quarta-feira, 22 de setembro de 2010

M267 - C.T.O.E. - Centro de Tropas de Operações Especiais - 06SET2010 - O Exmo. Sr. Presidente da República em Lamego (2)



50º aniversário das Operações EspeciaisO Sr. Presidente da República Prof. Dr. Cavaco Silva Condecorou o C.T.O.E. - em Lamego -, 6 de Setembro de 2010Com o grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Avis

O Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lamego - Engº Francisco Lopes
O RANGER TGEN Cardeira Rino dirige-se para a tribuna de honra O Sr. TGEN Almeida Bruno dirige-se para a tribuna de honraO Sr. Ministro da Defesa
O RANGER TGEN Valente O RANGER TGEN Pinto ferreira Aspecto da exposição
A farda camuflada dos Caçadores Especiais Algum do equipamento utilizado nas campanhas da Guerra do Ultramar, em África

M266 - Um Amigo e Ex-Combatente, Serafim Silva "partiu" no passado dia de 16 de Setembro




Combatentes da Guerra do Ultramar estão de luto:
Amigos e Camaradas faleceu, em 16 de Setembro, cerca das 21h, o nosso Amigo e Combatente - Serafim Silva, que residia em Cascais - Lisboa.
Serafim Jesus da Silva, residia em Cascais e nasceu em 20Ago1944, tendo cumprido a sua comissão de serviço militar na Região Militar de Moçambique, como 1º Cabo Condutor no Pelotão Auto-Macas nº1089, entre JUN1966 e JUN1968, sediado na Beira.


Passou à disponibilidade naquela Província de Moçambique, onde fez profissão como condutor de camiões, percorrendo, entre outras regiões, o distrito do Cabo Delgado.


No desempenho dessa actividade, estritamente civil, foi por vezes contratado para transportar forças militares.


Em consequência da entrega de Moçambique à Frelimo, regressou à Metrópole.


Foi um importante lutador pelos ideais da Pátria Portuguesa até à sua "partida" e uma assídua presença nas representações da Associação de GEs/GEPs, sendo algumas das vezes o seu Porta- Estandarte.


Um Camarada de elevado valor, que passou para as nossas memórias, de quem sabemos nunca ter tido o sentido de negar o seu compromisso de combatente, para com os portugueses de Aqui e Além-Mar.


Permita Deus que descanse em paz.



NOTA: As informações da situação militar deste nosso amigo ora falecido, foram-me prestadas prestimosa e gentilmente pelo meu Amigo e Camarada Abreu dos Santos (investigador de história contemporânea portuguesa).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

M265 - C.T.O.E. - Centro de Tropas de Operações Especiais - 06SET2010 - O Exmo. Sr. Presidente da República em Lamego



50º aniversário das Operações Especiais
O Sr. Presidente da República Prof. Dr. Cavaco Silva Condecorou o C.T.O.E. - em Lamego -, 6 de Setembro de 2010
Com o grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Avis


O Sr. Presidente da República passou revista ao Batalhão e proferiu um discurso alusivo ao historial da Unidade e ao presente acontecimento.


Ver mais pormenores na Página Oficial da Presidência da República Portuguesa,que contém basta informação sobre a República Portuguesa e a sua história, bem como da actividade do Sr. Presidente da República.


Siga pelo link (clique uma vez sobre):



domingo, 19 de setembro de 2010

M264 - C.T.O.E. - Centro de Tropas de Operações Especiais - Desfilam frente ao Exmo. Sr. Presidente da República

50º aniversário das Operações Especiais 

O Sr. Presidente da República Prof. Dr. Cavaco Silva Condecorou o C.T.O.E. - em Lamego -, 6 de Setembro de 2010


Com o grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Avis.
O dispositivo das tropas foi superiormente comandado pelo Sr. 2º CMDT do CTOE - TCOR RANGER Valdemar Lima 

As forças em parada desfilaram perante a tribuna de honra. 
Forças em Parada
Forças em desfile

Os porta-estandartes
Estandarte de Portugal
O povo de Lamego afluiu e aplaudiu
Desfile com galhardia

Lamego e os RANGERS
Foi grande a afluência popular e de muitos convidados ao local das cerimónias.
A Associação de Operações Especiais fez-se representar, sobressaindo-se o guião e alguns antigos veteranos da Unidade.
Diz o nosso lema: "Que os muitos por ser poucos nam temamos." 


Éramos poucos... mas éramos bons...
É em alturas como esta que os ex-militares da Unidade têm a rara oportunidade de demonstrar o seu melhor apreço e estima, que nutrem pelo "seu" C.I.O.E. / C.T.O.E.
Fotos: © José Félix (2010). Direitos reservados

sábado, 18 de setembro de 2010

M263 - C.T.O.E. - Centro de Tropas de Operações Especiais - O Sr. Presidente da República condecorou o C.T.O.E.

50º aniversário das Operações Especiais
O Sr. Presidente da República
Prof. Dr. Cavaco Silva

Condecorou o C.T.O.E. - em Lamego -, 6 de Setembro de 2010


Com o grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Avis.

No decorrer da cerimónia usou da palavra o Sr. Comandante do Centro de Tropas de Operações Especiais, a que se seguiu o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lamego, encerrando as intervenções o Sr. Dr. Pof. Aníbal Cavaco Silva.

Em seguida, as forças em parada desfilaram perante a tribuna de honra.

Findo o desfile, o Sr. Presidente e a Dra. Maria Cavaco Silva visitaram a exposição fotográfica alusiva aos 50 anos das Operações Especiais em Lamego.

Na cerimónia estiveram também presentes o Sr. Ministro da Defesa Nacional e o Sr. Chefe do Estado-Maior do Exército, assim como outras personalidades civis, militares e religiosas.
Homenagearam-se os mortos em combate, bem como se assinalou o 171º aniversário da presença militar ininterrupta na cidade de Lamego.
Foi grande a afluência popular e de muitos convidados ao local das cerimónias.

A Associação de Operações Especiais fez-se representar, sobressaindo-se o guião e alguns antigos veteranos da Unidade.

Diz o nosso lema: "Que os muitos por ser poucos nam temamos. 

Éramos poucos... mas éramos bons...

É em alturas como esta que os ex-militares da Unidade têm a rara oportunidade de demonstrar o seu melhor apreço e estima, que nutrem pelo "seu" C.I.O.E. / C.T.O.E.


