sábado, 21 de agosto de 2010

M240 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - VIII


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233, M234, M235, M236, M237, M238, M239 e M240. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236... M237… Manuel Godinho Rebocho2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)Bissalanca/Guiné1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M234, M235, M236, M237, M238, M239 e M240:
III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES
(continuação)

3.2.1.2 – Os Pára-Quedistas na Guiné — o Batalhão n.º 12
A exactidão que se procura, mesmo quando conseguida, não implica que se tenha sido exaustivo. Nunca se é. Há que estabelecer prioridades, atribuir diferentes graus de importância, resumir acontecimentos. Procurei estabelecer o equilíbrio que me pareceu razoável, entre o que seriam pormenores excessivos e acontecimentos menos relevantes.
A presença das Tropas Pára-Quedistas na Guiné remonta ao ano de 1959, 7 anos antes da criação do BCP 12. No dia 3 de Agosto de 1959 foram desencadeadas greves pelos trabalhadores nativos do porto de Bissau; o movimento grevista foi duramente reprimido pelas autoridades portuguesas que provocaram durante a sua intervenção algumas dezenas de mortos e feridos. A situação agitou-se por toda a cidade e, uma semana depois, a 10 de Agosto, um pelotão de Pára-Quedistas foi transportado por via aérea para Bissau, de onde regressou a 20 do mesmo mês. Com esta estada de 10 dias se cumpriu a primeira missão das Tropas Pára-Quedistas na Guiné.
A partir de Janeiro de 1963 a situação na Guiné complicou-se, tanto do ponto de vista político como de segurança, o que obrigou a profundas alterações na composição e efectivos das tropas portuguesas. De Portugal começam a ser enviados homens e materiais, na tentativa de evitar o alastramento da subversão. Foi neste âmbito que, no dia 3 de Julho de 1963 chegou a Bissau um Pelotão de Pára-Quedistas, o qual teve o seu baptismo de fogo no dia 10 de Agosto, durante a execução da operação «Esquilo» que teve lugar entre os rios Grande de Buba e Sahol. Esta operação marca o início de uma longa actividade operacional que só viria a terminar com a independência da Guiné, no ano de 1974.
“A inexperiência dos militares pára-quedistas numa guerra de guerrilha que obrigava a acções de desembarque naval e progressões em terrenos extremamente difíceis, que iam desde o «tarrafo» traiçoeiro até à mata densa, foi amplamente superada pela sua voluntariedade, decisão e excelente preparação física, que lhes permitiram ultrapassar com êxito os obstáculos surgidos” (CTP, Vol. IV, 1987: 100). Os próprios Oficiais que investigaram e escreveram a história das Tropas Pára-Quedistas reconhecem o efeito da experiência, neste caso, da sua falta, e que as dificuldades foram ultrapassadas pelas qualidades pessoais, como sempre aconteceu ao longo dos 13 anos desta guerra de guerrilhas.
Em 20 de Janeiro de 1964 segue para Bissau um segundo Pelotão de boinas-verdes. E, no dia 7, do mês seguinte, ao acorrerem em auxílio do Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 7 que se encontrava em dificuldades na mata de Cachide, devido a forte ataque lançado pelo inimigo, foi mortalmente atingido o Soldado Pára-Quedista n.º 75/61 Daniel Rosa Neto, que se tornou assim, o primeiro dos 65 boinas-verdes que, ao serviço e a mando da Pátria, tombaram em terras da Guiné.
O agravamento da situação interna da Guiné exigiria então a tomada de novas e mais profundas medidas de reestruturação das FA e a reformulação do seu emprego táctico. Entre estas medidas destaca-se a criação do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas n.º 12, em 1966 (1) .
As exigências operacionais obrigaram ao envio de uma nova Companhia para reforço do quadro orgânico do BCP 12, o que aconteceu em 21 de Julho de 1970. A nova unidade, que eu integraria na qualidade de Sargento, primeiro com o posto de Furriel e depois com o de Segundo Sargento, tomou a designação de Companhia de Caçadores Pára-Quedistas n.º 123 (CCP 123) e iniciou a sua actividade operacional no dia 8 de Agosto. No próximo item descrevo as características e o funcionamento da CCP 123, como exemplo paradigmático, das Companhias desta especialidade que durante todo o tempo da Guerra de África, operaram nas três frentes de combates: Guiné, Angola e Moçambique.
No dia 13 de Outubro de 1974 e pela última vez, a Bandeira Nacional Portuguesa desceu do mastro de honra do BCP 12.
3.2.1.2.1 – A Companhia de Caçadores Pára-Quedistas n.º 123 como Exemplo Paradigmático
A actividade da CCP 123 girou muito, ou quase totalmente, em torno de dois Sargentos, um deles eu próprio. Se omitisse os nomes dos militares que, em cada momento, intervieram nos acontecimentos, a compreensão dos mesmos seria certamente menos clara. Assim, antes de considerar concluída a minha obra, enviei cópias da mesma ao Major-General Comandante da BAI, ao Major-General Sousa Bernardes, que foi Subalterno e Comandante desta mesma Companhia e ao Coronel Pires Saraiva que, como Alferes miliciano, comandou o Pelotão de combate que eu integrei, para que estes Oficiais pudessem contradizer ou desmentir, na expressão de Zimbardo & Ebesen (Zimbardo, 1973: 67), o que afirmo. O Major-General Comandante da BAI, em carta que me dirigiu, classifica o documento de moderado e “histórico”, enquanto o Major-General Sousa Bernardes e o Coronel Pires Saraiva me responderam que “os factos se passaram rigorosamente como os descreve”.
A grande característica que definia as Companhias Pára-Quedistas na Guerra de África era a sua dupla cadeia de comando: a orgânica e a das capacidades, ou a formal e a informal. A segunda cadeia de comando ordenava os militares pelo poder de influenciar as decisões.
Em Maio de 1972 iniciaram-se as rendições do pessoal da CCP 123. Embora as rendições dos Pára-Quedistas fossem individuais, o facto desta Companhia ter sido colocada na Província de uma só vez, implicou que o fim da comissão de quase todo o seu pessoal ocorresse em simultâneo. Esta simultaneidade foi sendo, no entanto, corrigida e atenuada pelas várias substituições e transferências que se foram efectuando ao longo dos dois anos anteriores.


