos escondíamos, senti as nádegas húmidas e ao pôr a mão ficou encharcada em sangue. Gritei que estava ferido e fui evacuado num barco patrulha da Marinha para Cacine, onde verificaram que tinha um estilhaço de um morteiro de 122 mm. Como não havia necessidade de ser transferido para Bissau, fui nomeado chefe de limpeza. 


Quando começaram a chegar as vítimas deste holocausto, e como ouvia os meus camaradas a embrulhadar (bombardeados), deu-me um clique na cabeça, peguei numa Kalashnikov, virei-me para um oficial e disse: ‘ou me mandam já para Gadamael onde morrem os meus homens ou varro já esta m...’ Não me lembro dos momentos seguintes, mas sei que depois me vi num Sintex (barco em forma de banheira de fibra de vidro), a caminho de Gadamael. Aqui, num dos bombardeamentos, já no fim, vi um soldado a cair e, ainda com o fumo no ar e o eco das explosões nos ouvidos, saí em correria louca, alombei com ele às costas e corri para a enfermaria. Ao colocá-lo no chão, vi que não tinha metade do crânio e os miolos escorriam pelas minhas costas. Nessa enfermaria jazia um militar morto por bombardeamentos em Guileje e que mais tarde foi enfiado em dois bidões soldados juntos, tal o estado do cadáver. Na enfermaria, os cadáveres eram tantos e o cheiro tão nauseabundo que era constantemente regada com creolina. Num dos ataques, o capitão Quintas (comandante de ‘Os Piratas de Guileje’, cujo nome e emblema foram criados por mim) foi ferido muito gravemente. Ajudei-o a chegar ao cais, debaixo de fogo, arranjei um Sintex e, como não tinha depósito, corri, debaixo dum bombardeamento terrível, a arranjar um. O barco seguiu então para Cacine levando mais feridos.


Noutra altura, um oficial chamou meia dúzia de homens e mandou-os fazer uma patrulha ao longo de um rio e emboscarem-se numa zona de uma antiga pista de aviação. Eu, ao sair com o alferes Branco, reparei em dois soldados que estavam para ir e ordenei-lhes que ficassem porque ainda eram muito novos para morrer. Quando o alferes nos mandou emboscar, ouvi um barulho estranho vindo do mato, atirei-me ao chão e gritei que estávamos a ser atacados. Ainda vi a cara do alferes a ser atingida por uma rajada. Foi um tiroteio terrível. Um grupo de pára-quedistas foi em nosso socorro e quando chegou encontrou quatro corpos: o alferes Branco, o cabo Neves e os soldados Serafim e Anselmo. 


A minha companhia foi evacuada e esteve para regressar à Metrópole, mas foi decidido que devíamos fazer outra Instrução de Actividade Operacional. Eu fui para Prabis com 12 homens, outros para Quinhamel ou Bijemita, depois fomos para Colibuia-Cumbijã. Eu fui destacado para render o furriel Cláudio Moreira das Operações Especiais. Entretanto, aconteceu o 25 de Abril e fui para Paúnca para a Companhia de Caçadores 11 (‘Os Lacraus’), até ao fim da comissão.

FAMÍLIA VISITA TODOS OS ANOS OS RANGERS EM LAMEGO
José Casimiro Pereira de Carvalho mora em Vermoim, na Maia, e é casado há 33 anos. Tem duas filhas, a Kika, de 31 anos (administrativa) e a Sofia, de 26 (economista). Tem uma neta, da primeira filha, com dois meses (Beatriz).

Nasceu em Cedofeita, Porto. Completou o ciclo preparatório, trabalhou em hotelaria e quando foi para a tropa estava no Hotel Castor, no Porto. Quando regressou, era furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger).  