O porta-guião RANGER Manuel Lopes e seu filho João

O porta-guião da A.O.E . RANGER Manuel Lopes

Pergunta o Sr. Presidente: - Então e os Senhores quem são?


- Somos elementos da Associação de Operações Especiais! - responderam o RANGER Lopes e RANGER Abílio Rodrigues.
P.R. - Então quem é que esteve no Ultramar?


RANGER A.R. - Só o MR é que esteve na Guiné Sr. Presidente!


P.R. - Sim senhor, vamos então tirar uma fotografia!



Uma dia em que estivemos alegres e ficamos muito satisfeitos com a simpatia do Sr. Prof. Cavaco Silva. 

M262 - OS RANGERS DE PORTUGAL - C.T.O.E. - LAMEGO - Vistos pelo jornal "Correio da manhã"

RANGERS DE PORTUGAL
C.T.O.E. - Centro de Tropas de Operações Especiais LAMEGO
Uma Unidade de Elite do Exército Português e do Mundo

2010
50º ANIVERSÁRIO

Com a devida vénia e o melhor agradecimento ao jornal "Correio da Manhã", publicamos a seguir um sucinto e objectivo artigo, a 1/2 página, da autoria do jornalista Ricardo Coelho, que foi publicado na edição do passado dia 6 de Setembro.

2010 - O ANO DOS RANGERS DE PORTUGAL


NOTA: A leitura das páginas pode ser efectuada a partir da ampliação (zoom), clicando 1 vez sobre cada uma delas.

domingo, 12 de setembro de 2010

M261 - JANTARES/CONVÍVIOS MENSAIS no ESPAÇO DE TODOS OS RANGERS - CIDADE DO PORTO

JANTARES/CONVÍVIOS MENSAIS
Nos Primeiros Sábados de cada mês a partir das 19h00

ESPAÇO DE TODOS OS RANGERS
NA CIDADE DO PORTO

Dando continuidade aos encontros dos Domingos, entre as 11h30 e as 13h30, vai iniciar-se no mês de Outubro no Espaço RANGER, da cidade do Porto, os “JANTARES/CONVÍVIOS MENSAIS” que serão levados a efeito nos primeiros Sábados de cada mês, a partir das 19h00.

A sua localização é:

Agrupamento Habitacional das Antas
Rua Oliveira Santos, Loja n.º 71
4350 – 006 PORTO
(A cerca de 500 m do Estádio do Dragão)

Também tem aceso pela Rua das Antas.


Inscrição: 8 Euritos

INSCREVAM-SE JÁ PARA: Magalhães Ribeiro = 965 059 516, Manuel Lopes = 964 168 857, ou Rocha = 919 149 830.

Assim, resta aos RANGERS, familiares e amigos aparecer, conviver, conversar, jogar, etc.


Bar

Sala Polivalente

M260 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XXII


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253, M254, M257, M258 e M259. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M234, depois a M235… M236... M237… etc.

Manuel Godinho Rebocho

2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)Bissalanca/Guiné

1972 a 1974


O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253 M254, M257, M258 e M259:

(continuação)

POSFÁCIO / DEPOIMENTOS

3. José Pereira de Casimiro Carvalho
Cumpriu uma Comissão de Serviço, nos anos de 1972 – 1974, como Furriel Miliciano de Operações Especiais, Comandando uma Secção Operacional, no Sul da Guiné.

Numa análise global do trabalho efectuado pelo autor da obra “As Elites Militares e as Guerras D’África” e escudando-me na minha fraca aptidão literária, falando sim o cidadão comum, apraz-me dizer enquanto parte integrante do teatro de guerra que foi a Guiné, no qual fui “convidado” a intervir, que a verdade tarda… mas vem. Pois, após mais de trinta anos, durante os quais me senti como parte da história, que todos queriam esquecer, tal qual o Vietname para os americanos, o autor, qual grilo falante para o Pinóquio, veio relembrar fantasmas do passado, mas também fazer-me acreditar. Estes casos, normalmente, são avivados à posteriori, quando os intervenientes já não estão presentes, ou estão tão velhos que apenas querem que os deixem em paz.

Felizmente não é o caso, e ninguém espera medalhas nem louvores, mas tão só o reconhecimento do sacrifício e da dádiva que nós, os jovens de então, que tão estoicamente lutámos até ao sacrifício supremo, que é dar a vida pela nossa bandeira e pela nossa Pátria, tão vilipendiada hoje em dia.

Ora, quis o autor pôr factos a nu e acordar certas consciências, o que quase ninguém teve a ousadia de fazer nestas décadas que nos separam de uma realidade tão dolorosa como foi a Guerra de África. Factos estes tão desconhecidos, já que o Estado Novo não os deu a conhecer ao Povo Português.

Passando em revista lapsos da minha memória e do que se dizia à surdina, a minha companhia, que era de Cavalaria, a (CCAV 8350/72), teria como destino Bigene. Mas como se dizia então, alegadamente o comandante da companhia, que teria de ir para Guileje, tinha uns “conhecimentos” e a minha companhia foi então enviada para Guileje e a outra “Somos um caso sério” foi então para Bigene.

Passámos uns meses “porreiros” em Guileje, fazendo muitas patrulhas de perímetro alargado, direccionadas para a zona entre Guileje e a fronteira com a Guiné Conakry, e sempre em caminhos novos, como nos era indicado pelo Comandante da Companhia Capitão Miliciano Abel dos Santos Quelhas Quintas. Caminhos abertos à catanada e de difícil progressão. Eram patrulhas extenuantes e que nos desagradavam muito, embora hoje reconheça que foram bastante úteis para afastar o inimigo (IN) das cercanias do nosso aquartelamento.

Para complementar esta segurança e manter o IN afastado, o Capitão e o Alferes Miliciano que comandava o Pelotão de Artilharia faziam periodicamente tiro com as peças 11,4, sobre zonas predefinidas, complementadas com batimento de morteiradas tanto de morteiro 81, sob o meu comando, como de morteiro 10,7.

Pormenorizar, não consigo, mas lembro-me que em Março de 1973 Guileje sofreu um ataque com canhões sem recuo. Não sei se foi pedido apoio aéreo. O que é certo é que vimos, para nosso gáudio, um avião Fiat G91 a sobrevoar Guileje. O Capitão falou, via rádio, com o Piloto (Tenente Pessoa) a quem indicou o rumo do local de onde o IN nos estava a atacar.