Guiné. Pequeno país de grandes contrastes. À terra queimada do norte, contrapõem-se as áreas alagadas do sul; e as grandes bolanhas de terra limpa são geralmente envolvidas por matas densas.
Fotografias de álbum pessoal
No dia 8 de Maio de 1972 chegou ao BCP 12 um grupo de militares idos do Regimento de Caçadores Pára-Quedistas (RCP), entre os quais 5 Sargentos. Um desses Sargentos era eu que, com 22 anos, ia iniciar a minha segunda comissão em África. A primeira tinha sido em Angola, onde completara os 20 anos.
Feitas as apresentações, o Chefe da Secretaria, um Capitão Pára-Quedistas oriundo de Sargento, informou o grupo que um dos Sargentos seria colocado na Companhia 121, outro na 122 e os outros 3 na Companhia 123. O Furriel Ragageles informou que gostava de ficar na Companhia 122, porque pertencera a essa Companhia na sua anterior comissão, exprimindo eu que gostaria de ficar com o Furriel Delgadinho Rodrigues, por sermos do mesmo curso e amigos de longa data, enquanto o Primeiro Sargento Renato Dias disse gostar de ficar com “estes velhos” (2). O Furriel Marques, com as hipóteses esgotadas, manifestou a sua disposição para ficar na Companhia 121. Assim, com a máxima naturalidade, se efectuou a distribuição dos Sargentos recebendo a CCP 123, duma só vez, 3 dos bons Sargentos Pára-Quedistas que a iriam «marcar» nos dois anos que se seguiram, porque, além de bons profissionais, eram amigos.
Feita a colocação dos Sargentos da CCP 123 nos respectivos Pelotões, tarefa a cargo do Comandante de Companhia interino, o Alferes miliciano Cardoso da Silva, em fim de comissão, fui colocado no Primeiro Pelotão, a comandar a primeira Secção de onde tinha saído o Sargento Amoroso, um bom Sargento que tinha a Secção bem organizada. Os outros dois Sargentos deste Pelotão, que comandavam a segunda e terceira Secções, também em fim de comissão, eram o Miranda Henriques, um bom Sargento, e o Pacheco, já nem tanto, pelo que regressou ao Exército. O Primeiro Sargento, adjunto do Comandante de Pelotão, o Claudino, também era um bom Sargento. O Comandante do Pelotão era o já citado Cardoso da Silva. Todos estes profissionais se esforçaram para, no pouco tempo que estivemos juntos, me ensinarem o que se podia aprender. Posso mesmo afirmar que, ao chegar à Guiné, «aterrei» no meio de veteranos e bons profissionais, que além destas qualidades ainda se fizeram meus amigos.
Por muito experimentado que fosse um militar, independentemente do posto ou da função, tinha sempre muito que aprender quando chegava a uma nova zona de Guerra e, para tal, tinha que aprender com os mais velhos, mesmo de patente inferior à sua: eu aprendi muito com os «meus» Soldados, que o Amoroso, o anterior Comandante da Secção, tinha ensinado. Ao longo dos meus tempos de Guiné, sempre notei a máxima disponibilidade daqueles que sabiam mais para ensinar os que sabiam menos; no entanto, havia sempre quem não quisesse aprender. Nesta, como em qualquer outra profissão, em que o vencimento é independente do desempenho e o tempo passa para todos, há uma natural acomodação por falta de incentivos.
Havia uma lógica que pesava no raciocínio de todos e que é inimiga dos exércitos, particularmente em campanha: só se manda fazer a quem sabe. Saber fazer implicava o ser escolhido, mas a escolha era para seguir na frente, a romper mata e correr o risco do próximo combate. Os incentivos funcionavam assim, em sentido contrário ao teoricamente desejado. Aqueles em quem não se confiava passavam o tempo como os outros, com menos preocupações, com menos sacrifícios e riscos. Neste contexto, houve quem, em unidades de elite, não desse um tiro numa comissão inteira, e quem queimasse as mãos no cano da espingarda, para além de canos que se entortaram por excesso de aquecimento, motivado pelas muitas balas que dispararam em combates prolongados. Esta realidade revela o quanto a gestão de pessoal foi um monumental fracasso durante toda a Guerra de África, como o será em todas as situações em que se incentive o alheamento e o desinteresse, o que sempre acontece quando quem trabalha não se vê recompensado. Sendo assim, extrai-se uma conclusão: quanto mais alto na hierarquia mais se influencia o desempenho da unidade. Contudo, o Capitão não comandava combates, o que constituía tarefa de Sargento, logo, uma Companhia com bons Sargentos era uma boa unidade, mas podia não o ser se o Capitão não soubesse gerir as capacidades dos «seus» Sargentos, e com frequência não o sabia. Desta observação resulta que os Sargentos se avaliavam pelas suas capacidades de combate e os Capitães pela sua sabedoria em gerir a capacidade dos «seus» Sargentos.
Quanto aos Soldados verificava-se um dado estranho: tinham orgulho em pertencer à Secção do Sargento A ou B, que era bom em combate e estava «em todas», o que implicava que eles também estivessem, pois a confiança e a auto-estima tinham grande poder. O Soldado aceitava andar um dia a romper mata e a sofrer os combates por andar na frente, desde que tivesse confiança em quem o comandava, para poder dizer «eu estive lá». Temos assim, que um Capitão não fazia uma Companhia, mas podia desfazê-la. O colapso relacional, ou o conflito descontrolado, entre o Capitão e o tal Sargento (A ou B) conduzia, inevitavelmente, à queda da capacidade operacional da unidade.
Em 21 de Maio de 1972 iniciei a minha actividade operacional participando na operação “Milhafre Verde” (3) . Esta operação envolveu todo o BCP 12, sob o Comando do respectivo Comandante, Tenente-Coronel Pára-Quedista Araújo e Sá, e teve lugar na zona Norte da Província. No plano da operação dizia-se que na zona estava referenciado um corpo de Exército da guerrilha com a seguinte constituição: quatro bigrupos de Infantaria, um grupo de Artilharia, um grupo de Foguetões e um grupo de Armas Pesadas. Os Pára-Quedistas actuaram com seis bigrupos, a 50 homens cada um. O bigrupo que eu integrei era constituído pelos 1.º e 2.º Pelotões, teve como nome de código Lobo 0 e foi comandado pelo Alferes miliciano Cardoso da Silva. As tropas saíram do Porto de Bissau no dia 21 de Maio, às 12 horas e 45 minutos, embarcadas na LDM n.º 312, e chegaram a Porto Gole às 17 horas.
Porto Gole era um antigo porto fluvial, na margem direita do Canal do Geba, conhecido pelo comércio de escravos, onde estava estacionado um Pelotão do Exército, em posição de quadrícula, numa antiga casa senhorial, que deixava antever alguma riqueza de outros tempos, antes da Guerra. Uma longa alameda de palmeiras, perpendicular ao rio, separava as muitas palhotas que se erguiam de ambos os lados.
Do plano da operação constavam, ainda, algumas notas sobre diversas informações, entre elas que o Sol nascia às 5 horas e 37 minutos e tinha o seu ocaso às 18 horas e 21 minutos. Estas informações eram de extrema utilidade para o Comandante da operação poder estimar as horas a que havia de mandar jantar e aproximar-se do local de dormida, bem como para os Sargentos controlarem os horários das vigias nocturnas.
O Agrupamento saiu de Porto Gole, a coberto da escuridão, caminhou toda a noite e, de madrugada, atingiu a zona RUTE. Este nome de mulher era tão-somente um código que delimitava uma zona no terreno, devidamente assinalada nas cartas que cada graduado levava consigo. Para melhor se compreender, direi que o Agrupamento Leão 0 tinha à sua responsabilidade a zona ANA; Leão 5 a zona GLÓRIA; Onça 0 a zona ROSA; e Onça 5 a zona MARIA. O Agrupamento Lobo 5 ficou de reserva em Mansoa. Os Agrupamentos ou bigrupos partiram de pontos muito distantes uns dos outros: uns foram a pé, outros colocados de viatura e outros de helicóptero.
A diversidade de colocações tinha como objectivo confundir o inimigo. Os grupos iam actuar muito perto uns dos outros, pelo que a demarcação das zonas era uma necessidade para que os grupos não se encontrassem, ou que o fogo de um não atingisse os outros. Neste sentido, sempre que alguém fizesse fogo tinha que informar a sua posição e todos os grupos em cadeia rádio tomavam conhecimento e tentavam, eventualmente, surpreender o inimigo, numa possível fuga dessa posição. Foi uma operação com alguma complexidade e exigiu rigor na sua execução.
A mata era de arvoredo disperso, com um capim rasteiro que não ia além dos joelhos. A temperatura subia bem para além dos 40.º C; a operação tinha a duração de três dias. A água que cada homem levava estava condicionada pelo peso da carga total que cada um suportava, em que o fundamental era o armamento, as balas e as granadas. A água ficou assim limitada a dois cantis de um litro cada. A comida consistia numas latas de conserva e numas carcaças; não era pouca, nem se levou toda, e parte da que se levou sobrou: tínhamos então dois litros de água para três dias, com temperaturas superiores a 40.º C e a caminhar todo o dia. Fôramos informados de que, em caso algum, haveria reabastecimento de água ou reforço de munições — a única hipótese de apoio aéreo seria para evacuações. A pobreza das nossas forças impunha estas limitações.

O meu baptismo operacional na Guiné afigurava-se difícil. Os meus camaradas Sargentos disseram-me antes de partirmos: “a tua Secção vai sempre a meio da coluna”. No momento da partida e enquanto se ia formando a coluna, os Cabos disseram-me: “o meu Furriel segue no meio de nós os dois”. E assim foi, pelo menos durante a noite, em que tudo me parecia suavemente estranho. Na cerrada escuridão e em silêncio, interrogava-me: «como é que esta gente não se perde se não se vê nem onde se põem os pés»? Senti que, com uma formação técnico-táctica de ano e meio, não sabia nada, mas aquela gente sabia e estava disposta a ensinar-me: era a sua experiência. Tinha que aprender rápido porque eles estavam a acabar a comissão.
No final do patrulhamento e já junto a Porto Gole, numa zona de segurança, os Pára-Quedistas descansam para poderem entrar no Aquartelamento do Exército em condições de melhor apresentação.
Fotografia de álbum pessoal
Em 2 de Junho de 1972, a Companhia, ainda sob o comando do Alferes Silva, parte para a cidade de Teixeira Pinto, no Norte da Província, no chamado «Chão Manjaco». O Comandante deste Sector Operacional era o Coronel Pára-Quedista Rafael Ferreira Durão, que eu já conhecia de Angola, onde ele era Comandante de Batalhão quando eu lá estivera na minha anterior comissão. Durão, de nome e de feitio, já tinha “pacificado o chão Manjaco”, como ele próprio me afirmou num dos vários contactos que mantivemos, no âmbito da presente investigação.
Com a situação efectivamente pacificada, a Companhia não teve qualquer acção de fogo durante os dois meses que ali permaneceu. Tudo o que aconteceu de relevo foi interno da vida da Companhia. No entanto, e embora com a situação calma, no que à guerra dizia respeito, a actividade de patrulhamento da mata era permanente, de dia e de noite, o que se tornou cansativo, mas que utilizei para aprender, com o Alferes Silva, as regras de orientação e a leitura e interpretação das cartas militares e dos sinais da mata.
No dia 7 de Junho apresentou-se o Comandante de Companhia, regressado de férias, o Capitão miliciano Pára-Quedista Henrique Morais da Silva Caldas, um homem que se relacionava muito mal com os Sargentos e de quem ninguém gostava. Os Primeiros Sargentos eram todos casados e, à excepção do Renato Dias, tinham as mulheres e os filhos em Bissau, sendo natural que, pelo menos uma vez, durante os dois meses de estadia em Teixeira Pinto, viessem ver a família, mas Silva Caldas não o permitia, o que provocava um mau relacionamento interno da Companhia.
O tempo era muito preenchido, quem não estivesse na mata tinha que se sujeitar a várias formaturas diárias, para além de uma sessão de ginástica e corrida matinal, que o Capitão sistematicamente dirigia. Estas sessões não agradavam a ninguém, a não ser ao Capitão, que nunca ia aos patrulhamentos, pelo que o nível de cansaço entre ele e o restante pessoal era consideravelmente diferente. Eram ainda os Primeiros Sargentos, que todos os dias havia um que estava doente, quem pedia dispensa da ginástica matinal, a que Silva Caldas nunca acedeu, estivesse o requerente ou não doente.
O mau ambiente era atenuado pelo Segundo Sargento Silva Bento o qual, como responsável pela alimentação da Companhia, formara uma equipa de caçadores, e caça não faltava na zona, que caçavam codornizes com as quais Silva Bento preparava, em dias alternados, maravilhosos petiscos para, depois da ginástica, todos os graduados comerem. Os petiscos de codornizes eram alternados com miudezas de vaca, que o responsável pela alimentação comprava vivas e mandava matar, para alimento do pessoal. Havia assim, um petisco todos os dias. O Renato Dias, que tinha jeito para o petisco e para o negócio, comprava sacos de ostras ou de camarão, a 200 pesos, cada um, cerda de 75 cêntimos, e preparava nova sessão de petiscos para a tarde. À noite havia sessões de cartas ou fados. Havia sempre quem cantasse e o Capitão tocava viola, por sinal muito bem.
Recuando uns dias. Quando cheguei a Bissau investiguei as hipóteses que tinha de estudar para poder terminar o ensino liceal e concluí que poderia efectuar exames de 3 em 3 meses, ao abrigo de uma lei militar então em vigor. Antes de seguir para Teixeira Pinto, efectuei a necessária matrícula no Liceu de Bissau e acordei com a equipa de transmissões do Batalhão para que eles averiguassem as datas dos exames e as transmitissem, via rádio militar, para a minha Companhia. Estes rapazes exerceram com extremo zelo, o que agradeço, durante os mais de dois anos em que a situação se verificou, um absoluto controlo sobre as datas que sempre transmitiram para os locais onde me encontrava, com a necessária autorização do comando, que sempre assinava as mensagens.
Num sábado de fins de Junho, fui informado que tinha exame na manhã da Segunda-feira seguinte. Como ia para a mata nesse Sábado, regressando na manhã seguinte, e ao Domingo não havia avião de Bissau a Teixeira Pinto, perdia-se a minha primeira oportunidade de exame. Quando, nesse Domingo, cheguei a Teixeira Pinto, o Capitão disse-me: “entregue a arma e o equipamento a um Soldado e corra para a pista, que está a chegar um avião para o vir buscar, e boa sorte no exame”. Não respondi, porque o acelerar dos motores do avião, que se fazia à pista, me não deram tempo. Segui para Bissau. Fiz o exame e regressei, de avião, na Terça-feira seguinte, partindo de novo para a mata na Quarta-feira.
Perguntei posteriormente a Silva Caldas o que havia motivado a vinda do avião ao Domingo, ao que este me respondeu: “informei o nosso Coronel Durão que você tinha que ir a Bissau fazer o exame e ele mandou vir o avião”. Conhecia Durão o suficiente para saber que não era só isso. Membro duma tradicional família de militares, este Coronel tinha tanto de exigente como de humano, dele se contando muitas histórias, entre as quais que mandou prender o seu Segundo Comandante em Angola por ter chamado ladrão a um Sargento. Mas a sua principal característica era a de dividir os graduados por capacidades e valores, constituindo duas escalas de três níveis, uma para Oficiais e outra para Sargentos. O avião ao Domingo era esclarecedor da minha posição nessa escala. Uma outra particularidade, da qual só tive conhecimento, quando recentemente entrevistei o Tenente-Coronel Pára-Quedista Ângelo Mendes da Silva e Sousa, era a de que os Comandantes de Batalhão efectuavam uma estatística sobre os Sargentos que comandavam Secções de combate, para assim os avaliarem continuamente. Esta avaliação, tão secreta, que nenhum Sargento a conhecia e eu só tomei conhecimento dela 30 anos depois e por uma questão lateral, é inequivocamente reveladora para a presente investigação, quanto ao facto que todos sabiam que os êxitos militares dos Pára-Quedistas estavam centrados nos Sargentos que comandavam as Secções.
A mulher do 1.º Sargento Tiago, que estava em Bissau, adoeceu e este, naturalmente, quis ir a Bissau, o que não lhe foi autorizado; a do 1.º Sargento Guimarães chegava a Bissau, vinda da Metrópole, mas este também não foi autorizado a ir a Bissau recebê-la. O ambiente era mau. Eu regresso mais uma vez da mata e, no início de mais um almoço, o Capitão afirmou (os graduados tomavam as refeições todos juntos): “hoje quem paga as bebidas é o Rebocho”. Ninguém percebeu, nem fez qualquer comentário. Após eu ter procedido ao pagamento, o Capitão esclareceu: “o Rebocho passou no exame e dispensou da oral”. No dia seguinte segui de novo de avião para Bissau para comprar os livros com os quais me havia de preparar para o próximo exame. Rotina que se manteve durante toda a minha comissão, o que fez de mim o graduado com mais privilégios de todo o Batalhão. Mas as contrapartidas que paguei, em desempenho operacional, foram bem caras. No plano dos estudos concluí o então 5.º ano do Liceu. Estudos estes que iniciei já na Guiné.
O mínimo que se pode considerar foi que a hierarquia Pára-Quedista e da Força Aérea me proporcionou todas as condições e todos os apoios para eu ingressar na Academia Militar e desenvolver a minha carreira como Oficial. Porém, a Guerra de África acabou, e ainda bem, pelo que me resta a resignação de enfrentar o problema das FA, quanto à incapacidade orgânica de integrar os seus melhores operacionais.

