domingo, 25 de janeiro de 2009

M48 - Guiné - Ataque a Buba (Livro Guerra Colonial do Diário de Notícias)


Mais 3 páginas sobre a Guiné - neste caso o capítulo "Ataque a Buba" (Extraído do excelente livro Guerra Colonial do Diário de Notícias), e enviadas pelo meu camarada ex-Combatente e amigo Manuel Henrique.








5 comentários:

Carlos Nery disse...

Eu era o Comandante da CCaç 2382 uma das unidades sediadas em Buba quando do ataque. A frase transcrita do relatório então elaborado, foi de minha autoria. Porém, o desenho baseado naquele que fiz nesse mesmo relatório, contém algumas inexactidões.
Efectivamente os cinco bigrupos do PAIGC que pretendiam entrar em Buba (cerca de 300 homens) foram emboscados por um grupo de combate da CCaç 2382, comandado pelo Alf.Mendes Ferreira, e por elementos do Pelotão de Milícia, postados no exterior do aquartelamento para lá da pista de aviação, tendo retirado com baixas e sem atingir o seu objectivo. Nessa retirada utilizaram o largo trilho aberto quando da sua aproximação.
Enquanto isto, a nossa artilharia, 2º.Pelotão/BAC comandado pelo Fur.Mil.Gonçalves de Castro, atingia com eficácia a posição dos morteiros inimigos. Ficaram no local e foram capturadas na madrugada seguinte pelos fuzileiros do DFE7, 158 granadas, das 180 com que contava o Comandante Peralta na sua "Ordem de Fogo" preparando o ataque a Buba.
Entretanto, os dois morteiros 81, guarnecidos pelo Pel.Mort.2138, atingiam a posição ocupada pelo comando do ataque In, instalado na margem direita do Rio Mancamã, junto à foz. No lusco-fusco desse fim de tarde, viu-se, do quartel, a confusão de vultos em fuga, por entre o capim, nessa outra margem do rio. A maré estava baixa. Um frémito percorreu os defensores. Elementos do DFE 7, da CCaç 2382 e da Milícia, sob o comando do Tenente Nuno Barbieri, alcançam a margem do rio Bafatá fronteira à posição dos canhões sem recuo e do comando inimigo. É aí deixada uma base de apoio comandada pelo Alf.Domingos, da CCaç 2382, enquanto o Tenente Barbieri tenta ganhar a margem oposta no comando dos restantes voluntários, actuação esta que fez aumentar a confusão existente no dispositivo inimigo. Uma noite sem lua caíra, entretanto. Foi decidido regressar ao quartel.
O relatório desta acção foi recebido com cepticismo em Bissau.
Porém, quando da captura do Comandante Peralta, pelos Paraquedistas, passados poucos dias, foi constatado que os planos de sua autoria para atacar Buba se ajustavam à descrição por nós elaborada.
Gomes de Araújo
(Cap.Mil.Art)

Carlos Nery disse...

Na realidade, o Comandante Pedro Peralta cometeu algumas falhas: as obsevações que mandou efectuar deixaram sinais detectados pelos nossos patrulhamentos. Por outro lado a preparação do tiro de artilharia que efectuou nas vésperas do ataque (disparos isolados ocorriam a horas inesperadas)levou-nos a prever o tipo de ataque que se preparava. Para cúmulo instalou as suas bocas de fogo nos pontos de mais provável instalação, já utilizados em inúmeros outros ataques. Mal foram ouvidas as "saídas" da artilharia inimiga já a nossa resposta ía a caminho com precisão. O resto já está descrito. Mas o "azar" de Pedro Peralta não acabou ali. Passadas escassas semanas, no dia 18 de Novembro, caía numa emboscada dos paraquedistas do CCP 122, onde foi gravemente ferido e capturado pelas nossas tropas. Ficava adiada por mais uns anos a tentativa do PAIGC de fazer subir a fasquia do tipo de guerra de que vinha tomando a iniciativa.

Carlos Nery disse...

(ii) O COMANDANTE QUE NÃO QUER FALAR

- Então, comandante, aquele ataque a Buba!... Em Setembro de 1969, não correu bem !
- Não quero falar desse ataque. Não fui apanhado por muita sorte.

Conversa encerrada com o comandante Manecas, o homens dos mísseis Strela.

Relendo o meu Diário:

Empada, 16 de Outubro de 1969: Do pelotão que está em Buba chegam novidades. Há dias houve por lá um terrível ataque com tentativa de assalto. Atacaram do sítio habitual do lado do rio com 10 Canhões, enquanto do lado da pista fazia o desenvolvimento do assalto, procurando apanhar a tropa desprevenida. Segundo dizem os meus colegas eram mais de duzentos, a avançarem em arco para que, se as nossas forças saíssem, as envolverem. Felizmente estava emboscado um Pelotão que os detectou.