Algum tempo depois soubemos que o avião tinha caído. Nem queríamos acreditar que um jacto da nossa Força Aérea houvesse caído. Impossível, para os nossos tenros vinte anos acreditar em tal coisa, mas era verdade.

Entretanto, mobilizaram-se as tropas, para procurar e recuperar o Piloto. Vieram os Pára-Quedistas – a nossa tropa de eleição – e o grupo do “Marcelino da Mata”, tão famoso e tão famigerado.

Quando este grupo se estava a preparar para a operação de resgate, verifiquei que eles ostentavam uma chapa que dizia “OS VINGADORES OPERAÇÕES ESPECIAIS”. Fiquei tão eufórico que me ofereci para fazer parte desse grupo, tendo a anuência do Marcelino da Mata, visto eu ser de Operações Especiais. O Capitão Comandante da minha Companhia não foi em “cantigas” e não autorizou, mesmo tendo o Marcelino garantido que me traria de volta, nem que fosse às costas. A operação realizou-se; eu fui com a minha tropa, os Pára-Quedistas foram também para lá, assim como o grupo de Marcelino.

Recordo-me que andámos muito. Vimos os danos que os nossos obuses faziam nas árvores, todas escavacadas, e soubemos que os Pára-Quedistas e o grupo do Marcelino tinham resgatado o piloto. Regressámos e, ao chegarmos, o Capitão estava a distribuir cerveja em garrafas grandes, a que chamávamos “Bazookas”. Eu peguei na minha e bebi sofregamente enquanto o Capitão Quintas dizia “…bebe devagar, Carvalho, ainda te faz mal”. Eu, sem água havia muito tempo, com sede, cansado, e próprio dos meus vinte anos, não liguei e... “pumba”... caí redondo.

Entretanto fui nomeado para comandar os reabastecimentos a Guileje, para o longo período das chuvas, durante o qual ficávamos isolados, completamente cercados de água. Estes abastecimentos eram desembarcados em Cacine, de onde eram transportados em pequenos barcos para Gadamael, e daqui em viatura para Guileje.

Por esta razão encontrava-me em Gadamael quando a minha Companhia abandonou Guileje. Em Gadamael, através da Estação de Rádio “Conakry”, ouvíamos a “Maria Turra”, programa de acção psicológica da Guerrilha, segundo a qual já tínhamos “levado” em Guileje, e íamos “levar” em Gadamael. Que profecia maldita… meu Deus!

Foram pedidas urnas ao Comando em Bissau e vieram muitas mais do que as supostamente necessárias. Alguns, morbidamente, marcámos com o nosso próprio nome a que queríamos para nós. Mais tarde verificámos que não chegaram!

Posteriormente, e depois de um forte bombardeamento, vi um camarada tombado. Peguei nele e debaixo de morteirada intensa levei-o às costas para a enfermaria. Só aí verifiquei que faltava meia cabeça e os miolos escorriam-me pelo ombro abaixo. Deixei-o então nessa enfermaria, onde eram depositados os corpos e regados com creolina por causa da pestilência dos cadáveres.

Numa dada altura, ouvimos mais uma vez as “saídas” das granadas de morteiros a serem disparados pelo IN e tínhamos entre 22 e 23 segundos para nos pormos “a salvo” até as mesmas caírem em cima de nós; e uma coisa que nos espantava era que se corríamos para o cais, as granadas caíam no cais, se corríamos para o parque auto, as granadas caíam no parque auto, … certinho; eu corri para uma vala (não havia abrigos).

Já lá, senti as costas molhadas. Pus a mão e veio banhada em sangue. Então gritei: “estou ferido”. Fui socorrido e mais tarde evacuado, por uma Patrulha da Marinha para Cacine onde fui tratado, sem necessidade de ir para Bissau, e onde me disseram: “a tua guerra acabou, ficas aqui a comandar a secção de limpeza”.

Em Cacine ouvia-se o “embrulhar” (ser bombardeado) do quartel de Gadamael, de onde chegavam os feridos, que eu ajudava a tirar dos barcos e levava ao colo, vindo um deles a falecer. Fiquei tão transtornado que me equipei, peguei na minha arma que trouxera de Gadamael, aproximei-me de um Oficial e disse-lhe “ou me manda para junto dos meus camaradas ou estouro tudo por aqui.” Esse oficial deu ordens, imediatamente, para que me transportassem de barco para Gadamael. Lá fui, sempre a olhar para as margens à espera de um ataque.

Cheguei a Gadamael, e que confusão! Era tão indescritível que só digo: não havia cadeia de comando, não havia comida, matavam-se patos pequenos dos nativos e cozinhavam-se nuns bidons, com muito piripiri à mistura, e bebia-se vinho que escorria dos barris de 200 litros, esventrados por estilhaços dos ataques do IN.

Lembro-me que após um dos muitos ataques a Gadamael, saiu um Bigrupo de Pára-Quedistas. Passados alguns momentos, ouviu-se um forte tiroteio e viam-se os RPG’s a estourar no ar, durante o que me pareceu uma eternidade. Era uma forte emboscada inimiga.

Regressaram os Pára-Quedistas com dezasseis feridos, um dos quais um Sargento com uma bala numa perna que, olhando para o material capturado ao IN, sorria. Fantástico! Que moral!

Lembro-me que, noutro momento, estávamos a ser atacados com canhões sem recuo e que apareceram os Fiats, picando como nos filmes. Largaram uma bomba e até no quartel de Gadamael os corações tremeram com o som do seu rebentamento – pudera! Os ataques dessa zona acabaram. A bomba havia atingido a base inimiga em “cheio”.

No seguimento dessa minha odisseia, lembro-me que quando éramos atacados o pessoal fugia para o mato, onde era mais seguro estar, e que um Oficial Miliciano formou, em 4 de Junho, uma patrulha “ad hoc” para sair para a zona do antigo aeroporto, onde se presumia haver forças do IN. Saiu uma “espantosa” Força de 16 ou 17 militares, incluindo eu, e da qual faziam parte dois “putos” que tinham vindo voluntários para a tropa. Como tinham chegado à Província havia pouco tempo, obviamente dispensei-os de saírem. Após nos termos afastado cerca de 1200 metros do Quartel caímos numa emboscada e morreu o Alferes Branco, o Cabo Neves, o Anselmo e o Hipólito, além de ferimentos no “pica” homem nativo que ia à frente a picar o chão para detectar minas. Aguentei o fogo com outro camarada e, quando se acabaram as munições fugimos para o quartel onde chegámos num estado psíquico e físico indescritível. Os Pára-Quedistas saíram em socorro dos meus camaradas e regressaram com os corpos, violentados duma forma que me abstenho de transcrever aqui. Eu infelizmente fui autorizado a ver os corpos em cima de uma Berliet.