NOTAS do texto:

(1) Portaria n.º 22260, de 20 de Outubro de 1966 (OE, 1966).

(2) Renato da Silva Dias, um portista de nascimento e devoção, tratava assim os amigos e já se tinha apercebido, dos convívios em Tancos, que ali havia «gente».

(3) Como fontes sigo o plano da operação e o respectivo relatório, cujos originais se encontram na ETAT e, especialmente para a presente obra me foram facultados, as entrevistas e os meus apontamentos pessoais apoiados pela memória.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados


A meio do segundo dia, disse aos meus camaradas Sargentos: “agora vai a minha Secção para a frente”, — o que aconteceu contra a sua vontade mas com o apoio dos Cabos, que consideraram engraçada a minha insistência ao fim de tão pouco tempo em operação. Pouco depois dei a minha primeira ordem, quando um casal de jovens nativos saiu detrás de uns arbustos fugindo atrapalhadamente, correndo paralelamente à coluna. Os Pára-Quedistas sempre tiveram uma grande disciplina de fogo e ninguém o iniciava, a não ser numa situação de perigo ou à ordem. Naquele momento, os dois militares que seguiam à minha frente olharam-me como a pedir instruções e eu disse em voz alta: “deixem ir o casalinho”. A resposta à minha ordem não tardou e com ela uma lição — éramos atacados à retaguarda, o que significava que o casalinho nos tinha denunciado aos Guerrilheiros, ou seja, os dois jovens eram agentes activos da Guerra ou, pelo menos, foram-no naquele momento. A dificuldade de saber quem era ou não o inimigo constituía um obstáculo sério que não se via como o resolver, pelo menos como o resolver em termos de guerra. No entanto, nem tive problemas de consciência, nem ninguém criticou a minha benevolência porque, quando os Guerrilheiros nos atacaram estávamos a descansar, logo parados, e como eles estavam a seguir-nos o rasto, acabaram por «encostar» o nariz às nossas armas, do que por certo se teriam arrependido se tivessem tido tempo para isso.
No último dia de operação, com a tropa cansada, com fome e sem água, o Alferes mandou parar a coluna dizendo-nos: “esperem aí um bocadinho que eu vou ali à frente para me orientar melhor”. Estranhei a atitude e disse-lhe que ia com ele, o que recusou, aconselhando antes que aproveitasse para descansar um pouco. Percebi que o Alferes não era doido, nem estava a arriscar nada, apenas que sabia «ler a mata», para o que não há técnica que se aprenda nas Academias, mas apenas conhecimento decorrente da experiência. Aprendi, com ele e com o tempo, que a mata tem uma escrita que só se aprende lendo muito.
Ao chegarmos a Porto Gole, a meio da tarde do último dia da operação, o Comandante do Destacamento do Exército, um Alferes miliciano, mandou assar umas sardinhas, que tinham vindo na Lancha, de Bissau. Sardinha «puxa» sardinha, comemos tudo o que era suposto ser o almoço do Destacamento do Exército para o dia seguinte e, por mais que insistíssemos, ninguém do Exército provou qualquer sardinha.
Estas guerras não têm técnica de execução, mas desembaraço; só se aprende, vivendo-se. E o maior factor é o humano, quem o souber usar tem tudo, quem o não souber usar, também tem tudo... mas em falta. No entanto, já não penso da mesma forma quanto aos Altos Comandos e Comandos Superiores, para os quais os conhecimentos estratégicos e tácticos são relevantes e podem ser decisivos.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

M239 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - VII


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233, M234, M235, M236, M237 e M238. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236... M237…

Manuel Godinho Rebocho
2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.
Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M234, M235, M236, M237, M238 e M239:

III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES

(continuação)