Convidado para seguir a vida militar, não aceitou e foi trabalhar como empregado de mesa no restaurante Barcarola. Entretanto, foi para a BT-GNR, onde esteve durante 26 anos, até à reforma, em 2003. Agora, passa o tempo a ajudar um amigo que trabalha em aço inox para mobiliário. Todos os anos a família vai a Lamego, aos Rangers, porque adora a instituição.

domingo, 14 de dezembro de 2008

M37 - Guiné - MAIO DE 1973 - O INFERNO DE GUILEJE

Enviado pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique, mais 12 páginas sobre a Guiné - neste caso a descrição do vietname português, que foi um inferno em Guileje (Extraído do excelente livro Guerra Colonial do Diário de Notícias).


































































































domingo, 30 de novembro de 2008

M36 - Guiné -Meios Físico, Humano e Económico (Livro Guerra Colonial do Diário de Notícias)

Enviado pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique, 5 páginas sobre a Guiné -Meios Físico, Humano e Económico (Extraídas do excelente livro Guerra Colonial do Diário de Notícias).








sábado, 1 de novembro de 2008

M35 - O que somos, nós os Ex-Combatentes da Guerra do Ultramar? Sem INFELIZ dúvida somos... "Sombras desta pseudo-democracia!"


Sombras desta pseudo-democracia!

Éramos uns “putos”... feitos Homens!
Arrancados aos bancos dos liceus
Largando mães, namoradas, esposas...
Enfiados em quartéis... longe dos seus

Éramos uns “putos”... mas tesos!
Sabíamos que o destino era a guerra
Lá... muito longe... em meio hostil...
Pleno de mata, trilho, rio e serra

Éramos uns “putos”... com vinte anos!
Que crescemos mais rapidamente
Cientes que a "coisa" era… séria
Cheia de riscos... perigosamente!

Éramos uns “putos”... mas solidários!
Soubemos ultrapassar as dificuldades
À custa de vasto suor e muito sangue...
Algumas cicatrizes e enfermidades

Éramos uns “putos”... quase imberbes!
Instruídos p'ra matar... custa a crer!
Imbuídos duma obsessão suprema;
Acima de tudo... sobreviver!

Éramos uns “putos”... uma geração!
Lidamos com as privações e a morte
Cada um teve a sua missão
Com maior ou menor dose de sorte

Éramos uns “putos”... temperados!
Quantas vezes superamos as fraquezas
Para dar uma ilusão de sermos fortes
De modo a derrotar dores e tristezas!

Éramos uns “putos”... Grandes… enfim!
Fomos lá... cumprir... melhor ou pior!
Cada um com seus receios... medos!
Em nome dum Império duro e opressor

Hoje estes “putos”... já são avós!
E uma coisa estranham... revoltados!
O repugnante ostracismo político
A que, como ex-combatentes, são votados!

Quando pensaram: “Cumpri com a PÁTRIA!”
Descobriram, digamos que... espantados!
"Somos sombras desta pseudo-democracia!”
Pura e simplesmente... ignorados!"

Cientes que os voluntários foram poucos
E os que não fugiram foram bastantes
A indignação é tanto mais e revoltante…
Quanto os sentimentos são frustrantes

Rezando pelos que entretanto vão “partindo”
Vão dando continuidade à vida… desgostosos
Desta imensa e repulsiva ingratidão
Por parte de políticos velhacos e rancorosos

Mantendo porém… firmes a sua esperança
Que neste país após a “abrilada”
Políticos com sentido e Amor Pátrio
Lhes prestem justiça e… mais nada

Porque tudo deram… do seu melhor!
Por vezes… sabe Deus com que sacrifícios
Dez mil morreram na flor da idade, e…
Milhares ainda sofrem mil malefícios!

Trocando experiências e memórias
Estes homens convivem entre si… alegremente
Tornam-se amigos, camaradas... irmãos…
Entre palavras, risos e choros... intestinamente!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

M34 - Sobre Mikhail Kalashnikov - O homem que inventou a AK-47

Mikhail Kalashnikov

Por DURMO DESCANSADO (in Pública, Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003)
Nick Paton Walsh

Para um homem cujo nome está tão inextricavelmente ligado à morte, Mikhail Kalashnikov não podia ter aspirado por um fim de vida mais calmo. Ele passa os seus dias de verão numa casa de campo na margem de um lago cristalino, no coração da planície sul dos Urais, a algumas milhas do coração industrial de Izhevsk. Aqui, entre pinheiros que tocam o céu e mosquitos do tamanho de pombos, ele e a sua endiabrada neta de sete anos, Ilona, brincam juntos nas clareiras do bosque, inspirando o ar puro e rico.