Hoje sei o nome do que padeço, Stress pós traumático de guerra. E a minha família…

Aqui deixo uns retalhos da vida de um militar de Operações Especiais, no Sul da Guiné, durante os primeiros seis meses do ano de 1973, com os quais e a partir deles compreendo a obra de que tenho a honra de escrever parte do posfácio.

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

M259 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XXI


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253, M254, M257 e M258. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M233, depois a M234, M235… M236... M237… etc.

Manuel Godinho Rebocho

2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné
1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253 M254, M257 e M258:

(continuação)

POSFÁCIO / DEPOIMENTOS


2. António Augusto Soeiro Delgadinho
Cumpriu uma Comissão de Serviço, nos anos de 1973 – 1974, como Alferes Miliciano, Comandando um Pelotão Operacional, na Guiné.
Ao ser convidado para escrever parte do posfácio deste livro fiquei bastante surpreendido. Tenho a certeza que irá surpreender também todos aqueles que tiverem o privilégio de o ler.
Quero primeiro que tudo, realçar o trabalho efectuado na investigação e dedicação sobre a Guerra de África.
Nos anos de 1961 a 1974 quase todos os jovens passaram por este tipo de situações. Para nós jovens da altura tínhamos que dedicar estes cerca de três anos ao país para defender a Pátria, como nos diziam na altura.
Expressar aqui a minha vivência da Guiné, não é mais do que uma achega ao que está relatado; um parágrafo nesta história magnífica que deverá ser reconhecida pelos nossos governantes e servir de ensinamento aos vindouros.
Ensinaram-nos enquanto fazíamos a especialidade que deveríamos ir pregar a paz, o amor e ensinar os naturais desses países a serem felizes.
Ao mesmo tempo ensinavam-nos a manusear armas que só serviam para matar e ferir.
Com estes ensinamentos lá segui para a Guiné. O Batalhão instalou-se em Nova Lamego, área que, segundo os entendidos, era zona de poucos conflitos com o inimigo, facto que testemunho pelo tempo que lá passei.
Mas, a situação no teatro de guerra começou a ser diferente e o Batalhão teve que se transferir para o Sul, para reforçar a zona do Cantanhez.
À minha Companhia, depois de vir para Bissau, foi-lhe comunicado que, antes de se transferir para o Cantanhez, teria que fazer segurança a uma coluna de reabastecimento a Farim. A coluna até correu bem, mas, quando chegámos a Farim fomos informados que um dos Comandantes do P.A.I.G.C. iria para aquela zona.
Fomos logo no outro dia para Jumbembem, para reforçar a Companhia que se encontrava naquela zona, com o objectivo de emboscar a picada onde se esperava que o Inimigo iria passar.
A fronteira Norte, principalmente Guidage, encontrava-se cercada e sujeita a fortes bombardeamentos. Depois de 15 dias em Jumbembem recebemos nova ordem, segundo a qual deveríamos ir para Norte. Seguimos então para Binta numa Lancha de Desembarque Grande (LDG). Logo a seguir recebemos ordem para reabastecermos Guidage.
Numa zona fortemente flagelada pelo Inimigo, numa estrada cheia de minas e sem conhecermos absolutamente nada, lá tivemos que ir cumprir a missão.
Conseguimos arranjar uma pessoa em Binta que contratámos para nos ensinar o caminho, para evitarmos as zonas minadas e contornar o Cufeu, que era o “Corredor da Morte” para emboscadas e outras actividades do inimigo (IN).
Chegámos a Guidage e o que vimos foi desolador. Um quartel devastado pela artilharia inimiga, os soldados psicologicamente em baixo, poucas munições e de alimentos não havia nada.
Com a moral mais elevada conseguimos reabilitar o pessoal a fazer os reabastecimentos necessários e controlar a área circundante ao quartel.
Passados dois meses recebemos nova ordem. Agora para nos deslocarmos para o Sul, para o Cantanhez, que estava bastante ameaçado pelo IN.
Como era de esperar, a nossa entrada no Cantanhez teve logo uma recepção nada agradável. A Companhia que nos foi fazer protecção caiu numa emboscada logo de manhã. À tarde e como tudo indicava que não haveria problemas, estacionámos na zona e tivemos logo o primeiro contacto com o IN. Chegámos finalmente ao aquartelamento de Jamberêm e encontrámos uma zona desmatada, cercada por arame farpado com valas em zig-zag e nalguns pontos uns abrigos abaixo da cota do piso térreo cobertos ou por telhas de zinco ou lona militar.
Outros abrigos não havia, apenas um pequeno abrigo para o posto rádio. Tivemos grandes preocupações de aquartelamento a que demos a máxima prioridade. Abrimos um abrigo para a Enfermaria e criámos condições mais dignas para os militares.
O Cantanhez era agora “na altura” a zona mais apetecível para o P.A.I.G.C. passados que foram os acontecimentos de Guileje.
Os contactos no mato com o IN e os ataques deste ao nosso aquartelamento eram uma situação quase diária.
A estrada de ligação para reabastecimentos e correio era obstruída sistematicamente, quer pelo rebentamento dos pontões quer pela colocação de árvores de grande porte. O Aquartelamento era flagelado com ataques de morteiro, canhão sem recuo e até mísseis terra-terra. Chegámos a estar cerca de 60 horas debaixo de fogo.
Por incrível que pareça todas as nossas movimentações eram quase sempre procedidas com emboscadas, contactos, etc.
Foi neste panorama que estivemos até ao 25 de Abril, e mesmo depois, ainda tivemos algumas baixas, fruto da desorganização instalada nos nossos governantes.
De salientar que durante todos este tempo só fomos visitados uma vez pelo General Spínola e o apoio que deveríamos ter a nível superior nunca existiu.
Como conclusão quero aqui salientar mais uma vez o esforço, a dedicação e o empenho que o autor deste livro teve.
Permito-me aqui, em nome daqueles que passaram por esta tormenta, o nosso muito obrigado ao autor.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

M258 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XX


ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M234 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253, M254 e M257. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M234, depois a M235… M236... M237… etc. 