3.2 – As Tropas de Elite

As tropas de elite que actuaram na Guerra de África eram constituídas pelos Pára-Quedistas, pelos Fuzileiros Especiais e pelos Comandos. Estas tropas tinham os seus quartéis nas principais cidades, de onde partiam para Destacamentos do Exército colocados em quadrícula e onde permaneciam por períodos mais ou menos longos, conforme a perigosidade da situação que tivesse motivado o seu deslocamento e, ainda, em função da estratégia superior. Era fundamentalmente destes Destacamentos que as tropas de elite partiam para as suas operações na mata. No entanto, situações houve em que as tropas partiam directamente das suas unidades para a mata, embora o mais vulgar fosse uma estadia intercalar nos Destacamentos de quadrícula.
O número de tropas de elite foi sempre muito limitado, razão pela qual os Altos Comandos evoluíram para a criação de uma situação intermédia, entre a quadrícula e a elite, com o destacamento de unidades de recrutamento e formação normais para as funções de intervenção. Com mais esta entidade na estrutura da Guerra, reservavam-se as tropas de elite para intervir nas situações em que o conflito se apresentasse com maior gravidade, face à disposição do inimigo e dos interesses estratégicos, políticos, sociais e/ou económicos. Nestes moldes, as áreas que já não dependendo das unidades de quadrícula e não justificavam a intervenção das tropas de elite, reservaram-se para actuação das tropas de intervenção.
Convém, aqui, intercalar uma ideia: as tropas de elite eram tropas de intervenção, mas também havia tropas de intervenção que não eram de elite; desde logo, as suas utilizações reservavam-se para momentos e locais onde o perigo fosse mais moderado. Era uma utilização de forças num sistema ponderado, caso a caso.
Se, como disse, actuaram na Guerra de África três formações de elite, cada uma integrando um dos ramos das Forças Armadas: os Pára-Quedistas, a Força Aérea; os Fuzileiros Especiais, a Marinha; e os Comandos, o Exército, o certo é que a sua doutrina de actuação não estava dependente da formação técnico-táctica que possuíam, mas da doutrina geral da execução da Guerra. No entanto, as operações em que actuavam estavam dependentes e eram condicionadas pelo ramo a que pertenciam. Por exemplo, para uma emergência ou operação motivada por um qualquer movimento detectado ou suspeito do inimigo, em que a intervenção das tropas fosse urgente, actuavam sempre os Pára-Quedistas, pela dupla razão de a respectiva unidade ser junto das bases onde estavam os helicópteros e de os Comandos da Força Aérea darem ordens directas às duas entidades: Pilotos e Pára-Quedistas.
Este tipo de actuação, motivado mais pela organização e estrutura militar, do que pela formação e recrutamento do pessoal, que era em tudo idêntico para as três tropas, voluntariado e selectivo, determinou que as tropas Pára-Quedistas tivessem, ou melhor, fossem obrigadas a ter, um nível de prontidão diferente pela urgência com que muitas vezes eram confrontadas. Por exemplo, e é apenas um caso paradigmático entre muitos outros: na madrugada do dia 3 de Janeiro de 1974, caiu um helicóptero, por avaria, a Norte de Mansoa, na Guiné, e aconteceu de madrugada porque os meios aéreos voavam com limitações, devido a ataques a partir do solo. Dado o alerta, seguiram para o local em três helicópteros, os únicos disponíveis, 15 Pára-Quedistas que tiveram apenas por instrução, que o Comandante, obviamente um Sargento, recebeu em corrida, “corram que caiu um helicóptero”.
Os Pára-Quedistas chegaram ao local primeiro do que os Guerrilheiros, que tinham uma base por perto, salvando-se o aparelho, depois de ali mesmo reparado. Assim se evitou a natural especulação política e militar, pois se os Guerrilheiros tivessem chegado primeiro ao aparelho, por certo o teriam destruído e, naturalmente, reivindicado o seu abate. Reivindicação que provocaria naturais consequências para o moral das tropas em geral, que passavam a considerar-se ainda mais isoladas, pela dificuldade de movimento dos helicópteros para acções de evacuação, como era o caso naquele dia.
A prontidão e a confiança, mercê duma rotina que progressivamente se consolidou, incorporou-se na disciplina, consubstanciada na lógica de «as ordens não se discutem» e, por mais estranho que possa parecer, tinha que ser assim mesmo, pois avultadas explicações a par da ordem, teriam por consequência a nulidade da acção. Nem sempre seria assim certamente, nem sempre as acções eram urgentes, contudo, o facto dos Pára-Quedistas serem poucos, executarem repetidas comissões e, quando na Metrópole, estarem sempre na mesma unidade e formarem os homens ao lado de quem haviam de combater na comissão seguinte, tornou esta lógica da prontidão e de aceitar as ordens sem as apreciar, uma situação natural, como sempre se terá que verificar em tropas de elite. A eficiência caminha sempre ao lado da prontidão.
Por estas razões, que não são alheias às várias perturbações que os Pára-Quedistas protagonizaram nos «pós marcelismo» e, também por estas mesmas perturbações, as tropas Pára-Quedistas são as que melhor representam e exemplificam as tropas de elite. A citada verificação e o facto de ter integrado estas tropas, possibilitando a sua descrição e análise nos termos da técnica de “participação-observação”, que se assume como executada no tempo em que ocorreram os factos que descrevo, justificam que siga estas tropas como exemplo das tropas de elite que actuaram na Guerra de África.
3.2.1 – As Tropas Pára-Quedistas
O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a assinatura da nossa adesão à NATO em 1949 e as movimentações que se desenvolviam por toda a África, no sentido das independências dos povos deste continente, quase todo ainda colonizado, motivaram o Governo português a modernizar as FA o que, dizia-se, era uma medida no âmbito dos acordos internacionais mas, com as nossas Províncias Ultramarinas no pensamento. Na linha deste propósito seguiram para França, em 1951, dois Oficiais do Exército que, aceitando um convite do respectivo Ministério, iriam lançar as sementes do Pára-Quedismo militar português: respectivamente, os Capitães Armindo Martins Videira e Mário de Brito Monteiro Robalo. Dois anos mais tarde seguiu, também para França, o Aspirante Fausto Pereira Marques com idêntico objectivo.
Em 1955, Kaúlza de Arriaga foi designado como Subsecretário de Estado da Aeronáutica, a quem competia o desenvolvimento da Força Aérea.
As Tropas Pára-Quedistas foram, então, criadas por Decreto-Lei (1) , cujo artigo 2.º determina: “Na dependência do Subsecretariado de Estado da Aeronáutica, em ligação com o Ministério do Exército, é desde já organizado, junto de uma das bases aéreas, um centro de formação e treino de caçadores pára-quedistas, integrando as unidades de tropas da mesma especialidade cuja constituição for determinada pelas circunstâncias.”
Este Decreto-Lei é regulamentado por Portaria (2) , cujo artigo 1.º determina: “Em 1 de Janeiro de 1956 será constituído, (...) um batalhão de caçadores pára-quedistas...”. Assina o Subsecretário de Estado da Aeronáutica, Kaúlza Oliveira de Arriaga.
Sobre a criação dos Pára-Quedistas, escreveu o General Kaúlza de Arriaga: “A criação das Tropas Pára-quedistas, necessariamente com carácter de corpo de forças especiais, de pequenos efectivos, mas altamente preparadas e gozando de alguns privilégios, mantendo-se muito maiores efectivos de forças normais, com menor preparação e menores regalias, trouxe o dilema referido no primeiro plano da controvérsia. Sobretudo no Exército defendia-se o critério das massas indiferenciadas, o que fez com que várias tentativas de viabilização de forças suas especiais, como os sapadores de assalto e os caçadores especiais, tivessem abortado rapidamente. Na Força Aérea, as forças especiais não causaram qualquer perturbação.
Era o dilema das massas indiferenciadas e das elites apuradas.” (CTP, Vol. III, 1986: 31).
Nos primeiros tempos, o pessoal militar destinado às Tropas Pára-Quedistas era recrutado, essencialmente, no Exército.
Em 1958 seguiu para a Argélia um grupo de Oficiais Pára-Quedistas chefiado pelo Major Martins Videira e de que faziam ainda parte o Major Alcino Ribeiro, o Capitão Rafael Durão e o Tenente Marques da Costa. O grupo partiu de Tancos a 27 de Abril e regressou a 13 de Maio de 1958. Segundo o Major-General Rafael Ferreira Durão, durante a sua permanência na Argélia, os citados Oficiais tiveram oportunidade de contactar com unidades das Tropas Pára-Quedistas francesas em operações naquele território (3) .
Em 1960 um grupo de cinco Pára-Quedistas constituído pelos Tenentes Araújo e Sá e Silva e Sousa, pelos Sargentos João de Bessa e Gonçalves de Campos e pelo Primeiro-Cabo Vítor Dias, partiram para GIBPOM (Grupo de Instrução da Brigada Pára-quedista de Além Mar) em Bayonne, França, onde, de 6 de Julho a 20 de Agosto, tomaram contacto com as técnicas da guerra subversiva e acções de contra-guerrilha que as Tropas Pára-Quedistas francesas estavam a usar na guerra argelina, tendo ainda feito uma curta visita a Arzem, na Argélia.
