quinta-feira, 19 de julho de 2012

M511 - O quartel de Vila Gamito - Moçambique - Por Carlos Nabeiro

Carlos Nabeiro
1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842
Vila Gamito - Moçambique - 1967/70 

Carlos Alberto Pitéu Nabeiro, foi apresentado na mensagem M504. 1º Cabo da CCAÇ 2357 do BCAÇ 2842, Vila Gamito, Moçambique, 1967/70, e enviou-nos mais uma mensagem e algumas das fotos do seu álbum de memórias, que passamos a publicar:


1. Ao iniciar esta minha segunda mensagem lembro um grande Amigo, Camarada, bom líder e Adjunto do Comandante de Companhia - o Alf. Mil de Operações Especiais/Ranger, Fernando Gaspar Ferreira, que sempre estimei como um irmão e que foi o comandante do meu pelotão. 

Ligava-nos um estranho acaso (ou não), o termos nascido no mesmo dia, mês e ano, além de sermos da mesma estatura física (ele um pouco mais atlético). 


Fomos para a tropa ao mesmo tempo, ele para o Curso de Oficiais Milicianos (C.O.M.) e, eu, para o Curso de Sargentos Milicianos (C.S.M.). 

A nossa empatia ficou mais reforçada, quando numa ocasião em que o RANGER Ferreira veio num período de férias ao Continente e me surpreendeu ao deslocar-se de Tomar, ou Santarém, até Setúbal para dar noticias minhas aos meus pais. 


Tínhamos um senso de humor muito Igual, que pode ver-se na foto em que ambos pegamos em armas apreendidas aos turras – Simonovs russas -, e simulamos um ataque à baioneta, entre nós. 

Dá-me que pensar, como foi possível sem nunca nos termos conhecido antes, de uma forma para mim estranha, num universo de milhares de homens que foram mobilizados para a Guerra do Ultramar, eu ter encontrado naquele ser humano, o que eu considero ter sido o meu gémeo astral. 

Vivíamos num grande isolamento numa zona que se tornou muito perigosa mas, as instalações não eram más, tínhamos água com fartura, não comíamos muito, nem bem, mas tínhamos sempre tudo limpo e arrumado, e andávamos sempre bem fardados. 


Na foto a cores que tirada num domingo (dia do Hastear da Bandeira Nacional), está o RANGER Ferreira e o capitão Artur Agnelo Coelho Amaral (o primeiro dos três capitães que tivemos ao longo da Comissão), perfilado em continência. 


Retrato da nossa chegada a um local pré-estabelecido para darmos inicio a uma operação contra o inimigo ao nível da Companhia, onde eu estava com a malta da minha secção. Vê-se, pendurado ao pescoço, uma versão então moderna do celebre rádio "Banana" - um AVP com seis canais. 

Falávamos entre nós, elementos da companhia, e, se necessário, com os aviões de apoio e protecção às colunas. 

O RANGER Ferreira, infelizmente já não está entre nós, pois foi vítima de um cancro no pâncreas. 

2. O quartel de Vila Gamito construído no sopé de uma colina, tinha dimensões razoáveis, em plano inclinado, e possuía poucas instalações, além de uma Parada enorme. 

A Parada era desmatada e nela cabia uma Esquadrilha de Helicópteros. 


Era pois na Parada que estiveram posicionadas as Peças de Artilharia, que, como foi dito, devido ao acentuado declive da mesma, permitia a vantagem delas poderem mudar rapidamente de posição e ângulo de tiro e, caso fosse necessário, disparar de diversas Cotas Métricas. 


As fronteiras comuns: Moçambique, Malawi e Zâmbia, estavam a 40 quilómetros de Vila Gamito e o aquartelamento, quando lá chegamos, tinha meia dúzia de metros de valas que serviriam de em caso de ataque e estava completamente desprovido de abrigos de defesa passiva. 

Mais tarde, como a zona começou a ser classificada como “zona avançada”, devido ao crescente número de contactos com o inimigo, resultantes, nomeadamente, da passagem de grupos armados com destino para o interior do distrito de Tete. 

Assim, as instalações passaram a ser ocupadas e defendidas por outras Armas. 

Pode-se perguntar: “Então os turras não faziam tiro ao alvo lá de cima dos montes? 

Vejamos: Aquele Estacionamento Militar, em princípio foi construído pela Engenharia para ser usado apenas por Companhias de artilharia (apoio de retaguarda). 

Como é sabido, as armas de Artilharia pesada são de tiro curvo. 

Daí, a colina da qual se obteve a foto acima, em cujo cimo se encontrava uma pequena construção de cimento e tijolo, semi-enterrada no solo com o telhado em forma de terraço, servia perfeitamente para posicionar um homem, com um binóculo, ou outro instrumento, na regulação da precisão de colocação dos tiros das Peças de Artilharia. 

No sopé da colina tinha uma área escavada no seu interior onde se situava o Paiol. 

No Abrigo da regulação de tiro, passou a ficar de vigilância 24 horas/dia uma secção, que era rodava por todos os pelotões, evitavam-se "visitas" indesejadas. 

No perímetro do quartel, além das duas filas de arame farpado, o outro lado da elevação foi todo armadilhado mais tarde. 
Não fora o nosso isolamento, distávamos cerca de 130 km de Picadas inenarráveis para chegar á Sede do Batalhão e a 300 de Tete e tínhamos a nosso cargo uma zona enorme para Nomadisar (patrulhar), ou em operações a pé, ou de helicópteros (emprestados pela Rodésia). 


Detectamos fornilhos aos montes, tivemos um ou outro recontro como inimigo muito rápido na Picada e algum “arraial” a noite toda. O que nos valia é que os nossos"visitantes" tinham só armas ligeiras. 

Assim, apesar de não haver muito com que nos alimentarmos, o "quartel" era o nosso Paraíso. 

Ainda no nosso tempo, a Engenharia voltou lá para acabar a obra, e que obra Santo Deus, pois abriu-nos um furo Hertziano dentro da Parada, que nos dava água com fartura e de boa qualidade. 

Enfim no meio daquilo tudo foi uma bênção. 




2 comentários:

Antonio Batista disse...

Caro Companheiro d´Armas,
Antes de mais os meus parabéns pelo belíssimo Site.
Também eu conheci bem Vila Gamito, pertenci á C Cav 2654 do B. Cav 2903
sediado em Furancungo onde chegou em Fev70, portanto pelos vistos fomos nós que substituimos voçês. A C Cav 2652 foi a que foi para V.Gamito, eu cediado primeiramente em Furancungo e depois em Chizampeta escoltei várias colunas a V. Gamito e uma vez até Freitas daí a razão de conhecer bem V. Gamito. A 2652 foi a Compamhia do nosso Batalhão com mais baixas. Na altura naquela zona a pior coisa que nos podia acontecer era ir a V. Gamito.Além dos 120 km sempre a picar havia sempre qualquer coisa de ruim, minas, emboscadas, pontes destruídas, abatizes etc.

Alcides Rodrigues disse...

Estive em vila gamito companhia 3500 Janeiro de 72 a Agosto de 73 já não havia colunas de abastecimento fomos rendidos e saimos de elicopero