Manuel Godinho Rebocho2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)Bissalanca/Guiné
1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M234 a M244, M246, M248, M249, M250, M252, M253 M254 e M257:
(continuação)

POSFÁCIO / DEPOIMENTOS
1. Abel dos Santos Quelhas Quintas
  • Cumpriu uma Comissão de Serviço, nos anos de 1972 – 1973, como Capitão Miliciano de Artilharia, Comandando uma Companhia Operacional, no Sul da Guiné.
Convidou-me o autor da obra “As Elites Militares e as Guerras d’África” para escrever um depoimento sob a forma de posfácio, dirigindo a atenção sobre as minhas experiências, como combatente na Guiné.
Não foi tarefa fácil por vários motivos, a saber:
1. Relembrar assuntos dolorosos que se encontravam enterrados havia alguns anos;
2. Escrever após o brilhantismo do autor;
3. Quebrar o mito de alguém que para a Companhia Independente de Cavalaria – CCAV 8350/72 – foi um grande herói e merecedor da estima e agradecimento dos componentes dessa companhia.
Como Capitão Miliciano a comandar esta Companhia, não quero deixar de dar a conhecer, em primeiro lugar, o nome dos meus grandes formadores como militar:
· O meu Comandante do Curso de Oficiais Milicianos, o então Capitão Passos Ramos, mais tarde assassinado na Guiné, no lamentável episódio do assassínio dos três Majores;
· Os respectivos instrutores;
· O meu Comandante do Curso de Promoção a Capitão, o então Major Pezarat Correia.
A estes homens muito devo da minha formação militar e, ao primeiro, também muito devo da minha formação como homem.
Escrevendo sobre a CCAV 8350 apraz-me dizer que a sua formação se efectuou em Estremoz, com a dedicação de todos e grande abnegação dos militares, pois foi incutido no seu espírito que, quanto melhor a preparação fora do teatro de guerra, melhores hipóteses teriam de sobreviver em condições de combate.
Felizmente essa finalidade foi atingida dado que todos nós interiorizámos essa realidade.
Chegados à Guiné havia ainda uma instrução a efectuar, a chamada Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), que durava cerca de 30 dias, instrução essa que tinha, no meu entender, duas vertentes principais:
1. Adaptar os militares ao tipo de clima;
2. Preparar os militares para se movimentarem em terrenos tão difíceis.
A CCAV 8350 não teve essa oportunidade na totalidade, pois embora existissem companhias com o IAO completo, foi a nossa que avançou para Guileje com apenas cerca de 15 dias de IAO.
Razões que a razão desconhece.
Como nunca rejeitámos uma Guia de Marcha, lá nos fomos instalar em Guileje, fizemos a sobreposição e ficámos por “nossa conta e risco”.
Foi um trabalho muito duro o que se desenvolveu para tentarmos criar insegurança às deslocações do inimigo (IN), pois todos os dias haviam actividades operacionais o que pelo menos obrigava o IN a pensar duas vezes antes de se aproximar do nosso aquartelamento.
Tudo corria normalmente. Os patrulhamentos dentro de determinados parâmetros eram efectuados e a realidade é que estávamos perante uma paz inusitada naquela zona.
Foi então criado o Comando Operacional n.º 5 (COP 5), que ficou sedeado em Guileje, para cujo Comando foi nomeado o Major de Artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima.
Desde logo a actividade operacional foi alterada, pois o Comando do COP 5 determinou que se tinha de reabrir uma “picada” para o Mejo, antigo aquartelamento já abandonado pelas nossas tropas.
Os meios operacionais disponíveis começaram a ser dispersos no trabalho da picada, na respectiva protecção dos homens empenhados nos trabalhos e ainda na actividade diária e de defesa que a Companhia necessitava de efectuar.
Como se pode depreender desta análise a actividade operacional que se vinha efectuando na zona, entre o Destacamento e a fronteira com a Guiné Conakry, começou a ser gravemente afectada, o que em meu entender veio permitir uma maior mobilidade do IN e ainda uma acção muito forte por parte deste, com implantação de minas no itinerário que estávamos a reabrir.
Pouco tempo antes de ser necessário fazer os grandes reabastecimentos a Guileje, pois iríamos ficar isolados na época das chuvas, fomos sujeitos a um fortíssimo bombardeamento que nos obrigou a pedir apoio aéreo para tentarmos acabar com ele. Essa acção foi desencadeada por um só FIAT que depois de lhe ter sido dado o rumo das saídas do bombardeamento desapareceu e acabou o ataque ao Aquartelamento.
Não ouvimos o rebentamento de nenhuma bomba lançada pelo avião, nem tivemos mais qualquer notícia dele. Quase ao final da tarde, apareceu-nos o Tenente-Coronel Brito que, aos comandos de um outro avião e via rádio, nos questionava sobre o avião que horas antes nos sobrevoara e não regressara à sua base. Soubemos depois que havia sido abatido.
No dia seguinte, o Piloto Tenente Pessoa, foi recuperado vivo tendo estado empenhados nesta acção os Pára-Quedistas que vieram do Norte e a nossa Companhia, entretanto reforçada com o Grupo do Marcelino da Mata.
Este acontecimento foi um rude golpe para a nossa Companhia, pois a partir daí as colunas de reabastecimento que sempre haviam tido apoio aéreo, deixaram de o ter.
Nessa altura fui passar 15 dias de férias à Metrópole. Quando regressei e cheguei a Guileje deparo com o seguinte cenário:
· As três peças de artilharia 11,4, que estavam devidamente reguladas, tinham saído de Guileje;
· Em seu lugar havia um obus 14, (com menor alcance) e cerca de 20 granadas. Este obus não estava regulado não tendo portanto interesse como material de artilharia, mas apenas como de defesa em tiro directo num eventual ataque ao aquartelamento;
· Em Gadamael existiam mais 2 obuses 14, destinados a Guileje, mas tanto quanto me informaram, um deles estava mesmo caído ao rio Cacine;
· Já anteriormente, atendendo a que a nossa Companhia tinha dois morteiros 10,7, tinham-nos retirado um;
· A necessidade urgente de transportar o material de artilharia, as respectivas munições e todos os reabastecimentos necessários à época de isolamento que íamos atravessar.
No meio de tudo isto fomos visitados pelo General Spínola, Comandante Chefe das Forças Armadas da Guiné, que nos alertou para um eventual aumento da actividade do IN com possíveis e fortes ataques a Guileje.
Nessa visita foi-nos garantido pelo General que, no entanto, a Força Aérea iria voar para Guileje sempre que necessário, para pelo menos serem efectuadas as evacuações de feridos.
O desengano veio rapidamente. Passados poucos dias, os feridos resultantes duma emboscada, tiveram de ser evacuados pelos nossos próprios meios e um militar morreu por não ter sido possível fazê-lo chegar atempadamente ao Hospital Militar.
Como se pode depreender, depois da palavra dada pelo Comandante Chefe ter falhado, era extremamente difícil manter a moral das tropas elevada.
Há ainda a acrescentar que a CCAV 8350 não tinha médico.
O IN deu então início a um bombardeamento contínuo e de forte intensidade sobre Guileje, só abrandando quando se fez fogo de morteiro 60, para as zonas próximas do aquartelamento obrigando o IN a resguardar-se, mas foi “sol de pouca dura”.
Entretanto o Major Coutinho e Lima que se tinha deslocado para Bissau “a pedir reforços”, coisa que o Comandante da Companhia sempre fizera através dos Pilotos dos Fiats que a partir de determinada altura recomeçaram a sobrevoar Guileje, mas agora acima dos 6.000 pés, foi obrigado a regressar a Guileje. Face ao cenário desolador que encontrou, de destruição e de baixo moral das tropas, deu ordem de retirada, o que foi efectuado sem quaisquer incidentes, pois o IN não conhecia o trilho por onde seguimos e ainda não se tinha colocado naquela zona.
Era uma companhia esfomeada, sequiosa e com uma moral muito em baixo, a que chegou e se instalou em Gadamael. Fomos depois recebidos duma forma brutal pelo Coronel Pára-Quedista Rafael Ferreira Durão, que havia sido nomeado Comandante do COP 5, substituindo o Major Coutinho e Lima, que fora preso.
Julgo que a prioridade seria recuperar estes homens para poderem terminar a sua comissão com o máximo de utilidade para as nossas Forças Armadas.
Desengane-se quem assim pensar pois as primeiras palavras foram para nos vilipendiar por termos abandonado Guileje e que nos deveriam mandar reocupar o aquartelamento. Nesse momento o Coronel estava a ser um sonhador. Quando acabou de sonhar, insultou-nos da forma seguinte:
Passámos de imediato a fazer patrulhamentos e a montar emboscadas nocturnas sendo o nome de código do Comandante da Companhia, Rato 0 e os Comandantes dos Grupos de Combate, Rato 1, 2, 3, e 4, segundo o enquadramento orgânico, respectivamente.
Como qualquer estratega militar, mesmo mediano, sabia que a CCAV 8350 não estava nas melhores condições físicas e psíquicas para continuar numa frente de combate quanto era aquela.
A actividade operacional foi-se desenvolvendo com grandes dificuldades físicas de todos nós, até ao momento em que caiu sobre o Aquartelamento de Gadamael o inferno que tinha caído sobre Guileje. Só que em Gadamael não existiam as condições de defesa das existentes em Guileje e então deu-se início a mais um ciclo de enormes dificuldades.
Em 30 de Maio fui ferido, ficando a Companhia entregue e sob o comando de um Alferes Miliciano. Só a abnegação, a determinação e a coragem do Furriel Miliciano Casimiro Carvalho tornaram possível que, tanto eu como alguns outros feridos, fossemos retirados para Cacine.
Casimiro Carvalho, debaixo de fogo de morteiros e penso que de canhões sem recuo, foi buscar um motor para um Sintex (pequeno barco) no qual pudemos sair para Cacine perseguidos por fogo de morteiro. O Furriel Carvalho tinha a especialidade de Operações Especiais e foi o elemento mais operacional da CCAV 8350. Este homem nunca virou a cara a qualquer dificuldade e foram muitas e enormes as que vieram a seguir.
Depois de muitas incertezas consegui chegar ao hospital a Bissau sendo no dia imediato evacuado para o hospital da Estrela em Lisboa onde fui recuperado em termos físicos, ficando embora com uma deficiência valorizada em 41% e com os problemas psíquicos que nunca mais me abandonaram.
Aqui fica o meu testemunho, a corroborar o que está defendido na obra de Manuel Rebocho.