No entanto, para aqueles que rodeiam Mikhail a vida não é assim tão pacífica. Anos de testes de tiro das armas automáticas que têm o seu nome deixaram este velho, de 83 anos praticamente surdo. Se se quiser que ele nos ouça, tem que se colocar a boca a escassa distância da sua orelha e falar muito alto.

Em 1947, a "Avtomatni Kalashnikova" ganhou um concurso soviético para a concepção da mais moderna metralhadora para o vitorioso Exército Vermelho. Cinquenta e seis anos, mais de 100 milhões de armas e muitos milhões de mortes mais tarde, ela permanece a mais prolífica máquina de morte do mundo. Mas Kalashnikov não mostra qualquer reticência em mostrar o amor e orgulho que ainda sente pela sua criação.

"Com [o desenho] das armas, passa-se o mesmo do que com uma mulher que cria um filho", explica. " Durante meses ele transporta o bebé e pensa nele. Um 'designer' faz quase o mesmo com um protótipo. Sinto-me como uma mãe - sempre orgulhoso. É um sentimento especial, como se tivesse recebido um prémio especial. Fartei-me de disparar. Ainda o faço. É por isso que sou duro de ouvido".

Segundo Aaron Karp, consultor da Base de Pequenas Armas, sediada em Genebra, os sucedâneos da Kalashnikov "poderão ter causado mais de 300 mil baixas anuais em combate nas guerras da década de 90. Elas são as armas principais de um ou de mais lados em praticamente todas as mais de 40 guerras registadas na última década". Foi talvez a principal exportação da União Soviética: existem agora 10 vezes mais AK-47 no mundo do que M16, a sua rival americana, já que os soviéticos as deram quase de borla a qualquer movimento por que sentissem empatia ou que pudesse ter uso para elas.

A chave para o seu sucesso reside num desenho simples, destinado a assegurar que mesmo as mulheres e crianças sem experiência que encheram as fábricas soviéticas durante o período de guerra as podiam produzir em massa e assim abastecer os seus pais e filhos deslocados na frente. É tão simples que versões rústicas têm sido produzidas em oficinas de aldeia no Paquistão. "Comparadas com outras espingardas automáticas, a sua produção, uso e manutenção é muito simples. Tem oito partes móveis. Desta simplicidade resulta que mesmo um soldado mal treinado a pode desmontar em cinco segundos e limpá-la facilmente".


Mas Kalashnikov parece ter encontrado uma forma de se absolver a si próprio de qualquer culpa ou responsabilidade pelo seu brinquedo de morte. Ele apresenta uma simples, mas aguçada defesa de modo a convencer-se tanto a si próprio, como aos que o interpelam, da sua inocência: "Fiz isto para proteger a pátria mãe. E depois eles espalharam a arma (pelo mundo)- não porque eu o quis. Não foi escolha minha. Foi como um génio que saísse da garrafa e começasse a andar pelos seus próprios pés e em direcções que eu não queria".

Mesmo assim "o lado positivo ultrapassou o negativo", insiste, "porque muitos países usam-na para se defender. O lado negativo é que por vezes fica fora de controlo. Os terroristas também querem usar armas simples e fáceis. Mas eu durmo descansado. O facto de haver pessoas que morrem por causa de uma AK-47 não é culpa de quem a concebeu, mas sim por causa dos políticos".

Para perceber este orgulho perene, tem que se perceber a forma de pensar caracteristicamente soviética que ainda é a de Mikhail. Antes, Kalashnikohv tinha-nos contado jovialmente como, nessa tarde, ele e Ilona se dedicaram a substituir pedaços de floresta morta. A sua alegria deixa a claro a adoração soviética pelo "trud"- um misto de trabalho e produtividade, que, em 1976, o levou a ganhar a medalha de Herói Socialista do Trabalho pelas suas invenções, e que alimenta as suas ideias. Para ele, é apenas o seu trabalho, sendo este uma pequena peça na grande engrenagem soviética.

Foi apenas quando ele viu como o grande projecto comunista eventualmente perverteu o objectivo original do seu "bebé" que Kalashnikov começou a sentir algum desconforto. Ele e a sua filha referem os dois momentos principais em que tal aconteceu. O primeiro ocorreu quando, em 1992, centenas de azerbeijanis foram massacrados em Nagorno-Karabakh pelos arménios, que contavam com o apoio do regimento 366 do exército russo.
Kalashnikov admite que ver as imagens do massacre na televisão foi "obviamente desagradável". O segundo foi quando, em 1993, Boris Ieltsin ordenou às tropas que atacassem a sede do parlamento russo.