Parece que foi um tremendo fogachal, enquanto os Fuzas perseguiam os que atacaram do lado do rio que pretendiam reforçar as forças de assalto. Ao fazer-se o reconhecimento, foi encontrado um rádio, sinal de que o ataque foi bem comandado e o fogo controlado por sentinelas avançadas. Foram descobertas e desenterradas 180 granadas de canhão sem recuo. Foi também ouvido ruído de viaturas.

Quando os Fuzas voltaram ao quartel, foram seguidos pelo IN que os atacou muito perto de Buba. Assim caíram entre dois fogos, o do IN e o de Buba que reagiu a um possível ataque sem saber que o fogo era destinado ao grupo de fuzas. No dia anterior tinha havido uma coluna a Nhala ,onde apenas foi encontrada uma A/P com dispositivo anti-levantamento eléctrico que felizmente não funcionou por ter as pilhas gastas. Nesta minha havia uma mensagem escrita; Esta é para Alferes Gonçalves. Infelizmente este furriel e não alferes, já está em Lisboa devido a um estilhaço que apanhou noutro ataque a Buba.

Insisto:
- Mas, comandante, vocês queriam mesmo entrar. O quartel e povoação foi cercado do lado da pista, como já o tinham feito em uns meses antes.
- Essa missão competia à infantaria. Eu estava no posto de controlo da artilharia. Tudo estava a correr mal. O levantamento do local tinha sido feito com a maré cheia e atacamos com maré vasa. Não foi possível colocar as armas nos locais previstos. Por outro lado a terra estava mole, os canhões enterraram-se e as granadas caíram quase todas no Rio. Preocupado com a orientação do fogo, não reparei e não fui apanhado por pouco. Foi um dia para esquecer.

E mais não disse o comandante.

Carlos Nery disse...

O SEU A SEU DONO...
Bem... Fui buscar um texto que me pareceu interessante ao blogue Luís Graça § Camaradas da Guiné (P2676) da autoria do Zé Teixeira que foi 1º.Cabo Enfermeiro da Ccaç 2381, companhia "irmã" daquela que comandei, A CCaç 2382. Consegui fazer a "copy" do texto mas... falhou a identificação do autor. Aqui fica, portanto.

Carlos Nery disse...

Nunca dei por Cuba ter lá conselheiros. Houve só esse capitão Peralta, que era conselheiro. Foi apanhado numa emboscada. Esta história do Peralta em Buba foi ridícula. Havia o rio Grande de Buba e o Peralta fez um reconhecimento da zona mas com a maré cheia. Isto é, viu o rio e vários braços do rio - o rio Grande de Buba. Era mais uma ria do que um rio, um rio curto e largo onde vêm desaguar muitos pequenos rios. Havia o quartel de Buba, que tinha uma pista de aviação. Mas quando ele fez o reconhecimento, fê-lo com a maré cheia, era tudo água. Mandou as tropas virem através do capim, mas quando chegaram para atacar estava a maré vazia, e onde havia água estava terra. Quando ele montou as armas e disparou, a companhia de fuzileiros saiu a pé e contra-atacou. Por outro lado, ele andou a fazer uma série de reconhecimentos e as patrulhas portuguesas a certa altura aperceberam-se e avisaram o comando, de que havia vestígios de passagem de pessoas à volta do quartel. Nessa noite. o comando determinou que estivesse um pelotão de Infantaria emboscado em certo sítio. Quando ele fez o ataque pelo capim, a tropa que estava emboscada disparou contra o capim, vinham três bigrupos, o equivalente a três meias companhias. Uma pessoa que é apanhada no meio do capim não tem visibilidade nem capacidade. Portanto, os que vinham pelo capim fugiram todos. Quando o Peralta foi apanhado, apanharam-se os croquis dessa operação. Mas uma pessoa com quem eu mais ou menos me dei mais tarde, o comandante Júlio de Carvalho, perguntou-me um dia como é que tinha falhado o ataque a Buba, porque tinha sido ele e o Peralta que o tinham planeado, e estavam convencidos de que não podia falhar. Discutimos o que tinha acontecido e ele disse-me que tinha feito o reconhecimento. Mas quando chegou ao local no dia do ataque, viu o rio em baixo, não havia nenhuma semelhança. Eles montaram as armas, mas nós disparámos e eles fugiram todos para o rio. Quando fugiram para o rio, os fuzileiros viram-nos e foi a debandada geral.

(Outro comentário interessante, desta vez de Carlos Fabião, que fui buscar ao blogue "Batalhão de Caçadores 2885", marcador 4006).