(continua)

Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados

domingo, 5 de setembro de 2010

M257 - Manuel Godinho Rebocho -“AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, Um Pára-Quedista Operacional da CCP123 do BCP12 - Guiné - XIX

ATENÇÃO: Esta mensagem é a continuação das mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252 e M253. Para um correcto seguimento de leitura da sequência da narração, aconselha-se a iniciar na mensagem M234, depois a M235… M236... M237… etc.

Manuel Godinho Rebocho
2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12 (Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 do Batalhão Caçadores Pára-quedistas 12)
Bissalanca/Guiné
1972 a 1974

O Dr. Manuel Godinho Rebocho é hoje Sargento-Mor na reserva e foi 2º Sargento Pára-Quedista da CCP123/BCP12, Bissalanca, 1972/74, escreveu um excelente livro “AS ELITES MILITARES E AS GUERRAS D’ÁFRICA”, sobre as suas guerras em África (uma comissão em Angola e outra na Guiné combatendo por Portugal) e a sua análise ao longo dos últimos anos, de que resultou esta tese do seu doutoramento.

Nesta mensagem continua-se a publicação de alguns extractos do seu livro, já iniciadas nas mensagens M233 a M244, M246, M248, M249, M250, M252 e M253:

III – A GUERRA DE ÁFRICA E O DESEMPENHO DAS ELITES MILITARES
(continuação)
3.3 – A Milicianização da Guerra