A vida tranquila de Kalashnikov nos bosques da periferia de Izhevsk pode ser vista como uma tentativa para se distanciar daquilo em que a sua invenção se transformou. A sua calorosa e carismática filha olha por ele desveladamente. Elena organiza entrevistas, adora traduzir - ou gritar – as minhas perguntas, irradiando atenção, entusiasmo e orgulho. Nos olhos da neta Ilona brilha uma centelha.

Entretanto, a alguma milhas deste santuário, a arma continua a sua carreira Izhevsk, profusamente anunciada no site da empresa Izhmash. Num hotel, um turista americano enverga uma t-shirt com um "Roteiro de Destruição no Mundo" da AK-47. É um roteiro onde figuram a Chechénia, o Afeganistão, a faixa de Gaza, o Congo, Nagorno-Karabakh, etc. Mais abaixo na rua, num das lojas de venda de armas da cidade, Lilya, 12 anos, e um seu amigo, olham atemorizados para a exposição de Ak-47. "Foi a primeira vez que aqui viemos", conta ela. "Apenas queríamos ver".

A história de como esta ideia original apareceu está profundamente misturada com a história da vida de Kalashnikov. Nascido numa família de camponeses pobres em Novembro de 1919, pouco depois da revolução de Outubro, Mikhail Yefimiyevich Kalashnikov viu a sua família obrigada a sair da região do Altai para o exílio na Sibéria, onde arrastaram uma dura existência de camponeses. Mas foi o exílio - a vergonha de ter a família proscrita do sonho da Rússia soviética - que empurrou Kalashnikov para dar o seu melhor. "Tentei que o meu desempenho fosse o melhor possível. Era um rapaz na altura, mas trabalhava bem com os doentes".

Ele inventaria qualquer coisa pata tornar mais fácil a vida da sua família, e dos trabalhadores comunistas. "Tínhamos trigo, mas não moinhos, por isso inventei uma espécie um moinho de madeira para que pudéssemos fazer farinha. Provavelmente nasci com alguns talentos para desenho". Cedo foi enviado para trabalhar nos caminhos de ferro, como amanuense. Aqui as suas ambições criativas começaram a florescer. "Queria inventar uma máquina que pudesse correr para sempre. Podia ter desenvolvido um novo comboio, se tivesse continuado nos caminhos de ferro. Teria sido parecido com a Ak-47", brinca.

Com 19 anos de idade, foi incorporado no exército para combater na II Guerra Mundial. Integrado numa divisão de tanques, depressa descobriu uso para os seus talentos de 'designer'. Primeiro foi uma máquina para contar o número de projécteis disparado pela metralhadora do tanque - "para que soubéssemos quantos restavam". Depois foi uma engenhoca que permitia que as pistolas disparassem através das aberturas dos tanques; depois ainda um método para calcular a distância percorrida por estes.

A vida da AK-47 começou quando Kalashnikov se viu num hospital de guerra a recuperar de ferimentos e do choque nervoso provocado pelas explosões, cismando como era injusto que os alemães tivessem armas automáticas, e os seus colegas russos apenas espingardas de um só tiro. "Experimentei uma dúzia de modificações que foram rejeitadas, mas todas elas abriram caminho ao esboço final. Tinha que adquirir experiência porque não tinha preparação técnica". O processo foi longo e competitivo, com Kalashnikov a trabalhar numa série de institutos e as ideias alvo de críticas desde que nasciam e à medida que iam sendo desenvolvidas. "O departamento de artilharia forneceu esboços para uma nova arma. Tínhamos que os melhorar ou então éramos eliminados da corrida".

Em 1946, nasceu o protótipo AK-46. Um ano, a arma verdadeira foi aprovada. Ele atribui o seu sucesso à "sorte que teve em encontrar pessoas simpáticas e prestáveis" durante toda a sua vida. Teve um bom manager, o capitão Vladimir Daikin, um encorajador chefe de departamento, Vladimir Glukhov, e um mentor, Anatoly Blagonravov, que foi o primeiro a informar os seus superiores, em 1941, da "excepcional capacidade de Kalashnikov em resolver problemas técnicos complicados".

