segunda-feira, 12 de abril de 2010

M202 - História de uma emboscada na Guiné - RANGER Fernando Araújo

GUINÉ - Emboscada em Lamel

(região entre Jumbembem e Farim)


Fernando Costa Gomes de Araújo, ex-Fur Mil OpEsp/RANGER da 2ª CCAÇ do BCAÇ 4512, Jumbembem, 1973/74

Lamel > 1974 > 02FEV, Emboscada no “Alto de Lamel” (1 morto e vários feridos)

2-02-1974 - 10h00 -, O meu pelotão, que estava reduzido a 15 ou 17 unidades, e um pelotão de Madeirenses que nos tinha vindo reforçar recentemente, saímos para fazer contra-penetração no trilho de Lamel, numa acção motivada por informações recolhidas de que um dos quadros superiores, de maior nomeada do PAIGC - Luís Cabral -, ia passar ali para o interior da Guiné.


Ao fim de algumas horas de marcha, paramos para almoçar (uma ração de combate individual) e descansarmos um pouco entre as habituais conversas e algumas anedotas.


Findo este período deslocamo-nos pela picada até ao “alto de Lamel”.


Ao chegarmos lá, o primeiro homem da coluna - o Reis -, avistou um vulto suspeito aninhado na picada, que, aparentemente, estava a colocar uma mina.


Pousámos o equipamento que trazíamos, além do normal nestas saídas, e, de armas em punho, fomo-nos aproximando do local onde o Reis tinha avistado o tal suspeito. Este ao aperceber-se da nossa presença fugiu de imediato para o interior do mato.


Quando o Reis – o nosso homem da metralhadora HK-21 -, chegou ao local onde tinha estado o tal suspeito, estalou um “fogachal” medonho.


Abrigamo-nos rapidamente do fogo inimigo e respondemos de imediato do mesmo modo.


A nossa sorte nesta emboscada, foi o Reis andar sempre com a HK-21 limpa e lubrificada, coisa que eu sabia bem, pois quando passava na caserna do 2º pelotão via-o sempre a limpar esta sua atribuída arma, e eu rotineiramente perguntava-lhe: “Reis essa arma está bem limpa?”


Ele sorria e respondia invariavelmente: “Furriel está limpinha e bem lubrificada.”


A compensação deste trabalho dava agora os seus frutos, na reacção a esta emboscada, pois o Reis quando via os inimigos levantarem-se, para avançar em nossa direcção, disparava curtas e certeiras rajadas, obrigando-os a deitarem-se novamente, tendo abatido assim 2 ou 3 dos guerrilheiros atacantes.


A troca de fogo estava cerrada e começou a instalar-se a confusão.


Em determinado momento reparei que o homem das transmissões - o Marante -, havia deixado cair a antena do rádio AVP-1, sem se aperceber.


Avisei-o, apanhei a antena e entreguei-lha ao mesmo tempo que lhe gritei: “É a única hipótese que temos de contactar com o quartel!”


O PAIGC lançava em nossa direcção sucessivas granadas de RPG 2 e RPG 7, e, confesso, perante aquele cenário infernal só pensei que não ia sair vivo dali.


Para agravar o nosso estado psíquico e anímico, vimos a nossa força ficar substancialmente reduzida, já que o pelotão de Madeirenses, quando a emboscada rebentou, desatou a fugir em debandada pelo meio da picada fora, deixando-nos ali sozinhos em pleno combate contra um inimigo muito superior, quer pelo poder de fogo em cena, quer pelo número de activos que se deduzia estar ali em grande número.


Comecei a chamá-los e a insultá-los aos berros ferozmente, com todo os nomes feios e depreciativos de que me lembrei e possam estar a imaginar.


Apesar de toda a confusão instalada, notei que a tropa avançada do PAIGC estava a tentar envolver-nos atravessando a picada em posição de técnica de combate.


Disse ao homem do morteiro: “Martins, bate a zona para onde eles se estão a dirigir… rápido!


O Martins assim fez e como não obtivemos resposta, fomos retirando lenta e atentamente para o lado de Farim.


A dado momento só tínhamos 2 ou 3 granadas de morteiro de 60 mm, porque no início da emboscada a rapaziada começou a disparar, tudo o que tinha à mão, indiscriminadamente, sobre a mata sem ainda sequer terem avistado qualquer IN.


Como eu não tinha avistado nenhum alvo, também não tinha disparado qualquer tiro e até deu para dispensar 3 dos meus carregadores da G3 a três dos meus homens.