Da conjugação dos elementos constantes no livro do Estado-Maior do Exército (EME, 2002), com os elementos constantes nos processos sobre as histórias das unidades que estiveram em África, existentes no AHM, pode concluir-se que das 102 Companhias de Quadrícula, que estavam em Sector na Guiné, em Janeiro de 1974, apenas 11 tiveram algum comando de Oficiais oriundos da Academia Militar, mas só durante 9 meses, em média. Durante o restante tempo, em que permaneceram em sector, tanto estas Companhias como todas as outras, foram comandadas por Oficiais milicianos.
Todavia, e não obstante esta factualidade, neste mesmo período existiam nas patentes de combate (Capitães, Tenentes e Alferes), 880 Oficiais das Armas Combatentes (Infantaria, Artilharia e Cavalaria) originários da Academia Militar, entre os quais 759 Capitães.
Temos assim, que o Exército se milicianizou em toda a sua estrutura de combate (1) com todas as consequências que uma tal derivação doutrinária teria forçosamente que provocar.
Obtida esta verificação procurei apreciar o desempenho de algumas Companhias, cujo comando foi exercido por Oficiais milicianos, que estiveram estacionadas no sul da Guiné, mantendo assim semelhanças ambientais com as outras unidades de quadrícula e especiais já estudadas. Com este objectivo recorri à consulta dos respectivos processos históricos e à entrevista de Oficiais milicianos envolvidos. Quando as circunstâncias o permitiram e fui para tal convidado, compareci nas comemorações que estas unidades realizam, por norma anualmente. Foi o caso da Companhia de Cavalaria n.º 8350/72, mobilizada no Regimento de Cavalaria n.º 3 em Estremoz, a qual ficou para a história militar como a unidade que personalizou o abandono de Guileje e o drama de Gadamael, no extremo sul da Guiné, nos meses de Maio e Junho de 1973.

Das longas horas de gravação rádio que efectuei (2) com diversos elementos desta unidade, particularmente com o seu Comandante (3), conjugadas com o meu próprio conhecimento dos factos, dos procedimentos e das situações foi possível descrever o desempenho desta “unidade de milicianos” nos seguintes termos.
3.3.1 – A Companhia de Cavalaria 8350/72
A Companhia chegou à Guiné no dia 25 de Outubro de 1972, tendo assumido responsabilidades no subsector de Guileje, no dia 22 de Novembro do mesmo ano, cuja acção foi orientada para a abertura do itinerário Guileje-Mejo e para a interdição da zona de fronteira. Porém, e segundo o então Comandante desta Companhia, só após a criação do Comando Operacional n.º 5, em 22 de Janeiro de 1973, se deram início às operações de abertura do itinerário Guileje-Mejo, o que em boa verdade não se compreende. Mejo era um antigo Destacamento abandonado havia muitos anos, o itinerário estava minado e não se previa qualquer circulação das nossas tropas por esse itinerário.
O Comandante da Companhia 8350, Capitão miliciano de Artilharia, estabeleceu e estruturou, com o apoio do Alferes miliciano que comandava o Pelotão de Artilharia, um sistema de apoio às tropas, que patrulhavam a zona de fronteira, de extrema eficácia. Este sistema consistia no bombardeamento antecipado dos itinerários que as suas tropas iriam percorrer, o que permitia, segundo os vários graduados que entrevistei, uma segurança e tranquilidade muito acentuada. Sobre este assunto escreveu o Furriel miliciano de Operações Especiais, José Casimiro Pereira de Carvalho, em carta (4) dirigida a sua mãe e datada de 17-02-73: “Saímos às seis da manhã e chegámos às 14, estivemos quase na República da Guiné. Antes de ali chegarmos fomos protegidos com 20 tiros de Peças de Artilharia 11,4 cm. Cada granada pesa 25 kg”.
A grande precisão e eficácia dos bombardeamentos da nossa Artilharia, a cargo e à responsabilidade de um Alferes miliciano, impedia qualquer veleidade do inimigo em se aproximar ou atacar, com alguma eficácia, o Aquartelamento de Guileje. Houve mesmo homens desta Companhia que me afirmaram que a vida no Destacamento era passada com alguma tranquilidade. Em carta de 21-03-73, para a mãe, afirmava o Furriel Carvalho: “mando-lhe uma foto, de quando eu vinha de dar uma volta com a pressão de ar e com dois pardais à cintura”. O pequeno testemunho, que aqui transcrevo, revela efectivamente o quando a zona de Guileje estava limpa da pressão da Guerrilha.
O relato não deixa quaisquer dúvidas de que os Oficiais milicianos não tinham menos preparação técnica, para a Guerra que enfrentámos, do que os Oficiais do QP. Vejamos mesmo o seguinte comentário, do Furriel Carvalho, na carta citada anteriormente: “ficaram vários turras feridos numa mina que pusemos, perto do território deles, e que eles levaram, (os turras mortos e feridos) é claro, mas fica sempre sangue e bocados de carne, botas e roupa. Isto é chamá-los a pôr mais minas contra nós, mas os Altos Comandos assim mandam.”
A afirmação proferida por um Furriel miliciano que, conjugada com outros relatos e elementos que me foram facultados, demonstram que quem iniciou as hostilidades no extremo sul da Guiné foi o Estado-Maior português e não a Guerrilha, cuja resposta um Furriel previu e o Estado-Maior não. Estávamos a 21 de Março de 1973. Quatro dias depois, a 25 do mesmo mês, a Guerrilha iniciou os grandes ataques a Guileje.
Foi a resposta, que o Estado-Maior não previu, nem soube contrariar, logo, não pode afirmar qualquer capacidade formativa sobre os Oficiais milicianos, os quais provaram estar bem “acima deles”, ou, por outras palavras, os aspectos técnicos desta Guerra eram tão primários que todos os conheciam, as diferenças estavam nas capacidades de cada homem, que pouco ou nada tinham a ver com o quadro a que cada um pertencia.
– A 1.ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6521/72
A Companhia chegou à Guiné no dia 27 de Setembro de 1972, sendo colocada em Cadique no dia 21 de Janeiro de 1973 a fim de reforçar a segurança e protecção dos trabalhos de construção da estrada Cadique-Jemberém. Em 20 de Abril de 1973 seguiu para Jemberém, tendo sofrido 18 ataques e flagelações até 4 de Setembro de 1973, data em que foi substituída (EME, 2002: 243).
O comando do Batalhão, a que esta Companhia pertencia, foi colocado no Pelundo, em cujas proximidades ficaram estacionadas as outras duas Companhias que o integravam. Sabendo que a zona do Pelundo era, já na altura, uma zona relativamente pacificada, fica ao analista uma certa interrogação sobre o que teria motivado a desagregação desta Companhia, que foi colocada, no muito provavelmente, segundo pior local do sul da Guiné, já que estou a considerar que o pior era Guileje. Este facto sugere-me que a Companhia era possuidora de alto valor e merecedora de confiança do Comando Chefe. Eu próprio a conheci de perto, uma vez que a minha Companhia esteve dois meses em Cadique em simultâneo com ela.
Durante estes dois meses a segurança de proximidade aos trabalhos da estrada foram alternadamente garantidos por esta Companhia e pela Companhia de Pára-Quedistas. A Companhia de Artilharia, em funções de Infantaria, somente não se deslocava para as proximidades das bases dos Guerrilheiros – também seria pedir demais – tarefa que ficou sempre à responsabilidade dos Pára-Quedistas. Mais tarde, nos meados de Maio de 1973, quando os Guerrilheiros cercaram Jemberém, impedindo o seu abastecimento, e a CCP 123 se deslocou para as suas proximidades, foi colocado neste destacamento o bigrupo constituído pelos 2.º e 4.º pelotões, comandado pelo Tenente Sousa Bernardes e integrando o 2.º Sargento Pára-Quedista Joaquim Manuel Delgadinho Rodrigues, que na altura comandava o seu pelotão, o qual, tanto na altura, como em entrevista no âmbito da presente investigação, me referiu o elevado comportamento desta unidade de tropa normal que era comandada pelo Capitão Miliciano de Cavalaria Casimiro Gomes.
Esta verificação demonstra-nos que todos os Capitães que actuaram como operacionais na Guerra de África dispunham dos conhecimentos suficientes às suas funções e ao desempenho que deles se esperava e requeria. As diferenças, e grandes, que as houve, estiveram e foram sempre dependentes das capacidades dos homens e não nem nunca do quadro a que pertenciam nem do tipo de formação que tinham adquirido.

