quarta-feira, 29 de maio de 2013

M1016 - Moçambique, Inhamacolomo, fins do ano de 1975. por RANGER Mesquita Almeida



Moçambique, Inhamacolomo, fins do ano de 1975. 


Orgulho-me deste feito histórico, em fins do ano de 1975, que relato pela 1ª vez por escrito, muito por alto, gesto que havia realizado apenas em conversas de café, a pouca gente, já que dou e continuo a dar pouco crédito à maioria das pessoas que (fazem de conta) me escutam. 

Dos fracos não reza a história, dos fortes reza os que merecem. No meu caso, acredito, tratar-se apenas de mais um soldado incógnito que, no tempo da guerra, acreditou, inocentemente, que lutava pela Pátria e pela Mátria. 

Adoro ser mais um “desconhecido” que amou Portugal com a paixão do peito Lusitano, que ama ainda e amará desde as suas raízes, pelos que vivem e pelos que se foram, mas que abomina os que traíram a saga de tanta e sacrificada juventude. 

Com o decorrer das conversações do Mário Soares com os grupos beligerantes inimigos em Lusaka, assim como as problemáticas indefinições oriundas de Lisboa, entendi que a guerra deixara de ter sentido na minha área de actuação - Inhamacolomo, Moçambique. 

Fomos reconhecendo que a implosão militar provocada pelos nossos políticos inexperientes nas negociações intercedidas pelo conselho da revolução e acobardados por tomadas de decisão ditas Democráticas num PORTUGAL às avessas, nos entregavam pouco e pouco às potências de leste, sobressaindo eles - os protagonistas -, como os heróis da liberdade. 

Este era o assunto das minhas conversas com os camaradas mais chegados da minha companhia, desde os soldados à chefia - o Alferes Miliciano Guerreiro, 2º Comandante -, pois não tínhamos Capitão que desertara nas vésperas da nossa partida para Moçambique, cerca de um ano antes. 

Fundamentados em conceitos da moda: pão, paz e educação, que reputo de essenciais e desejáveis, não lhes perdoarei jamais a fórmula encontrada para nos entregarem aos países comunistas. 

Tomei então a meu cargo terminar a guerrilha na minha zona. 

Para isso, mandei formar a Companhia na parada e explanei uma operação de declinação, a título voluntário, para que todos se inteirassem dos propósitos em terminar as hostilidades sem sentimentos de derrota, antes pelo contrário. 

Pedi 2 voluntários dos pelotões alinhados numa paupérrima parada, bem próxima do arame farpado para que parte da população local pudesse “coscuvilhar”, pois era do meu interesse “divulgar” as minhas ideias rapidamente. 

Para meu contentamento deram o passo á frente dezenas deles, mas eu optei pelo mecânico - Cabo Miliciano Oliveira. 

O Alferes Guerreiro - 2º Comandante da Companhia -, era um homem de coragem, desde sempre solidário com as minhas competências de chefia, entendeu seguir-me, pelo que foi necessário pedir desculpas aos demais voluntários que se quiseram conjugar com esta minha decisão. 

Espetei um lençol na frente de um jipe e dei ordens aos rádio-telegrafistas para difundirem informações descodificadas, noticiando a nossa saída rumo ao nosso destacamento de Inhamacolomo - 15 km a Norte -, para um encontro com a Frelimo na picada ou no mato. 

Com uma granada defensiva – na posse de cada um de nós -, escondidas debaixo dos assentos da viatura, que seriam as nossas únicas armas de defesa para uma eventual situação crítica. Era pois minha intenção pessoal, em caso de última defesa, mandarmos alguns pelos ares (hoje acho que foi um acto de estupidez e não de coragem). 

Fomos então emboscados a cerca de 5 km do destacamento inimigo, rodeados por todos os lados pelos bandoleiros da FRELIMO. 

Paramos o Jipe lentamente, colocámos as mãos no ar. 

De armas toscas, excepto uma ou outra Kalashnikov, os “turras” com roupagem pouco militar e, em alguns casos, até andrajosa, acercaram-se de nós pacificamente com sorrisos e uma “aborrecida mania” de nos tentarem abraçar. 

Terminou ali mesmo a nossa guerra. 

Contra os meus princípios de amor á Pátria, traído pelos novos ventos dos ideais de Abril, um ano antes, fi-lo por entender que a carne para canhão acabaria ali mesmo, sem no entanto entregar as armas ao IN até ao último dia. 

No regresso à base - obriguei os Frelimos a seguirem-nos até ao nosso quartel -, quer comigo no Jipe, quer em camiões emprestados por machambeiros da região. 

Nas fotos em que levei um chapéu de palha na cabeça, conduzi os chefes principais sentados atrás e na frente da coluna, ainda com o lençol branco espetado na frente. 

Fomos recebidos em delírio pela população local, para quem as agruras da guerra terminaram nesse dia memorável. 

Por fim, para rematar a festa, ambas as partes proferiram discursos inflamados, na varanda do quartel. 

Nota-se na foto que obriguei o chefe guerrilheiro, de raça Macua do norte de Moçambique, de dentes aguçados á lima, que entoava gritos de: ABAIXO SALAZAR, ABAIXO CAETANO, ABAIXO KAÚLZA DE ARRIAGA e VIVAS Á FRELIMO, VIDA OU A MORTE, VENCEREMOS, exigindo-lhe, perante a população, que gritasse também bem alto, várias vezes: VIVAS AOS MILITARES PORTUGUESES e VIVAS A PORTUGAL. 

Ele acedeu, depois de muita insistência minha, como transparece na foto. 

Sem a bravura Ranger, não seria capaz de tomar iniciativas desta índole pois utilizei argumentos calculistas, com organização militar pré concebida durante semanas, o quanto bastasse para não ter de me servir das granadas ofensivas, mas isso é outra história que seria fastidioso explanar agora. 

Hoje pergunto-me que raio jaz em tão pouca glória nas cabeças destes incompetentes políticos que gerem Portugal, com os seus silêncios ensurdecedores de desprezo aos militares de ontem e de hoje. 

Grito para que se reputem a abrirem os olhos, pois ainda estão a tempo de reverenciarem os obreiros de Portugal. 

RANGER Mesquita Almeida 

    

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