quinta-feira, 12 de abril de 2012

M432 – 38ª Companhia de Comandos – Uma lenda da Guerra do Ultramar: Um tiro de misericórdia em Caboiana (10)



Esta é a 10ª mensagem, continuação das mensagens M417, 418, M422, M423, M424, M425, M426, M427 e M429, onde se iniciou a publicação de algumas das memórias de guerra de Amílcar Mendes, Recordamos que estas mensagens também podem ser vistas no blogue: http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/


38ª Companhia de Comandos 

Uma lenda da Guerra do Ultramar 
Guiné – 1972/74 

Guiné > Região do Cacheu > Caboiana > 38ª CCmds > Acção Jovenca > 31 de Dezembro de 1972 > A espingrada semiautomática russa Simonov, capturada ao guerrilheiro abatido. 
Guiné > Região do Cacheu > Caboiana > 38ª CCmds > Acção Jovenca > 31 de Dezembro de 1972 > Em primeiro plano, o comando Mendes, com o seu RPG2 
Guiné > Região do Cacheu > Caboiana > 38ª CCmds > Acção Jovenca > 31 de Dezembro de 1972 > A penosa recuperação no tarrafo do Rio Caboiana. 
Guiné > Região do Cacheu > Caboiana > 38ª CCmds > Acção Jovenca > 31 de Dezembro de 1972 > Já a caminho da LDM que há-de levar os 2 Gr Comb até ao Cacheu. 

Memórias de uma passagem de ano e Natal (com prenda?) 

31 de Dezembro de 1972 - Acção Jovenca 

- Missão: Aniquilar, capturar e desarticular as organizações IN na região da Caboiana

- Força executante: 2 Gr Comba da 38ª CCmds; 

- Planos elaborados para a acção: Saída de Teixeira Pinto em coluna auto até ao Cacheu

- Deslocação em LDM até a região de S. Domingos até a altura da recuperação em LDM; 

- Apoio aéreo: COMdcon(DO27 armada) em alerta, no solo de Teixeira Pinto; 

- Duração: 24 horas; 

- Resultados obtidos: Pelo IN, 1 morto (confirmado); 

- Feita a captura do seguinte material: 1 Esp Aut Simonov. 

Desenrolar da acção: 

31 de Dezembro de 1972 

O meu grupo (2º) e o 4º vamos para a Caboiana-Churo. 

Seguimos em LDM até ao Rio Caboiana, e aí chegados passamos para os botes dos Fuzas Africanos que nos vão levar até ao tarrafo onde iremos desembarcar. 

O desembarque e a passagem do tarrafo são feitos à força de braços e com muito custo mas lá chegamos ao trilho e pelas 10h00 lá vamos a caminhar. 

Sigo em 5º lugar logo atrás do Cmdt da Companhia. A minha arma era um RPG2. O trilho por onde seguimos revela vestígios de ser usado com regularidade. 

O 1º homem da frente segue com cautela observando cada vestígio para não sermos apanhados em falta, pois segundo o nosso credo... em combate a morte sanciona cada falta! 

Já seguíamos há horas no trilho quando ouvimos, no silêncio, barulho de alguém a assobiar uma melodia qualquer. Nem tivemos tempo de parar quando nos apareceu pela frente um guerrilheiro, armado e só. Ainda tentou disparar mas o nosso primeiro homem disparou uma rajada à queima- roupa, atingindo-o. O homem ainda deu uns passos em frente vindo a cair à minha frente. 

Reparei que, embora o sangue saísse em golfadas pela boca, ainda estava vivo. Em agonia. Para bem dele e para lhe acabar o sofrimento foi aí que lidei mais de perto com a morte. Para alguns isso será assassínio, para mim foi misericórdia. Um tiro de misericórdia. 

Apesar do tempo que já levo de combate, ainda não aprendi na tratar a morte por tu. Ainda tenho algumas reticências em tirar o último sopro a alguém. 

Nós, os que passamos pelos palcos de Guerra e que fomos a mão executora em muitas operações, apenas demos seguimento ao que era superiormente planeado. 

Fui voluntário para os Comandos, sabia o que me aguardava, sabia que a palavra MORTE iria entrar na minha vida até ser banal pronunciá-la. Que fique claro que até hoje nunca me arrependi de nada do que fiz enquanto militar. Sempre respeitei os mais fracos e os indefesos, nunca pratiquei actos gratuitos só para acrescentar mais uma marca na coronha da minha arma. Fui misericordioso tanto como o IN o era. Para se obter resultados era preciso matar para não ser morto e nisso tornei-me mestre, mas sempre olhei nos olhos aqueles que, como meus inimigos, exalavam o último sopro. 

Prosseguindo no meu diário: Com a morte do guerrilheiro IN capturamos uma arma russa, uma Simonov, novinha. 

Seguimos pelo trilho e, com a nossa aproximação a um aldeamento, ouviram-se uma série de rajadas. O elemento surpresa fora quebrado e prosseguir era puro suicídio. 

Tínhamos de certeza emboscada montada algures no caminho. O capitão decidiu sair do trilho e entramos a corta mato. O objectivo da missão estava perdido quando se quebrou o elemento surpresa e por isso foi decidido terminar e rumar ao local de recuperação. 

A morte do elemento IN teve uma virtude, o de me fazer ir passar a passagem do ano no quartel de Teixeira Pinto. 

No local de recuperação tivemos de atravessar um tarrafo, aí com 50 m de comprimento, feito a força de braços pois o terreno era pântano e cheguei a estar atascado até a cintura agarrado a raízes. 

Lá chegamos aos botes dos Fuzas Africanos que nos levaram até ao Cacheu , daí seguimos em coluna auto até Teixeira Pinto onde nos aguardava a entrada do ano de 73. 

(continua) 

Um grande abraço para todos os ex-Combatentes. 
Amílcar Mendes 
1º Cabo Comando da 38ª CCmds 

Texto e Fotos: © Amilcar Mendes (2006). Direitos reservados. 

Fotos alojadas no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved. 
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Do mesmo autor veja também as mensagens: 

1ª mensagem em 16 de Março de 2012 

2ª Mensagem em 18 de Março de 2012 > 

3ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

4ª Mensagem em 25 de Março de 2012 > 

5ª Mensagem em 30 de Março de 2012 > 

6ª Mensagem em 31 de Março de 2012 > 

7ª Mensagem em 3 de Abril de 2012 > 

8ª Mensagem em 5 de Abril de 2012 > 

9ª Mensagem em 8 de Abril de 2012 > 

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