– A 3.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4514/72
A Companhia chegou à Guiné no dia 9 de Abril de 1973, sendo colocada em Nova Lamego. A partir de 10 de Junho de 1973, foi atribuída em reforço do COP 3, instalando-se em Guidaje, até finais de Agosto desse ano, por naquela área se ter acentuado a pressão inimiga. Em 4 de Setembro foi deslocada para Jemberém, onde se manteve até 23 de Maio de 1974 (EME, 2002: 175). Como nos sugerem as datas e a documentação nos confirma, esta Companhia rendeu em Jemberém a 1.ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6521/72.
Mais uma vez, complementarmente a tantas outras, se comprova terem existido na Guerra de África excelentes Oficiais milicianos, garantindo-nos que a formação não era limitadora de nada nem diferenciadora de coisa alguma. Antes, tudo dependia das capacidades psicofisiológicas dos diversos actores.
Esta Companhia foi teoricamente comandada por dois Capitães, dos quais apenas um a comandou efectivamente, mas apenas durante 15 dias, durante todo o tempo restante, que na prática foi toda a comissão, foi comandada pelo Alferes miliciano António Augusto Soeiro Delgadinho. Esta verificação, de significativa importância, demonstra-nos que não só os Capitães milicianos demonstraram capacidade para comandar as Companhias, mas também alguns Alferes milicianos provaram deter essa capacidade.
A afirmação é tanto mais relevante, se tivermos em consideração que Jemberém foi seguramente o aquartelamento que, em toda a Guiné, apresentava piores condições de defesa, já que estava situado no Cantanhez e não foram edificados quaisquer abrigos, nem mesmo estruturada qualquer organização defensiva.
Neste aquartelamento, limitado por uns arames mal colocados, onde algumas tendas de campanha serviam de bar, de arrecadação e de enfermaria, os militares viviam em buracos no chão com umas folhas de zinco a protegê-los das chuvas e do sol, folhas de zinco essas, que não chegaram pata todos. O efectivo militar deste destacamento era constituído por duas Companhias e um Pelotão de Artilharia, o que justificava plenamente o Comando de um Major do QP. Porém, o Comando estava entregue a um Capitão miliciano apoiado por cinco Alferes, também milicianos.
Uma verdadeira “debandada”, é a designação que considero apropriada para designar a conduta dos Oficiais do QP.
Em e-mail que me enviou, no dia 13 de Julho de 2005, como que para sintetizar toda a nossa longa entrevista, afirmava o então Alferes miliciano, Comandante da 3.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4514/72, António Augusto Soeiro Delgadinho: “não posso deixar de comentar como foi possível acontecerem situações como aquelas que os nossos governantes da altura nos fizeram.
Temos a consciência que nenhuma guerra se faz só com os profissionais; os milicianos também têm que fazer parte dela; mas falo da Guiné que foi o que conheci, nós, milicianos e soldados, fomos pura e simplesmente despejados para zonas, das quais não conhecíamos nada, nem sabíamos o que é que íamos fazer.
Ter um Comandante de Batalhão, que não sei se comunicámos mais de 20 vezes, que nunca teve a coragem de nos visitar, que nunca nos apoiou em nada, sendo ele profissional, foi no mínimo uma irresponsabilidade total.
Pessoalmente, só tenho a agradecer a todos aqueles militares e milicianos que me acompanharam nesta tarefa e que juntos conseguimos manter a moral em alta e superar toda esta situação impensável e denegrida que nos obrigaram a afazer.”
As palavras que me escreveu o cidadão António Augusto Soeiro Delgadinho, sugerem uma pergunta e desde logo uma resposta: qual a diferença entre os Oficiais do QP e os Oficiais milicianos? Os valores que individualmente perseguiam detinham e a estabilidade no emprego. Nada mais.

NOTAS do texto:

(1) Tenho aqui em consideração que os Pelotões foram sempre comandados por Oficiais milicianos.

(2) Nestas gravações de entrevistas e na condução das mesmas fui apoiado pelo Capitão Pára-Quedista na reforma Joaquim Manuel Delgadinho Rodrigues, o mesmo que quando 2.º Sargento orientou os “seus homens” na resposta e contenção de um forte ataque da Guerrilha, em Gadamael, em Junho de 1973, mesmo depois de terem sido abandonados pelos restantes homens da Companhia que cumpriram as ordens de retirada, proferidas pelo Comandante de Companhia. Retirada essa que os homens de Delgadinho não podiam cumprir devido à violência do ataque e ao perigo que corriam se o fizessem.
(3) Capitão Miliciano de Artilharia Abel dos Santos Quelhas Quintas, então com 32 anos de idade.
(4) O Furriel Carvalho escrevia todos os dias a sua mãe e relatava tudo o que acontecia na unidade com extremo pormenor. Estas cartas, que ainda guarda, podem constituir-se como um diário de grande fidelidade. Foram estas cartas que José Carvalho me facultou e suportam as minhas afirmações.

(continua)
Textos, fotos e legendas: © Manuel Rebocho (2010). Direitos reservados