Foram estes homens, os responsáveis pela organização e direcção de instrução de contra-guerrilha nas tropas Pára-Quedistas (4) ; a partir de Maio de 1961, todos os militares que terminavam os cursos de pára-quedistas eram submetidos a um longo período de instrução de combate, dirigido especificamente para enfrentar a guerra de guerrilha nos então territórios ultramarinos portugueses.
Em Janeiro de 1961, com os responsáveis militares à espera da Guerra e, para fazer face às necessidades mais prementes de pessoal, o Subsecretário de Estado da Aeronáutica exarou o seguinte despacho:
“1. A partir de 1 de Janeiro de 1961, o quadro de sargentos e praças pára-quedistas deve considerar-se como sendo o seguinte: 10 primeiros-sargentos, 130 segundos sargentos ou furriéis, 150 primeiros-cabos e 1100 segundos-cabos e soldados.
Em face do constante em 1, devem realizar-se as correspondentes promoções.
Se não houver pessoal em quantidade bastante com as necessárias condições de promoção deve o mesmo ser convenientemente preparado.” (entrevista com Silva e Sousa).
As facilidades nas promoções, que já se faziam sentir ao nível dos Oficiais, verificam-se também neste despacho relativamente aos Sargentos e determinaram assim as condições para que os Primeiros-Cabos ascendessem a Furriel. Com este despacho, ou pelo menos a partir dele, criaram-se as condições para que nestas Tropas se formassem Cabos e Sargentos, em condições específicas, adoptando as metodologias acabadas de trazer da Argélia, cedidas pelos Pára-Quedistas franceses que, nessa guerra, testavam o resultado das suas técnicas de formação. O novo procedimento de formação, inovador e nunca seguido pelo Exército, veio a criar a fantástica classe de Sargentos Pára-Quedistas, que determinou o desempenho militar deste corpo ao longo de toda a Guerra de África.
No todo português de então, Metrópole e Províncias Ultramarinas, constituíram-se sucessivamente cinco batalhões operacionais. O Batalhão n.º 11, em Tancos, junto do Regimento, formando a uma ou duas companhias, conforme os efectivos de momento, pois passavam por este batalhão todos os Pára-Quedistas que estavam em condições de partir para as Províncias do Ultramar ou delas tinha regressado, era assim, uma unidade com elevada carga administrativa; o Batalhão n.º 12, em Bissau, formando a três companhias operacionais; o Batalhão n.º 21, em Luanda, formando a três companhias operacionais; o Batalhão n.º 31, na cidade da Beira; e o Batalhão n.º 32, na cidade de Nacala. Estes dois batalhões formavam a duas companhias cada um. Do somatório resulta que existiam dez companhias de Pára-Quedistas em actividade operacional na Guerra de África. Cada Batalhão tinha ainda uma Companhia de Serviços.
Todas as Companhias operacionais formavam a quatro Pelotões e, cada um destes, a três Secções. A Companhia era comandada por um Capitão, cada Pelotão era comandado por um Alferes e cada Secção por um Sargento. Era frequente haver mais um Sargento, em cada Pelotão, que funcionava como adjunto do respectivo Alferes, neste caso, era sempre o Sargento mais antigo dos quatro. Cada Secção tinha cerca de doze Praças, entre as quais dois a três Primeiros-Cabos. Os Batalhões eram comandados por um Tenente-Coronel, com um Major como Segundo Comandante e um outro Major como chefe de operações/informações. Este bloco operacional era apoiado por diversos serviços, que aqui se não apreciarão por os considerar irrelevantes para os propósitos em curso.
Do que fica dito, conclui-se que um Batalhão a três Companhias, como era o caso da Guiné, comportava com relevância operacional um Tenente-Coronel, dois Majores, três capitães, doze Alferes, quarenta e oito Sargentos e cerca de quatrocentos e cinquenta Praças, das quais setenta e dois Primeiros-Cabos.
3.2.1.1 – Opiniões de Elites Militares Conceituadas
Procurei recolher algumas descrições de militares que desempenharam as suas funções com reconhecido mérito, para que das mesmas poder obter confirmação ou infirmação das diversas opiniões favoráveis que desenvolvo sobre as Tropas Pára-Quedistas, pois, como as integrei, poderia ficar a impressão de que teria efectuado uma descrição excessivamente favorável. Não procurei colher as opiniões directamente para, mais uma vez, obter distanciamento face às respostas. Com efeito, recolhi os depoimentos que transcrevo de publicações nas quais não tive qualquer participação. De todas estas opiniões, se colhe a noção da relevância da componente humana na qualidade do desempenho, aspecto nuclear do presente estudo. Seguem-se os depoimentos em transcrição do Marechal Spínola, do General Diogo Neto, do Tenente-General Bethencourt Rodrigues e do Major-General Pára-Quedista François Martins.
a) Marechal Spínola
“Para quem exerceu o cargo de Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné durante cinco anos em guerra e ali viveu intensamente a actividade operacional, é gratificante rememorar a passagem por aquele teatro de operações do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas n.º 12 e praticar o acto de Justiça de exarar na sua História esta breve homenagem do seu brilhante comportamento em campanha.
Dotado de características próprias, aliás, comuns a todas as unidades pára-quedistas, que lhe advieram da formação do seu pessoal na prática do paraquedismo, de que se destacam o culto da coragem e o perfeito autodomínio em situações de perigo, características revalorizadas por uma excelente preparação técnica orientada para a actuação ofensiva na contra-guerrilha, o Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas foi, por sistema, empenhado em situações particularmente espinhosas.
Muitas vezes operando em conjunto, com forças de intervenção de Comando-Chefe, teve ocasião de actuar em pleno rendimento de todas as suas capacidades, obtendo resultados espectaculares. Outras vezes as suas Companhias de Caçadores Pára-Quedistas foram atribuídas de reforço a Comandos Operacionais do Exército, tendo em vista solucionar situações pontuais graves ou dinamizar a actividade operacional dessas zonas com o exemplo da sua agressividade.
Daqui resultou a atribuição ao Batalhão de Pára-quedistas das mais variadas, duras e delicadas missões, que sempre cumpriu com apurada técnica, alto espírito de missão e elevado cunho ofensivo. No desempenho dessas missões o Batalhão ganhou o direito de ser justamente classificado como unidade de elite dotada de excelente espírito de corpo e de alto nível de preparação com valorosa actuação em combate no Teatro de Operação da Guiné, onde obteve sucessos que abalaram de forma sensível a organização do inimigo.
Em termos de conduta de combate, nas inúmeras acções levadas a efeito pelo Batalhão e suas Companhias quando destacadas, todos os seus quadros e soldados demonstraram possuir além da elevada coragem e valentia inerentes à sua formação, qualidades de abnegação, sacrifício e espírito de adaptação a todas as situações, num conjunto homogéneo de virtudes e qualidades militares a justificar as muitas condecorações de guerra concedidas ao seu pessoal, que muito honrou, em terras da Guiné, o corpo de Tropas Pára-quedistas a que pertencia, a Força Aérea e as tradições gloriosas das Forças Armadas Portuguesas” (CTP, Vol. IV, 1987: 29).
Spínola, com a autoridade que lhe assistia, confirma, em absoluto, o que afirmo nos sub-capítulos seguintes quanto à capacidade de actuação dos Pára-Quedistas na Guiné. Destaca como características destes homens a coragem, valentia, autodomínio, agressividade, espírito de missão, espírito de corpo, abnegação, sacrifício e espírito de adaptação, e reconhece que estas características eram valorizadas por uma excelente preparação técnica.
Com a sua longa experiência empírica, Spínola acompanha todo o raciocínio que venho desenvolvendo isto é, para ser um bom combatente, o homem tem que possuir de forma inata um conjunto de características que o Marechal citou, sem a preocupação de ser exaustivo. Contudo, estas características podem e devem ser aperfeiçoadas e dirigidas para um fim. Foi o que aconteceu com estas tropas, que acompanharam o sistema de selecção seguido para os Pára-Quedistas franceses e o sistema de formação meio híbrido, em que foram conjugadas as formações francesa e americana, segundo Silva e Sousa (em entrevista).
Já me referi à ida de Oficiais Pára-Quedistas a França e à Argélia, mas outros dois Oficiais, actualmente Coronéis na reforma, Sigfredo Ventura da Costa Campos e Argentino Urbano Seixas, deslocaram-se ao Brasil onde Oficiais Americanos ministravam cursos a Pára-Quedistas.
Foi do saber aprender e conciliar, o que tinham de melhor estas duas escolas de formação militar, que resultou a qualidade operacional das tropas Pára-Quedistas: a escola francesa, no campo operacional, e a escola americana em matéria de pára-quedismo.