Mikhail apresenta o produto final como se de uma verdadeira conquista comunista se tratasse - um triunfo colectivo que salvou a pátria mãe. Para ele, a arma quase que surgiu de um processo equivalente à selecção natural, fruto da necessidade e para garantir a sobrevivência - o empurrão de um jovem homem à guerra em curso. "O homem continua sempre a inventar coisas", diz. " A vida é feita de diferentes invenções. Continuei a trabalhar em diferentes coisas, reconstrui toda a minha casa. Fi-lo pela satisfação de fazer alguma coisa. Fi-lo porque aconteceu estar onde estava". Acima de tudo, ele parece orgulhoso de ter sido capaz de fazer algo, independentemente do que esse algo possa fazer: "A vida pode levar-nos a fazer muitas coisas. Até a beijar um homem com o nariz a pingar".

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

M33 - MEMÓRIAS DE UM EX-FURRIEL G.E. (GRUPOS ESPECIAIS)




A mais alta de todas as traições
 Muitos africanos foram os nossos melhores amigos
Tinham orgulho em envergar uma farda portuguesa
Na instrução eram afincados, cumpridores, e...
No combate davam tudo... até a vida... com nobreza!


Após a revolução dos cravos
Reinava no país a anarquia
Assaltavam-se as Instituições
O povo em “partidos” se dividia

Gente a falar do que não sabia
Ou que não sabia do que falava
Que ora dizia uma coisa
E passados minutos... negava

No meio de todas as convulsões
O poder político era “restaurado”
Os governos tomavam decisões
Aos repelões... uns p’ra cada lado

E assim, no meio deste “arraial”
Foi assinado, se bem me lembro
O acordo p’ra descolonização
Nesse ano, em 9 de Setembro

Só para se ter uma leve ideia
Do resultado deste “processo”
Olhe-se para o drama de Timor
O grotesco de um insucesso

Mas se Timor é a “cara” da moeda
A “coroa” anda envergonhada
Vamos virá-la e falar nela
Iluminar uma traição abafada

Uma ignóbil e cobarde traição
A história qu’aqui se vai contar
Parte do povo ignora... naturalmente
Outra sabe... mas prefere não falar

Assim, começando pelo princípio
Na “nossa” África colonial
Os africanos eram baptizados, e…
Registados... em nome de Portugal

Portugueses para todos os efeitos
Eram convertidos ao burgo cristão
Eram detidos, julgados e punidos
Por leis e juízes da nossa Nação

Pois era, muitos desses africanos
Nas nossas escolas estudavam
Dignos de respeito e estima, e…
No nosso meio trabalhavam

Eram tratados com igualdade
E cumpriam serviço military
Prestavam juramento de bandeira
Juravam, também, a Pátria honrar

Na tropa ostentavam com orgulho
As mesmas insígnias e fardas
Tornavam-se aprumados, vaidosos
Seguravam firmes as espingardas

Combatiam fiéis ao nosso lado
Ao nosso lado feridos tombaram
Alguns estropiados p´ra sempre
Outros... a vida sacrificaram

Em Angola, Moçambique e Guiné
Foram louvados e condecorados
Foram graduados do Exército
E, como Heróis foram saudados

Logo após a descolonização
Estes “pretos” foram abandonados
Portugal deixou de os considerar “seus”
Os “deles” acusavam: “- São renegados!”

Votados ao desprezo e à humilhação
Fria e cruelmente torturados
Apátridas ao “seu” novo “Partido”
Foram sumariamente executados!

Odiados por um simples facto
Que nunca lhes foi perdoado
Gostarem e lutarem pelos “portugas”
Seu único e último... pecado

Perante a velada indiferença
Dos políticos e das Nações
É tempo da História julgar
A MAIS ALTA DE TODAS AS TRAIÇÕES

Haverá porventura... gesto humano mais divinal…
Q’um homem possa fazer para outro auxiliar…
Que disponibilizar o seu mais supremo bem... a vida?
Jamais deixemos a sua memória alguém desonrar!