Mais ou menos a meio da emboscada, o 1º Cabo Ferreira, que nesse dia foi escalado para levar a bazuca, levou um tiro num pé e, em vez de rastejar até nós como mandam as “regras”, não o fez, tendo-se posto em pé, sendo logo alvejado com uma granada de RPG no peito, o que lhe provocou a morte instantânea.


Fomos obrigados a continuar a retirar para o lado oposto (Farim), com vários feridos graves, já que o inimigo estava a utilizar a táctica de envolvimento (vulgar meia-lua), cortando-nos a retirada para o nosso quartel.


Entrei então na picada de Lamel onde se cruzava o trilho, com mais dois ou três homens armados de G3, em posição de rajada.


Comecei a sentir o coração mais acelerado, pois sabia que se estivessem ali meia dúzia de “turras”, era o suficiente para nos apanharem à mão.


Rezando para que não fosse necessário, eu ia disposto a vender cara a minha vida se preciso fosse.


A certa altura chegou junto de mim um soldado com um buraco no braço esquerdo manifestamente originado por um estilhaço.


Amarrei-lhe o meu lenço verde-preto dividido em diagonal, que usava habitualmente para me camuflar, a fim de lhe estancar o sangue e amparei-o segurando-lhe também a sua arma, porque a sua vontade era abandoná-la ali, dadas as terríveis dores de que estava a padecer.


Atravessamos o trilho de “Lamel” sem problemas, e atingimos a ponte do mesmo nome, que era o ponto de encontro das duas picagens vindas de Jumbembem e de Farim.


Fiquei preocupado quando cheguei à ponte de Lamel só com dois ou três soldados, pois não sabia da localização dos restantes.


O que seria feito do resto do pelotão? – perguntei-me.


Passados uns 10 a 15 minutos aparecem mais 4 ou 5, que me narraram uma história de arrepiar.


Contaram-me então, que não tiveram tempo de fugir para um lugar mais seguro e refugiaram-se numa grande cova natural, que existia na parte inferior ao lado da picada, e, ali anichados silenciosamente, ouviram os guerrilheiros do PAIGC, murmurando entre si, a aproximarem-se daquele local.


O que lhes valeu foi que eles iam tão obcecados para capturarem os nossos despojos (bornais, cobertores, etc), que largáramos na picada quando retiramos durante o confronto na emboscada, que nem deram por eles.


Quando eles acabaram de falar, gelou-se-me o sangue nas veias só de imaginar esta “peripécia”, porque caso tivessem sido detectados, ou teriam sido mortos, ou apanhados à mão. “Há gajos com muita sorte!” – pensei eu.


Finda a emboscada, saíram do quartel em nosso auxílio a CCAÇ 51 (que sofreu também uma forte emboscada), e o Grupo Especial de Milícias 322 (Jumbembem), que foi igualmente emboscado.


Enfim, aquela zona esteve toda a ferro e fogo… um autêntico inferno.


Mais tarde, chegaram finalmente reforços de Farim, tendo-nos escoltado (2ª Companhia do BCAÇ 4512), até ao nosso aquartelamento em Jumbembem. 

Chegado ao quartel, continuava obcecado pela morte do 1º Cabo Ferreira, que, além de tudo o mais, era casado e deixou à sua esposa dois filhos para criar.


Este sensível e terrível facto, aliado a alguns remorsos e mau estar que eu sentia, porque uns dias antes eu tinha optado por castigá-lo com dois reforços, para evitar o seguimento de uma participação por abandono de um posto de vigia, se tivesse agravado numa punição superiormente agravada pelas nossas hierarquias, fez com que eu não conseguisse conter algumas lágrimas. 

Foram as primeiras e as últimas que derramei na Guiné!

Foto 35 > Jumbembem > 1974 > FEV02, Chegada de operação em Lamel
Foto 36 > Jumbembem > 1973 > Saída de um grupo em direcção de Lamel


Foto 37 > Jumbembem > 1973 > O 1º cabo Ferreira, aqui a lançar areia com uma pá para uma Berliet e que viria a falecer combate (02FEV74), na emboscada aqui descrita


Foto 38 > Jumbembem > 1974 > Estado em que ficou uma Berliet destruída por uma mina A/C, em Lamel


Fotos: © Fernando Araújo (2009). Direitos reservados.