b) General Diogo Neto (5)
“Na Guiné, o BCP 12 bateu-se com galhardia contra o PAIGC, bem armado e treinado por oficiais cubanos, alcançando resultados considerados excelentes em contraguerrilha, expressos nas elevadas baixas causadas ao inimigo e no volume de armas e munições capturadas e destruídas.
Em operações como, por exemplo Ciclone II, Titão, a longa série de acções da Júpiter sobre o famoso corredor de Guileje, Dinossauro Preto (Agosto 73) e Jove em que é feito prisioneiro o capitão-comandante Pedro Rodriguez Peralta, ilustram a tenacidade e o espírito de missão dos Pára-quedistas empenhados na Guiné numa luta de vida ou de morte, com especial relevo para os assaltos helitransportados contra posições defendidas por metralhadoras pesadas anti-aéreas de 12.7 e 14.5 mm.
Como comandante da ZACVG, (Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné) de Setembro de 1968 a Agosto de 1970, tive oportunidade de constatar a eficiência operacional do BCP 12 perante um inimigo fortemente armado e protegido por áreas densamente arborizadas onde a progressão se processava em condições desfavoráveis para os nossos soldados. (...)
Na base da brilhante e valorosa acção em operações dos Pára-quedistas em África estão a preparação militar, capacidade de comando, disciplina debaixo de fogo, determinação, espírito de decisão e coragem, qualidades que lhes permitiram resolver as mais difíceis situações surgidas ao longo dos 14 anos de guerra, sendo a sua presença decisiva na manutenção da soberania nacional em Angola, Guiné e Moçambique. Tendo sido os primeiros a chegar em 1961, são os últimos a sair de África, garantindo até ao último momento a segurança dos responsáveis pelo definitivo arrear da Bandeira...” (CTP, Vol. IV, 1987: 37 a 39).
Diogo Neto, o mais prestigiado Piloto Aviador durante a Guerra de África, justifica a capacidade operacional dos Pára-Quedistas nas suas qualidades pessoais, as quais especifica como sendo a “capacidade de comando, disciplina debaixo de fogo, determinação, espírito de decisão e coragem”. Para Diogo Neto, neste tipo de guerra, as qualidades pessoais e humanas constituem o factor determinante do comportamento em combate.
c) Tenente-General Bethencourt Rodrigues
“As «tropas especiais», quando realmente o são, para o que - embora indispensável - não chega a designação, nem a preparação, nem o equipamento, têm valor inestimável para um comandante de tropas em campanha.
É a sua permanente disponibilidade, é a adopção dos processos tácticos mais adequados a cada situação, é o espírito ofensivo, é a firme vontade de cumprimento da missão, é a resistência física e capacidade de sobrevivência nas condições mais adversas, é a imunidade à surpresa pelo inimigo, é a força da determinação, a robustez psicológica, o destemor.
É ainda a eficiência e a solidez da organização do comando e do apoio quando as unidades entram em acção.
E é, finalmente, o estabelecimento claro e inequívoco de uma corrente de confiança entre a tropa especial e o comando superior, que permite ao comandante daquela tropa interpretar com justeza e lucidez o espírito do conceito operacional do comandante de quem depende e o verdadeiro objectivo na base da sua ideia de manobra - para deduzir o sentido profundo da missão atribuída e decidida e ousadamente aproveitar o grau de liberdade de acção que lhe é concedido.
Na Zona Militar Leste de Angola, de 1971 a 1973, e na Guiné em 1973 e 1974, tive sob o meu comando, em operações, unidades pára-quedistas.
Quer integrando-se no desenvolvimento metódico do plano de operações do comando do escalão superior, como empenhando-se para resolver situações críticas, em acções cujo factor primordial é a rapidez de intervenção e o pronto discernimento do melhor processo de actuação, sempre aquelas Unidades de Pára-Quedistas se bateram como verdadeiras tropas especiais, na exuberante plenitude da acepção que dou a este qualificativo” (CTP, Vol. IV, 1987: 33).
Tal como o General Diogo Neto, também o General Bethencourt Rodrigues coloca o acento tónico nas capacidades pessoais dos combatentes, as quais especifica, dizendo mesmo “não chega a designação, nem a preparação, nem o equipamento”. A preparação é importante, mas sempre como factor secundário, que só é verdadeiramente eficaz perante capacidades relevantes do foro psicofisiológico.
Bethencourt Rodrigues do «alto da sua experiência e superior competência», que o conduziu à prisão e passagem à reforma compulsiva após o 25 de Abril de 1974, destaca ainda a qualidade de comando em combate, que era função de Sargento. E foi esta função e este desempenho que constituiu o maior problema pós Guerra de África. As Forças Armadas não têm, como nunca tiveram, capacidade orgânica para incorporar os seus melhores membros quando chega a paz. Abril não foi excepção: prendeu-os, expulsou-os, difamou-os. Liquidou-os.
d) Major-General Pára-Quedista François Martins
“Se alguém me pedisse para resumir numa curta frase o essencial da vida dos militares pára-quedistas em África, eu proferiria três palavras: sacrifício, abnegação, coragem.
Estas três palavras não esgotam, naturalmente, nem pretenderiam esgotar, o leque dos adjectivos que poderiam caracterizar actividades tão diversas, e tão diferentemente praticadas, por tantas e tão diferentes pessoas, ao longo de 15 anos, as quais nem todas e nem sempre as terão merecido (6). Mas escolhi-as porque me parecem resumir o sentido profundo da actividade geral, tal como se apresentaria a um espectador que a visse no seu conjunto durante todo o tempo em que durou.
A ordem porque as coloco também não é indiferente. Primeiro o sacrifício, porque este esteve quase sempre presente, mesmo nos pequenos acontecimentos da vida quotidiana.
As tropas pára-quedistas, em África, estiveram sempre sujeitas a todos estes sacrifícios, sacrifícios da separação, da incomodidade, da tensão nervosa prolongada que o perigo gera. Até quase ao fim, estiveram mal instaladas. A falta de forças capazmente treinadas e enquadradas em quantidades suficientes obrigou sempre os Comandantes-chefes a imporem, às tropas pára-quedistas um ritmo de actividade operacional muito elevado.
As tropas pára-quedistas tiveram sempre pouco tempo de descanso, foram sempre utilizadas nas zonas que os comandantes militares consideravam mais perigosas.
O sacrifício foi, portanto, a grande condição sempre presente, com variações de intensidade, é certo, mas sem nunca deixar completamente de marcar a vida quotidiana, no quartel, no mato, mesmo na cidade. A essa constância do sacrifício, que às vezes era exigido em doses quase sobre-humanas, os militares pára-quedistas responderam, de um modo geral, com abnegação. O cansaço, a frustração, a doença, a fome, a sede, a saudade, os muitos e variados incómodos de uma vida dura, foram enfrentados e superados por uma vontade de cumprir que se manteve até ao fim. Os militares pára-quedistas não pouparam nem trabalho nem iniciativa e imaginação, para tirar partido de tudo, e assim levar a cabo da melhor forma possível todas as missões, ultrapassar todas as faltas e deficiências de várias ordens que afectaram o seu armamento, o seu equipamento, o seu potencial de combate mesmo a nível de quadros, melhorar enfim, pelas suas próprias mãos, as infra-estruturas do seu quartel.
Talvez este espírito de sacrifício, esta capacidade de abnegação, sejam no fim de contas a maior glória de todos - ou de quase todos, com raras excepções - os militares pára-quedistas que tão bem, com tanta valentia, se portaram em combate. Mas as oportunidades de combater foram apesar de tudo, e em comparação com o total de missões realizadas, relativamente poucas, e quase sempre limitadas a contactos de fogo de curta duração. Em troca, o sacrifício foi uma constante, e a abnegação a grande qualidade que tornou possível, pela persistência, pela paciência, pela resistência física vinda não só do treino, mas também, e sobretudo da vontade galvanizada, para superar as dificuldades e conseguir, enfim, os êxitos operacionais e os feitos heróicos que permitiram merecer amplamente as muitas condecorações e louvores conquistados de armas na mão, e obter os resultados brilhantes, entre os mais brilhantes obtidos por tropas portuguesas em África.
A coragem, enfim, patenteou-se sempre que para ela surgiu oportunidade, sempre que o inimigo combateu, sempre que as situações de grande perigo se apresentaram, em diversas acções colectivas, e em muitos actos individuais. Apesar de tudo, não faltaram durante os treze anos de guerra, em que os pára-quedistas estiveram sempre empenhados, ocasiões em que a excepcional valentia, a bravura, que os pára-quedistas reclamam como seu timbre, puderam manifestar-se. Esse é o aspecto que normalmente dá mais brilho, é mais citado, e que não faltou nunca, na história dos pára-quedistas em África. Ao contrário, o sacrifício e a abnegação que estiveram por trás da heroicidade e a tornaram possível, são muitas vezes esquecidas. Não brilham, são apagadas, mas estiveram lá. E muito nos honram” (CTP, Vol. III, 1986: 66 a 68).
François Martins conhece bem África, onde desempenhou funções com as patentes de Tenente, Capitão, Major e Tenente-Coronel. Efectuou duas comissões em Moçambique, uma na Guiné e outra em Angola. Neste seu depoimento, que generaliza, tem sobretudo Moçambique no pensamento. Aliás, este III volume da História das Tropas Pára-Quedistas, reporta-se ao Batalhão n.º 31 situado na cidade Beira, em Moçambique e foi coordenado pelo próprio François Martins. De entre os inúmeros depoimentos que recolhi de várias publicações ou que me foram especificamente cedidos, os quais, pela contínua repetitividade não se justifica a sua transcrição, escolhi este para o fim, porque considero que François Martins, Oficial competente e sério, fez uma abordagem, que embora longa, vem comprovar as minhas afirmações sobre tudo o que disse acerca do valor dos militares, que não era igual em todos, provando-se que os valores estavam no «homem» e não na formação técnica.
Destaco, na abordagem de François Martins, a sua consideração de que o valor dos Pára-Quedistas estava fundamentado nas “qualidades” pessoais, entre as quais refere “sacrifício, abnegação, coragem, valentia, bravura e heroicidade”, qualidades que qualifica como adjectivos que nem todas as pessoas nem sempre os terão merecido. Não me surpreende a última referência, pois, como em qualquer profissão ou lugar da terra, os profissionais não são todos iguais. É mesmo frequente grandes disparidades entre eles. A partir deste princípio, vejo com toda a naturalidade, que tanto Oficiais, como Sargentos, ou mesmo com menor impacto as Praças, os haja desde o muito bom ao muito fraco.
Nos vários e longos comentários que manuscreveu, na folha que lhe dirigi com um pedido de parecer, e onde acentuei que a resposta seria publicada, François Martins afirma que as características pessoais representam 50% da capacidade de um graduado combatente, os conhecimentos técnico-tácticos representam 20% e a experiência 30%, mas acrescenta: “a indicação numérica é, obviamente, estimativa grosseira, com base em impressões subjectivas. Na realidade, a minha resposta deve ser entendida como simples parecer com base nas seguintes opiniões: a nível de desempenho operacional no terreno os conhecimentos técnico-tácticos requeridos eram simples e sumários, contribuindo com menos peso para a eficiência do que as características pessoais (coragem, rusticidade, capacidade de liderança, argúcia) e do que a experiência”.
Analisando mais detalhadamente os Capitães, François Martins considera que a capacidade desta classe de operacionais provém em 30% dos conhecimentos técnico-tácticos, 35% das características pessoais e 35% da experiência. Este brilhante Oficial Pára-Quedista meditou com rigor na questão que lhe coloquei, efectivamente os Capitães eram operacionais, mas a posição em que seguiam na coluna não lhe permitia comandar os combates, logo, as suas características pessoais já não eram tão relevantes. De qualquer modo e, mesmo ao nível de Capitães, continua a atribuir pouca relevância à formação técnico-táctica, enquanto componente contributiva para a formação de capacidades de desempenho.

NOTAS do texto:
(1) N.º 40 394, de 23 de Novembro de 1955 (OE, 1955).
(2) N.º 15 671, de 26 de Dezembro de 1955 (OE, 1955).
(3) Em entrevista, no dia 05/03/2002, no âmbito da presente investigação.
(4) Em entrevistas com os Tenentes-Coronéis Silva e Sousa e João de Bessa, respectivamente, nos dias 08/09/2002 e 04/08/2002, no âmbito da presente investigação.
(5) Diogo Neto foi General Piloto Aviador, íntimo de Spínola, integrou a Junta de Salvação Nacional, órgão político que dirigiu o país, nos pós 25 de Abril de 1974 e, em acumulação, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea.
(6) Sublinhado de minha responsabilidade, para destacar que também este brilhante Oficial General considera haver diferenças entre as pessoas, não obstante tratar-se de um conjunto ao qual era ministrada uma profunda e homogénea formação técnica.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

M238 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - VI

ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233, M234, M235, M236 e M237. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, M234, depois a M235… M236 e M237.

Manuel Godinho Rebocho2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)Bissalanca/Guiné1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M234, M235, M236, M237 e M238:
III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES
(continuação)
3.1.2 - O Factor Humano como Elemento Decisivo Sabendo que o Capitão Canha da Silva era Oficial oriundo da Escola Militar e que foi para a Guiné em cumprimento da sua primeira comissão, procurei analisar a qualidade do desempenho de outros Capitães que fossem igualmente oriundos da Escola Militar e tivessem ido para a Guiné na sua primeira comissão. Com esta metodologia tinha presentes duas das minhas hipóteses de trabalho: a formação base e a experiência.
Procurei, assim, analisar a vida e a qualidade do desempenho de outras Companhias, cujos Capitães fossem oriundos da Escola Militar e tivessem ido para a Guiné na sua primeira comissão, tendo optado pela seguinte forma de selecção da amostra: pedi ao meu filho que abrisse o livro “Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), Fichas das Unidades, Guiné”, tendo o livro ficado aberto na página 436, na qual se encontra uma breve história da Companhia de Artilharia n.º 494, a qual foi comandada pelo Capitão de Artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima.
Pedi depois à minha filha que repetisse o procedimento e o livro ficou aberto na página 127, na qual se encontra uma breve história do Batalhão de Caçadores n.º 2879. Este Batalhão formava a três Companhias operacionais, a primeira das quais foi comandada pelo Capitão miliciano de Artilharia José Fernando Covas Lima de Carvalho que, por doença, cedeu o comando ao Capitão miliciano de Artilharia João José Pires de Almeida Loureiro. A segunda Companhia foi comandada pelo Capitão miliciano de Infantaria Luís Fernando da Fonseca Sobral e a terceira Companhia, com o n.º 2549, pelo Capitão de Infantaria Vasco Correia Lourenço.
Pela ordem da metodologia estabelecida era a terceira Companhia a que reunia as condições impostas para o estudo, por ter sido comandada por um Capitão de carreira, como Canha da Silva. Desloquei-me então ao AHM onde consultei os elementos ali disponíveis sobre as histórias destas duas Companhias. O que vi e li é bastante elucidativo e esclarecedor para tudo o que procurava saber. Desse conhecimento se dá conta.
O Capitão de Artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima é o mesmo Oficial que, com a patente de Major e chefiando o COP 5, ordenou o abandono do Aquartelamento de Guileje, pelas 4 horas do dia 22 de Maio de 1973. As tropas que saíram deste Aquartelamento dirigiram-se para Gadamael Porto, onde não havia condições de defesa. A guerrilha atacou então as tropas neste Aquartelamento e as baixas portuguesas cifraram-se em 34 mortos e 150 feridos.
A Companhia comandada por Coutinho e Lima chegou à Guiné no início da luta armada, no dia 22 de Julho de 1963 e de onde partiu no dia 24 de Agosto de 1965. Foi colocada no Sul, em Gadamael, onde passou a maior parte da sua comissão.
Consultada a documentação que, no conjunto, constitui a história desta unidade, nada de relevante se observa, porém, um elemento deixa qualquer investigador negativamente impressionado, foram punidos 50 dos homens desta Companhia: 45 Praças e 5 Sargentos, ou seja, 36% do efectivo. Sem mais adjectivos, concluí a caracterização de um Oficial que nunca o devia ter sido.
A Companhia comandada pelo Capitão de Infantaria Vasco Correia Lourenço chegou à Guiné no dia 25 de Julho de 1969 de onde partiu, de regresso à Metrópole, no dia 26 de Junho de 1971. Em 30 de Julho de 1969 foi colocada em Cuntima, no Sector de Farim, no norte da Província.
A leitura dos documentos sobre esta Companhia impressiona pela negativa e revela o que foi a Guerra de África e como a mesma foi, na generalidade, conduzida. Ao folhear as páginas, li a seguinte frase, sobre o que se teria passado no dia 30 de Maio de 1970 isto é, 10 meses após a chegada da Companhia a Cuntima: “Sua Ex.ª o General Comandante-Chefe visitou Cuntima da qual resultou uma tremenda crítica à acção do Comandante de Batalhão e do Comandante de Companhia”. O Comandante-Chefe era o General António de Spínola.
Na página seguinte e sobre o que se teria passado no dia 2 de Junho ou seja, 3 dias após a visita de Spínola, li: “O Ex.mo Comandante de Batalhão foi levado a Cuntima, por Sua Ex.ª o Brigadeiro Comandante Militar, a fim de tomar medidas sobre os assuntos focados na crítica de Sua Ex.ª o General Comandante-Chefe, seguindo no mesmo dia para Bissau e outras localidades, para visita de estudo a vários aquartelamentos, com a finalidade de poder aplicar em Cuntima os ensinamentos colhidos.” Esclarecedor: vai um Brigadeiro levar um Tenente-Coronel a vários aquartelamentos para aprender e depois ensinar o Capitão Vasco Lourenço que, depois de «cursar» a Academia e após 10 meses na Guiné, apresentava carências desta natureza.
Pela sua relevância histórica e pelo que contém de pertinente para a investigação, enquanto prova empírica de um comportamento e de uma relação social, transcrevo o despacho de Spínola sobre a sua visita a Cuntima, despacho que foi publicado pela circular n.º 2237/C - P.º 33.8, da REP OPER .
1. Inspeccionei no dia 30 do passado mês a guarnição militar de Cuntima
Desde há muito que estava informado de que o ambiente disciplinar da CCaç 2549 era mau e que nos últimos tempos piorara.
Acusação: falta de aptidão do Capitão para Comandar.
O que vi, observei e ouvi na inspecção a Cuntima, excedeu tudo o que se possa imaginar.