Esta mensagem também pode ver-se no blogue completamente dedicado à Guiné e tudo o que é relacionado directa e indirectamente com a guerra, que nós porgueses travamos naquela ex-Província: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/


terça-feira, 6 de abril de 2010

M201 - RANGER Fernando Araújo do 4º Curso de 1972 - Cumpriu a sua comissão militar na Guiné 1973/74


O RANGER Fernando Araújo
4º Curso de 1972
O RANGER Fernando Araújo do 4º Curso de 1972 - Cumpriu a sua comissão militar na Guiné 1973/74, na região de Jumbembem (Norte/Central), como Furriel Miliciano em Jumbembem, na região centro/Norte, no 2º Pelotão da 2ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4512/72, tendo participado numa coluna a Guidage muito problemática, imediatamente antes da execução no terreno da célebre e espectacular Operação Ametista Real (a tratar brevemente noutra mensagem), que é considerada pelos melhores estrategas nacionais e mundiais, uma das mais bem delineadas, famosas e melhor sucedidas acções de toda a Guerra do Ultramar, que decorreu no período entre 1962 e 1974, em Angola, Guiné e Moçambique.
Guiné * Jumbembem (localidade no centro/Norte)
Jumbembem-1973-JUL13, Picada de Sare Tenem
Jumbembem-1973, JUL01, Picada de Sare Tenem com o rádio AVP-1
Fotos: © Fernando Araújo (2009). Direitos reservados.

sábado, 3 de abril de 2010

M200 - História de Portugal - Um trabalho de Vitor Garcia com imagens e textos da Wikipédia

História de Portugal
Um trabalho de Vitor Garcia
(com imagens e textos da Wikipédia)


















História de Portugal
Um trabalho de Vitor Garcia
(com imagens e textos da Wikipédia)
Documento: © Vitor Garcia (2009). Direitos reservados.

M199 - SNIPER EM ACÇÃO - Efeito no corpo humano de um tiro de 50 BMG (Barret)

IMAGENS FORTES
EVITE MOSTRAR A CRIANÇAS E PESSOAS SENSÍVEIS
O local é no Chade, em África, onde um guerrilheiro sudanês, ao rastejar em direção a uma trincheira da Legião Estrangeira, com o intuito de silencia-la, levou um tiro de .50 BMG (Barret) desferido por um sniper, que lhe entrou no corpo à altura da omoplata direita.
O resultado do efeito da bala no corpo está à vista.



quarta-feira, 31 de março de 2010

M198 - Apêlo: Informação sobre O RANGER: JOSÉ MANUEL COUTINHO QUINTAS

APÊLO
AGRADECE-SE A QUEM SOUBER ALGUMA INFORMAÇÃO SOBRE:

O RANGER JOSÉ MANUEL COUTINHO QUINTAS
O Luís Faria, que esteve na Guiné com o Quintas, gostava muito de reencontrar este amigalhaço Ranger.
Após longas e infrutíferas tentativas, ao longo de anos, lembrou-se de recorrer ao blogue.

Dele lembra-se dos seguintes dados pessoais:

  • Nome: José Manuel Coutinho Quintas
  • Posto: Alferes Miliciano
  • N. MEC.: 03618768
  • Poderá ser do último curso OpEsp/RANGER de 1969
  • Foi mobilizado em: Évora - RI 16
  • Unidade: CCAÇ 2791
Em Janeiro de 1971, apanhou 5 dias agravados e saiu da Companhia, mas o Faria não sabe para onde.
Poderá ser natural e até residir em Valença.

Segundo diz o Faria é um RANGER ASSUMIDO E ORGULHOSO de o ser!
Qualquer informação sobre ele, que desde já o Luís Faria muito agradece, deve ser enviada para o seu e-mail pessoal: luis.sampaiofaria@gmail.com

terça-feira, 23 de março de 2010

M197 - Os RANGERS vistos pelo Jornal "O Primeiro de Janeiro" em reportagem de 4 de Março 1991

Reportagem sobre os OpEsp/RANGERS, publicada pelo jornal "O Primeiro de Janeiro", em reportagem de 4 de Março 1991, que nos foi enviada pelo RANGER Abílio Rodrigues






sábado, 13 de março de 2010

M196 - Iniciativas da ADFA em Lisboa: Vítimas de stress pós-traumático da Guerra do Ultramar - Rede Solidária (RANGER Luís Nabais)


Iniciativas da ADFA em Lisboa
Vítimas de stress pós-traumático da Guerra do Ultramar
Rede Solidária
(pelo RANGER Luís Nabais)


Promovendo mais uma das iniciativas da ADFA (Associação dos Deficientes da Forças Armadas), recebemos esta mensagem do nosso camarada Luís Nabais, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER, que cumpriu uja comissão militar na Guiné, na CCS/BCAÇ 2885, em Mansoa nos anos 1969 a 1971:
Camaradas,

Queria tornar público, junto dos ex-Combatentes mais vitimados pelas vicissitudes da Guerra do Ultramar, que aproveitem o que nos resta das "esmolas" que este governo, nos vai dando.