2. Rancho

O pessoal queixou-se de que há cerca de 15 dias se encontrava sem batata e arroz e que teve falta de farinha e sal.
Averiguada sumariamente a origem de tal anomalia, imediatamente concluí pela existência de graves negligências do CMDT/Compª (4) e do Vaguemestre (5) .
Ambos se encontram de licença, com o conhecimento do CMDT/Bat. (6)
3. Alojamento de Pessoal
As condições de alojamento são péssimas, com a agravante de se encontrar em construção um aldeamento que oferece a experiência suficiente para se improvisarem rapidamente instalações aligeiradas, que satisfaçam condições mínimas de habitabilidade.
Há pessoal a viver em abrigos, que são buracos absolutamente inabitáveis.
O pessoal encontra-se há dez meses na Província e ainda não tem colchões.
Porquê? Quando unidades mais recentes já os têm.
4. Armamento
Encontrei G3 em péssimo estado de limpeza e conservação, o que denota que há muito tempo não é passada revista ao armamento, negligência grave de comando em campanha.
Note-se que as Companhias Africanas e as milícias vêm revelando especial cuidado com a conservação do armamento.
5. Acção disciplinar sobre o pessoal
Proíbo que com base na presente inspecção se punam soldados (refiro-me ao armamento), pois as faltas por mim detectadas encontram-se cobertas pelos Comandantes de Pelotão e estes pelo Comandante de Companhia a quem deve ser pedida responsabilidade.
A boa actuação do alferes encarregado dos reordenamentos. Levantou problemas válidos que imediatamente foram resolvidos, e que revelaram uma precária assistência por parte do CMDT/Bat.
7. O soldado chefe da equipa de Engenharia não vem cumprindo devidamente com os seus deveres, de que resulta um muito baixo rendimento da referida equipa.
Este facto já devia ter sido detectado e resolvido adequadamente.
8. O CMDT/CTIG (7) deve providenciar no sentido do CMDT/Bat. se deslocar a PELUNDO, e o CMDT/CCaç 2549 (8) a PELUNDO e JOLMETE, para verificarem o que é possível fazer-se em matéria de instalações numa zona de esforço, simultaneamente com a actividade operacional.
Salienta-se que a Companhia de JOLMETE foi comandada por um Capitão do QC e encontra-se proposta para a medalha colectiva da Cruz de Guerra de 1.ª Classe.
9. Inspeccionarei CUNTIMA dentro de um mês. O Sr. CMDT/CTIG e CMDT/BAT. adoptarão as medidas necessárias, em ordem a resolver todas as anomalias detectadas”.
A gravidade da situação referida no ponto 4, «G3 em péssimo estado de limpeza e conservação», pode aferir-se com a notícia que circula, com base num relatório recente do Exército americano, segundo a qual o acidente com a Soldado Americana no Iraque, Jessica Lynch, se ficou a dever, entre outras razões, à “má manutenção das armas” (9) . O que pode significar que as armas dos Soldados Americanos não tenham disparado convenientemente por falta de limpeza.
Conheço bem a gravidade que pode provocar a falta de conservação das armas, o que testemunho comigo próprio e com os homens que cumpriram sob o meu comando directo: nunca parti para uma operação sem que a arma estivesse limpa e o carregador que seguia colocado na arma tivesse sempre balas novas, ou seja, utilizava 7 carregadores; no entanto nem sempre havia tiros, mas quando isso acontecia e, mesmo que voltasse a sair no dia seguinte, descarregava um carregador, limpava-o e voltava a carregá-lo, mas com balas novas.
Os Soldados que manuseavam as metralhadoras faziam o mesmo: a fita de munições que seguia colocada na arma para ser disparada em primeiro lugar, tinha sempre os elos lavados com gasóleo e as balas eram sempre novas. Como vimos na página 232, o 7.º mandamento dos Pára-Quedistas dizia que “o Pára-Quedista sabe que só triunfará quando as suas armas estiverem em bom estado. Por isso, obedece ao lema: «primeiro cuidar das armas, só depois dele próprio»”. Compreendo assim perfeitamente a perplexidade de Spínola ao ser confrontado com aquele estado do armamento.
A circular da responsabilidade do General António de Spínola revela que o Capitão Vasco Correia Lourenço, um Capitão da Academia, não tinha aptidão para comandar. O seu pessoal passava fome, vivia em buracos e dormia sem ao menos um colchão. Na Guiné nos meses de Julho, Agosto e Setembro, que aqueles homens já ali haviam passado, as chuvas caem com a violência de verdadeiros dilúvios e, estes jovens, filhos de Portugal, dormiam num buraco e no chão.
O armamento estaria próximo da inoperacionalidade: as G-3 enferrujam bastante o que torna duvidoso o seu funcionamento, nessas condições. E estavam em guerra, ainda que aquela fosse uma zona relativamente serena, o que lhes valia. Spínola, experiente e conhecedor, proíbe que sejam punidos os Soldados.
Por fim, em termos severamente humilhantes, Spínola inferioriza a Companhia de Vasco Lourenço relativamente às Companhias de homens africanos e às próprias milícias, terminando por ordenar que o Capitão da Academia fosse aprender com um Capitão miliciano, que comandara a Companhia colocada em Jolmete.
O mínimo que se pode afirmar é que a formação militar não teve, neste caso, qualquer influência na qualidade do desempenho, a diferenciação esteve nos valores e nas capacidades pessoais. Spínola ordena que Vasco Lourenço vá aprender com um miliciano. Sobre esta circular o Comandante de Batalhão, Tenente-Coronel de Infantaria António José Ribeiro, exarou o seguinte despacho:
“Ciente.
Foram tomadas as providências requeridas.
Tinha conhecimento pessoal dos assuntos expostos, excepto na falta de aptidão do Cap. para Comandar, só está há dois meses sob o meu comando, e do estado de limpeza das G3. Aguardo a chegada do Vaguemestre da Companhia para o ouvir nos termos do Art.º 130.º do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) e puni-lo, caso, como parece verificar-se, haja incúria nos serviços a seu cargo.”
O resultado da audição ao Vaguemestre traduziu-se na punição deste, pelo Comandante de Batalhão, nos seguintes termos:
“Puno com 10 (dez) dias de detenção o Furriel (...) (10) por no desempenho das funções de Vaguemestre da sua Companhia ir acumulando erros de controlo que levaram ao aparecimento de uma situação crítica, sem procurar esclarecer as suas dificuldades junto de sargentos mais experientes que existiam na sua subunidade...” o Comandante de Batalhão, ao punir o Vaguemestre, assume que os Sargentos é que sabiam. E o Capitão!?
Este despacho retrata o outro exército, aquele que não queria abordar, por não lhe reconhecer os valores que identificam os exércitos institucionais. No meio de tanto alheamento, incompetência e incúria, o Furriel é responsabilizado por se não ter «esclarecido junto dos sargentos», sem uma palavra sobre o oficialato. Afinal, este foi o exército do Sargento, da não elite, do Soldado anónimo. Aqui estão as raízes e as justificações das correntes, facções e grupos de Oficiais que “caíram” em Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 1974. Aqui estão as justificações do ódio que alguns Oficiais, auto-designados como democratas, nutriam por Spínola. Mas estão também, aqui, as consequências dos erros de recrutamento do oficialato, seguido pelos políticos portugueses. Tanta cautela política do anterior regime conduziu à pior das consequências.
Algumas notas soltas dão-nos conta do ambiente que se passou a viver em torno de Cuntima, tais como: “O Comandante fez incidir a sua presença sobre Cuntima a fim de solucionar os problemas focados na crítica atrás referida, dentro do prazo de um mês estabelecido por Sua Ex.ª o General Comandante-Chefe.”
“Sua Ex.ª o General Comandante continua com o Batalhão sob observação.
Admite-se que os factos passados em Cuntima e referidos no mês de Maio estejam na base desta observação atenta.
O Oficial de Operações é impedido de gozar a sua licença.
Todos os factos relatados abalaram psicologicamente o Comandante de Batalhão.”
Em 17 de Julho de 1970 a Companhia de Cuntima foi transferida para Farim, sede do Batalhão, e a Companhia que estava em Farim foi para Cuntima.
Em 21 de Julho, já em Farim, “o Comandante da CCaç 2549, Capitão Vasco Lourenço, (solicitou) a Sua Ex.ª o General Comandante-Chefe que modificasse a opinião formada, e lhe desse a mesma divulgação que a crítica tinha tido.” Com o que se fica a saber que Spínola tinha divulgado a circular. A divulgação dum documento desta natureza e com estes fundamentos «arrasa» qualquer profissional. Estávamos a 4 anos do PREC, onde as «contas» se viriam a ajustar.
Spínola não só não modificou a opinião formada, como exarou o seguinte despacho, em 30 de Julho, desse mesmo ano de 1970:
“Li atentamente a exposição do Sr. Comandante de Companhia de Caçadores 2549.
Embora reconheça e respeite o seu legítimo desejo de defesa e reabilitação, mantêm-se válidas todas as críticas anteriormente formuladas.
Tudo o que se faça para justificar a situação de manifesta precariedade em que encontrei a Companhia, nos seus vários aspectos, resulta negativo perante a constatação do que foi possível fazer-se a seguir à minha visita.
Ao Comandante-Chefe interessa fundamentalmente a resultante e não as diligências efectuadas. Por outras palavras: os soldados não comem ‘notas nem mensagens’, comem batata, e também não dormem sobre ‘notas, diligências, conversas, etc. ...’ mas sim sobre colchões que não tinham e que apareceram dum dia para o outro.
Sendo assim, as justificações apresentadas não alteram a crítica formulada, tanto mais que muito se podia ter feito na esfera das possibilidades do Comando da Companhia.
Em resumo, verificou-se falta de determinação, aquela determinação que tem realizado ‘milagres’ no TO da Guiné em alguns aquartelamentos com vista a melhorar as condições de vida dos nossos soldados.
Aliás, a forma como encontrei a Companhia um mês depois mais reforça a razão em que se baseiam os presentes comentários”.
Não me preocupa o entendimento que o General Spínola seguia quanto à qualidade do desempenho, mas considero relevante referir a existência de uma idêntica interpretação sobre este assunto. Com efeito, avalio a formação, não pelo currículo dos cursos frequentados, mas pela qualidade do desempenho; Spínola afirmou: “Ao Comandante-Chefe interessa fundamentalmente a resultante e não as diligências efectuadas”. (Sublinhado meu).
Nos últimos tempos em que permaneceu no TO da Guiné, concretamente nos dias 8, 9 e 10 de Junho de 1971, a Companhia de Vasco Lourenço executou na área de Bricana a operação “Última Vendetta” durante a qual e segundo o relatório da operação, destruiu 44 moranças (11) , 58 vacas, 15.700 kg de arroz, 1 porco, 60 molhos de capim, 1 capinzal pronto a ser colhido, milho, óleo de palma, galinhas, artigos escolares e outro material diverso sem interesse militar, destruído grande quantidade.
O relatório da operação é um pouco sumário e não descreve onde estavam as ditas moranças mas, pela sua quantidade, deveria tratar-se de um tabancal, que poderia designar por aldeia, de consideráveis dimensões. Para aqueles que se afirmam contra a Guerra a «façanha» é de relevo. Operacional fui eu, em tropas de elite, durante 26 meses e nunca a minha Companhia destruiu qualquer produto alimentar da população.
Em resumo, observa-se que os três Capitães, Comandantes de Companhias de quadrículas, apesar de terem todos a mesma formação militar e a mesma experiência, um deles, Canha da Silva, revelou-se um Oficial de valor, o que não aconteceu com nenhum dos outros dois. Viu-se mesmo, através destes relatos, que havia milicianos prontos a ensinarem Capitães de carreira.
Para o desempenho das missões que eram atribuídas a estes Oficiais, todos, inclusive os milicianos, dispunham dos conhecimentos militares necessários. Não se pode afirmar que estes ou aqueles não tinham formação técnica suficiente, todos a tinham. Não foram questões técnicas que implicaram baixos desempenhos, que determinaram, por sua vez, as consequências que todos conhecemos: um abandono apreçado de África, com grandes perdas para os portugueses e não menos para os africanos, muitos dos quais lutaram e trabalharam ao nosso lado. A qualidade do desempenho, possuindo conhecimentos técnicos suficientes, depende em grande parte das características pessoais, que nuns indivíduos abundam, enquanto noutros escasseiam.
Analisando o comportamento e a qualidade do desempenho das unidades de quadrícula, algumas observações se extraem:
A qualidade do desempenho das unidades de quadrícula revestia-se de grande importância, porquanto eram elas que determinavam as posições da população: maior apoio às autoridades portuguesas e o consequente afastamento da guerrilha ou o afastamento das autoridades estabelecidas e o apoio à guerrilha. Sendo certo que a guerrilha não pode viver sem o apoio explícito da população, compreende-se a importância destas unidades.
Como já sublinhei, as condições de vida dos militares vindos da Metrópole eram, de um modo geral, muito precárias. Contudo, o trabalho, a inteligência, a liderança e o desembaraço, o aprumo e a capacidade de comando e de decisão, poderiam minimizar as condições desfavoráveis e criar mesmo algumas condições de vivência.
O comando e a articulação da tropa branca com a tropa nativa determinavam outra vertente de equilíbrio entre o valor humano, a complacência, a rigidez e a objectividade da missão.
As matérias determinantes deste desempenho não eram ministradas na Escola Militar. E muito dificilmente o poderiam ser. Neste sentido, a própria formação técnico-táctica não conferia qualquer qualificação para a função a desempenhar. Os conhecimentos básicos adquiridos nos cursos de milicianos eram suficientes para organizar a defesa imediata e de proximidade dos Estabelecimentos militares. Compreende-se assim, que se tenha tornado indiferente, para a qualidade do desempenho, que o Capitão fosse de carreira ou miliciano.
O desempenho das Companhias de Quadrícula estava completamente dependente do Comandante de Companhia. A capacidade deste, considerando que os conhecimentos técnico-tácticos eram suficientes dependia, em absoluto, das suas características pessoais e dos valores que o orientavam enquanto ser humano.
Sendo indiferente a formação técnico-táctica, o regime errou profundamente na forma e no modelo que adoptou para formar Capitães; e a Academia não cumpriu, minimamente, o seu objectivo. Não formou combatentes nem líderes militares; formou grupos de pressão que liquidaram o império, sem honra, nem glória, nem futuro.
A experiência não era muito importante, uma vez que todos os homens da Companhia eram colocados em sector ao mesmo tempo, pelo que não havia ninguém com mais experiência do que o Capitão que pudesse realçar algum erro ou alguma deficiência deste. Os erros tácticos por falta de experiência também não se notavam, pelo simples facto de não haver muitas atitudes tácticas a assumir, já que a actividade operacional era progressiva. Tratava-se de unidades com funções estáticas, que nos seus primeiros tempos em sector não actuavam isoladamente em locais muito afastados dos seus pontos de estacionamento. Os seus actos eram genericamente repetitivos, não proporcionando grandes surpresas, característica principal de uma guerra de guerrilha.
A experiência era, contudo, necessária quanto ao comando de homens, particularmente em situações tão difíceis e com tantas carências. Esta experiência poderia e deveria ser obtida quando o Oficial detinha os postos de Alferes e de Tenente, posições em que comandava Pelotões e adquiria prática no contacto directo com as tropas. A norma que se foi acentuado, segundo a qual os homens da Academia iam para África já em Capitães, impedia-os de adquirirem essa experiência. Ao contrário, os Capitães milicianos que já tinham cumprido uma comissão como Alferes, possuíam esta experiência, o que permitiu uma vantagem considerável dos Oficiais milicianos face aos Oficiais do quadro.
Portugal viu-se assim com dois exércitos: o dos valores, vocacional ou institucional, e aquele para onde foram apenas os que procuravam um emprego, que posso designar por ocupacional. Só os primeiros devem constituir os exércitos, por só eles reunirem condições para defender os interesses do País. Para Clausewitz a guerra é o reino do perigo, daí que o valor seja a virtude guerreira por excelência (Clausewitz, 1973: 77).

NOTAS do texto:

(1) Caixa n.º 120 - 2.ª Div. / 4.ª Sec., AHM.
(2) Todos os elementos sobre esta Companhia encontram-se na Caixa n.º 110 - 2.ª Div./ 4. º Sec., AHM.
(3) REP OPER significa Repartição de Operações.
(4) Comandante de Companhia.
(5) Responsável pela alimentação.
(6) Comandante de Batalhão.
(7) Comandante do Comando Territorial Independente da Guiné.
(8) Termo que designa o Comandante de Companhia, Capitão Vasco Lourenço.
(9) Jornal “24 Horas” de 12 de Julho de 2003, p. 15.
(10) Omito o nome do Furriel, por considerar injusto que, no meio de tanta incúria e incompetência se responsabilize apenas o «pobre» Furriel miliciano, que estava ali, apenas porque a Pátria lho ordenara.
(11) Conjunto de tabancas pertencentes à mesma família.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

6. Aspectos positivos