Creio que é bem explicativo.

O Porto e Coimbra também têm psicóloga e psiquiatra.

Li, porque me foi também enviado, que a Liga dos Combatentes também tem apoio, pelo que deve também ser publicitada esta iniciativa.

Nós, DFA´s, temos uma possibilidade mais rápida de, para alguns, virem a ser também considerados DFA’s, receber apoio médico gratuito (agora), e, eventualmente, uma reforma, se forem considerados como vítimas de stress de guerra.

Consultem o folheto infra-anexo.

Como sabem faço parte da Direcção da Delegação de Lisboa.

São muitos, como era de prever, os que agora (mais de 35 anos depois do fim da guerra) nos procuram, apenas para que lhes seja prestado apoio psiquiátrico, da Rede Solidária.

A viuvez de alguns, o refúgio na bebida, a vida madrasta, os revezes da vida, etc. têm feito com que muitos se tornem de tal modo marginalizados, solitários e intratáveis, que são as próprias famílias a levá-los lá, quando não os deixam ao puro abandono...

A ideia desta divulgação surgiu-me, quando fui almoçar com o pessoal do meu Batalhão, no passado dia 6 de Março, e vi o estado de degradação psíquica e física, em que se encontram alguns dos meus Camaradas.

Um abraço, e olhem… aproveitem o que ainda nos resta da Rede Solídária.


domingo, 7 de março de 2010

M195 - Agradecimentos do falecido RANGER Humberto Duarte e sua esposa Ana Duarte


A G R A D E C I M E N T O S

A Ana Duarte, esposa do RANGER Humberto Carneiro Fernandes Duarte, falecido no passado dia 28 de Fevereiro, em Lisboa, e era o SMOR mais antigo do Exército Português, até à data citada, enviou-nos hoje a seguinte mensagem:

Camaradas e Amigos do Humberto,

Queria dirigir-vos o meu Agradecimento, com estas palavras, um panfleto que anexo, da minha autoria, para oferecer aos Amigos e Camaradas do Humberto Duarte e uma mensagem que ele escreveu, numa daquelas noites em que não queria dormir, aproveitando-a para deixar mensagens a todos.

O meu OBRIGADA a todos os Camaradas que enviaram mensagens de Solidariedade, Amizade, Carinho.... tudo contribuiu para que estes dois últimos meses de vida do Ranger Humberto Duarte tivessem um pouco mais de qualidade, e, para que, ele e eu, continuássemos a sorrir apesar da difícil picada que estávamos a atravessar.

No sábado, dia 27 de Fevereiro, o último dia em que ele ainda esteve completamente consciente e por sinal até se deitar, manteve-se muito bem disposto, falou nas mensagens, anedotas, vídeos… e, conversamos, rimos…

Acabou o dia com uma frase muito dele: "Só nós, os que estivemos lá fora na Guiné, é que nos percebemos uns aos outros... bem tu também podias ter pertencido ao meu grupo de combate, por isso percebes alguma coisa".

Obrigada a todos, que depois de ele falecer, me enviaram condolências e, essencialmente àqueles, que sem sequer nos conhecerem, estiveram presentes no funeral, bem como ao Camarada que esteve presente na missa na Carregueira.

O meu muito Obrigada, mas, também o muito Obrigado do Ranger Duarte ao Exmo. Sr. Coronel António Feijó, ao Exmo. Sr. COR Sepúlveda Velloso (Comandante do C.T.O.E.) e ao Exmo. Sr. TCOR Valdemar Lima (2º Comandante do C.T.O.E.), pela prestação das Cerimónias Militares, que tanta satisfação e alegria comunicou ao Humberto quando soube, pelos Boinas Verdes Seco dos Op Esp/RANGERS de Portugal.

A todos aqueles que prometeram por várias vezes visitá-lo, e, depois, nem se quer um telefonema lhe dedicaram, ficará apenas nas suas consciências os porquês de não o terem feito.

Bem Hajam e até dia 10 de Junho, em Belém, onde, se Deus o permitir, o Ranger Humberto Duarte estará na minha memória, assim como o nosso neto João Pedro Loureiro o último afilhado (militar) e outros jovens, para que haja uma continuidade na Homenagem a todos os que morreram na Guerra do Ultramar, e àqueles que entretanto também vão partindo pelas vicissitudes desta atribulada vida terrena.


Reiterando os meus Agradecimentos,
Com os melhores cumprimentos Amigos a todos.
(Ana Duarte
)